Há 4 anos, mais ou menos no finalzinho da madrugada eu comecei a sentir pontadas na pélvis e pela primeira vez na vida tive uma cólica… Foi a melhor cólica que tive na vida.
A Rosa roubou meu coração e o levou para o final do arco-íris, trouxe para uma vida cinza e amargurada todos os sonhos em tons vibrantes, transformou as minhas lágrimas de tristeza e dor em um rio para se fazer rafting. Me fez amar profundamente mais uma vez na vida.
A Rosa as vezes inventa cada carícia, arrasa o meu projeto de vida e me faz construir tudo novamente junto com ela, ilumina o meu caminha como uma estrela guia.
A Rosa me fez entender a minha mãe e aquele olhar que ela lançava para mim e para a Paloma do nada, como se estivesse encontrado o maior tesouro da vida e não o quisesse perder nunca mais.
A Rosa é a medida e a peneira para as pessoas entrarem na nossa vida, é a minha preocupação eterna e a vontade de só fazer coisas boas. Essa menina é a fada que acorda no meio da noite, escorrega pela cama e vem correndo dormir comigo.
A Rosa me dá um beijo delicado na bochecha e toda vez que vai dormir na casa de um tio, avó ou amiguinho me surpreende, me deixa com saudades e a minha bochecha se umidifica com algumas lágrimas. Lágrimas de felicidade, pois essa menina conquistou meu coração desde o primeiro momento, desde quando descobri que ela estava ali dentro do meu útero.
A Rosa me fez cantar novamente Nirvana bem baixinho dentro do banheiro entre uma contração e outra… Come as you are… A Rosa me fez ir para o hospital preocupada, me fez ficar acordada a noite mesmo sabendo que estava tudo bem e que aquele pacotinho dormia como se nada existisse no mundo.
A Rosa me fez dançar nos domingos de tarde, pular na cama, brincar de cowboy, assistir desenhos animados, me reaproximar de amores antigos, consolidar amores novos.
A Rosa apronta, pega um ovo e faz um bolo. Faz birrinha de criança, fica de castigo e parte meu coração quando chora no castigo, mas aprendi a esconder meu coração partido nessas horas.
A Rosa é o meu projeto de vida, é a minha vontade de mudar o mundo… É talvez a decisão mais correta que tomei na minha vida e o maior acerto que eu poderia ter.
A Rosa venta de um lado para o outro, parece duas meninas maluquinhas que conheci quando era pequena. A Rosa veste as minhas roupas, sobe na motoca e diz: Já volto mãe.
A Rosa ama carnaval, filmes, livros, música e fantasias.
Eu não teria voltado a ser eu se essa menininha não tivesse chegado na minha vida e despertado o meu coração vulcânico adormecido, tomado meu corpo numa enchente digna da pororoca e me feito olhar tudo com uma paixão e um desejo que há muito tava perdido.
A Rosa trouxe o amor e a felicidade de volta há 4 anos e assim vai continuar, retubante, aos trancos e barrancos e me mostrando a viver a vida num gole enorme sem ter medo de ver a areia escorrer entre os dedos.
Ela acordava todos os dias e passava 30 minutos em cima da cama pensando na vida, as vezes pensamentos atribulados e ansiosos, outras pensamentos leves, delicados como a asa de uma borboleta. Queria contos de fada e se deparava com a dureza de pedra da vida real, todos os dias a vida passava feito um teaser na sua frente; olhava para o lado e todos os pensamentos sobre o passado davam lugar ao sentimento mais doce existente no mundo. Passava a mão nos cabelos finos e tocava o nariz pequeno com os lábios da forma mais delicada que poderia fazer.
Eram estes momentos entre começar a rotina e acordar dos sonhos que tudo mais fazia sentido e a vida real se encontrava com os contos de fada, pois ao seu lado encontrava aquela criança dormindo tão calma e serena, levantava e colocava The Magic Numbers para tocar, pois a sonoridade alegrinha e simples resumiam o fato de que no raiar do dia não havia contas para pagar, almoço para resolver, problema político para pensar, existia só a felicidade plena e serena.
Haviam os casos, as paixões, as historietas típicas de filmes ou sitcons, mas nada que a fizesse amar daquele jeito, uma forma de desejar existir uma Terra do Nunca só para não se crescer mais e o tempo parar ali entre os primeiros raios de sol para sempre. Fazia uma prece bem baixinha, desejando aquele momento parar de uma vez e uma janela com ares vintage e dourados se abrisse para as duas poderem voar, pois algumas das coisas que queria dar aquela pequena não podiam ser feitas neste mundo aqui.
Nas pontas dos seus dedos escorriam um néctar delicado colhido do ninho das fadas, antes dos primeiros raios de sol brotarem no horizonte, deixando apenas um mundo de faz de conta e revelando aos poucos um outro mundo mais real. Nestes primeiros raios de sol desejava congelar o momento, mas desejava mudar o mundo, para que aqueles pares de olhos tão ávidos pela vida não tivessem que descobrir a diferença entre os contos de fada e o mundo real.
Construía aventuras enormes para se lembrarem, mesmo sabendo não ser ninguém para construir estas aventuras e que não necessariamente seria visto com bons olhos as duas pulando em cima da cama no meio da tarde, mas sonhava com estas coisas enquanto o sol nascia. Sonhava com um encontro entre o amor mais antigo e este amor mais novo, e o encontro do amor mais novo com todas as paixões que uma hora passaram pela vida real e tiveram uma pitada de sonho de fadas.
Passavam os 30 minutos e só ouvia sua voz dizer: Rosa, está na hora de ir para a escola, vamos acordar?
Em um tom muito parecido com um tom de voz antigo e que há muito não podia mais ouvir, levantava e se dava conta de que estava na hora de encarar o mundo de pedra. Sentava e chorava um pouco e aí uma mãozinha paraiva nas costas e só ouvia uma voz pequenininha: Mãe? Você tá chorando? Não chora não, eu to aqui.
Faz tempo por aqui que não escrevo especificamente sobre maternidade e feminismo, mesmo tendo pensado bastante sobre esta relação e até escrito algumas coisas no Blogueiras Feministas sobre saúde da mulher nesta fase da vida. Basicamente sobre parto e amamentação, faz tempo que não falo sobre telações sociais e o lugar da mulher-mãe na política. Tenho tido vontade de retomar este tempo há bastante tempo, muito pelo fato de estar acompanhando quase diariamente o Blog da Elaine César e muitas das coisas que lá ela escreve me fazem refletir sobre a própria relação entre maternidade e militância.
Para mim não há duvida de que feminismo e maternidade tem relações próximas, não apenas pela questão da criação e formação das pessoas, mas também pelo fato da sociedade encarar o maternar como função exclusiva da mulher, sem compreender a revolta hormonal que acontece no corpo feminino durante a gravidez e no puerpério, ou então quando se escandaliza ao ver uma mulher amamentanto no ônibus sem cobrir os seios como se fosse um sério atentado ao pudor.
O papel de mãe acaba por se enquadrar na lógica de só existir apenas dois tipos de mulheres no mundo: as santas e as putas. Justamente a visão sacralizada de maternidade que a Iara se refere no parágrafo citado acima, mães não trepam, não mostram os seios, não tem desejos… Vivem apenas para as crias e se fogem disso logo escutam: Isso não é um comportamento aceitável, você é mãe. (Luka)
A questão inicial é justamente a não compreensão, muitas vezes até por falta de formação mesmo, de qual é o lugar da mulher na sociedade e já faz alguns post que para exemplificar uso 2 vídeos, um da campanha equatoriana Reacciona Equador, el machismo es violência e um outro produzido pela SOF. Ambos seguem abaixo:
e
A Divisão Sexual do Trabalho existente na sociedade é reverberada também nas organizações políticas em geral, acabamos por encontrar a existência de poucas políticas afirmativas e de formação para as mulheres poderem se apropriar dos espaços de direção e formulação da política, muitas vezes sendo relegadas as tarefas de organizar espaços para as reuniões, se responsabilizarem por garantir a alimentação, creches e o máximo apitar sobre a política relacionada às mulheres. Mui raro é vermos uma real transversalidade entre a discussão política-econômica e a discussão política-feminista. Criando assim a tal da Divisão Sexual da Militância.
As coisas acabam se dificultando quando é preciso assegurar políticas de inclusão militante das mulheres-mães, seja no movimento social, seja nas organizações políticas.
Para uma mãe solteira, jovem e militante não é fácil fazer escolhas, não é fácil escolher entre ir a uma reunião e ficar em casa acompanhando a filha, não é fácil decidir se o melhor para a criança é ter uma babá ou ir para escolinha no período em que estarás na faculdade, não é fácil lutar pelos direitos das mulheres de terem acesso a creches públicas decentes e não encararem uma fila de espera de mais de seis meses para poderem voltar a trabalhar enquanto você mesma passa por algo parecido. Acaba sendo você e você no olho do furacão para decidir algo.
Verdade seja dita, mesmo aqueles que pretendem te ajudar de alguma forma acabam te julgando, ou julgam pelas escolhas do teu parto e não tem coragem de vir discutir contigo, ou julgam quando é necessário deixar a filha para poder cumprir uma tarefa, ou fazem cara de não estou te entendendo quando tu viras e fala que não tem condição de ajudar em tarefa de acompanhamento alguma. No final das contas as mães militantes (sejam solteiras ou não) são as mais solitárias em suas escolhas e as que precisam de mais força para continuarem nos dois percursos. (Luka)
Até por que a demanda concreta de que para se participar de uma reunião, encontro, congresso ou qualquer outra coisa é necessa´rio também pensar em local adequado para os rebentos das militantes não é vivida pela grande parte do movimento ou organização, se não for lembrado pelas mulheres e reivindicado pelas mulheres-mães para que existam formas para garantir a sua participação na ida política e que não seja onerando do trabalho reprodutivo outras mulheres é fundamental, pois o cuidado com as crianças e com todo universo do trabalho reprodutivo não tem como ser tarefas também das mulheres em um movimento ou organização política, ou será que os anticapitalistas querem reproduzir a divisão de trabalho entre mulheres e homens nas suas próprias organizações?
Na lógica que eu escolhi para criar minha filha não são descasados a escolha por entender e participar de cada dia da cria e a luta por uma sociedade socialista, mas os companheiros e as companheiras socialistas, principalmente os jovens, não estão preparados para encarar em conjunto o desafio de ter uma companheira mãe que faz escolhas peculiares, sem a julgar por fora ou tentar ponderar o que seria realmente melhor tanto para o trabalho da corrente quanto para a militância da própria companheira mãe. Não entendem por que desconhecem, por que não querem conhecer até a vontade de ter filhos bata em suas portas e eles se deparem com a gama interminável de escolhas difíceis que temos de fazer e aí se sentirem mais uma vez sozinhos ao fazer essa escolha. (Luka)
Compreender que crianças pequenas acordam durante a madrugada e não são as/os outras/os camaradas que irão acordar para dar de mamar, ninar, tirar temperatura, levar ao PS – caso necessário – e para que consigamos fazer isso sem beirar a fadiga completa é importante pensar no que são as durações das atividades, se há espaço de descanso propício para crianças de todas as idades e algum companheiro assumindo esta tarefa que não seja uma mulher da organização. Mas refletir sobre isso não é fácil, pois nós mesmas achamos ter que dar conta de tudo, levar o mundo nas costas e não dividi-lo com ninguém, no melhor exemplo do mito da mulher-maravilha, podemos trabalhar, acordar a noite sozinhas, militar e ainda cuidar de casa sem precisar de ajuda, pois é assim a nossa vida e não te relação alguma com a construção social do que é papel do homem e do que é o papel da mulher na sociedade.
No final das contas repassamos para o âmbito da militãncia também o mito da mãe-santa, pura e que tudo resolve.
Quando engravidamos, algumas pessoas parecem nos incumbir de uma indumentária pura, imaculada, e assexuada. Infelizmente, nosso mito criador dominante exclui ou camufla o sexo. E o milagre da concepção da Virgem Maria nos imputa, a nós mães, a difícil tarefa de, na fantasia coletiva, dar à luz sem ter vivido o prazer sexual. Há outras formas de se entender essa história, sim. Há cristãos que privilegiam a sacralidade do feminino, sem a necessidade de sufocá-lo numa pureza mítica. Nesses casos, Jesus dialoga muito bem com o prazer, conhece as necessidades e os desejos humanos, e sabe que sexo é bom e a gente gosta. Portanto, apesar de ter dado à luz sem ele uma vez não significa que Maria tenha permanecido “pra sempre virgem, amém”. (POMBO, Carolina)
Pessoalmente sei o quanto isso cansa, lembrar para companheiras sempre que é preciso garantir alguém que tome conta da Rosa, me convencer que há horários que não tem como me extender nas atividades pois ela precisa dormir e descansar e eu também, pois não tenho como ser uma boa mãe fatigada e atolada de atividades para tocar, não ir a uma reunião política para poder ir na reunião da escola e compreender hoje que a minha tarefa prioritária é sim conseguir educar e criar uma criança de uma forma diferente da colocada aí, e que isso não conseguirei fazer sem que se pense seriamente o que é a inclusão da mulher-mãe na política. Ou alguém aí já viu um serviço de creche no Congresso Nacional para as funcionárias e parlamentares?
Falamos tanto do fato do lugar da mulher ser na política, mas de quais mulheres?
Preparando o post de hoje e acabo de me deparar com o vídeo de uma bela fala do meu querido e amado Drão no começo da #MarchaDaLiberdade. Tenho muito orgulho de dizer que fui da mesma gestão de CA desta figura, militando ombro à ombro no movimento estudantil e depois na mesma organização política. Fora que é um cuidador exemplar de Rosas e um belo tio piscina de bolinhas.