Pílula sobre machismo, movimento negro e revolução

No movimento negro se fala tanto que quando pautamos a necessidade de pensar as questões que tangem a vida das mulheres e LGBT negrxs é dividir o movimento, setorializar e enfraquecer a unidade. Engraçado que se esquece, ou fingem esquecer, que o debate racial travado por nós no movimento feminista e LGBT apontando concretamente o que significa a nossa emancipação por completa também somos taxadxs de divisionistas, setorialistas e afins.

Porém é interessante ver o como diversos homens negros nos espaços da política geral acabam por se aliando com homens brancos quando a lógica é silenciar as pautas que podem atingir a “unidade” da política. O pautar que existe diversidade, especificidades e que elas precisam ser compreendida no construir político cotidiano é pensar o construir a emancipação de toda uma classe que é mulher cis e trans, que é indígena, que negra, que é lésbica e que é profundamente marginalizada e subjugada pelo Estado em que vivemos é profundamente revolucionário e não o contrário.

Na verdade, o criticar a existência de tais debates, o apontar da existência de machismo, homolesbobitransfobia, racismo em qualquer organização e movimento ou organização passa também por nós pensarmos como construir um processo político que desconstrua vícios históricos existentes na política. A manutenção da divisão sexual do trabalho nos espaços de militância é uma das coisas mais nefastas para a luta pela emancipação de todxs oprimidxs e exploradxs. Nada além disso.

Não há revolução no Brasil se não tiver mulher cis e trans, negras, indígenas, lésbicas pensando e falando de política em todos os espaços e não apenas para servir como token, mas para efetivamente apresentar a política construída para emancipação dxs que são marginalizadxs.

A classe é essa diversidade, o movimento negro é essa diversidade, o movimento feminista é essa diversidade, o movimento sindical é essa diversidade… Se não pensarmos política para a diversidade oprimida apenas faremos o mais do mesmo.

Carta dos setoriais de negros e negras e de mulheres do PSOL sobre a manifestação de Jean Wyllys sobre o seriado “Sexo e as Negas”

A veiculação do programa “O sexo e as nega” tem alimentado diversos debates junto ao movimento de mulheres negras brasileiro desde o início de sua produção. O debate sobre a representação da mulher negra na grande mídia não é um debate novo para nós. A imagem historicamente construída e midiaticamente naturalizada, é baseada no papel social atribuído às mulheres negras, em que a subalternidade e precariedade de trabalho caminha ao lado da sensualidade erótica, sempre reforçando e naturalizando o papel de todas essas formas de exploração – de raça, gênero e classe.

E é durante o novembro negro, justamente na semana da Consciência Negra, que nos deparamos com a campanha #EuAmoSexoEAsNegaorganizada por alguns atores da TV Globo para defender o programa de autoria de Miguel Falabella. Uma das justificativas apresentadas para a defesa do programa seria o fato dxs negrxs terem muito pouco espaço de trabalho na teledramaturgia brasileira, que incorpora e reproduz um preceito liberal para o qual as mudanças podem ser fruto de paulatinas inserções e incorporações nos ambientes de poder, o que mudaria, por si só, um lugar socialmente e historicamente construído.

Ora, o que o próprio debate acerca do programa indica é que não.
Se de fato há essa inserção, ela tem se caracterizado por um reforço do estereotipo e do racismo institucional, erotizando e realimentando a subalternidade mascarada por uma “conquista”. A defesa do diretor do programa desvirtua o debate e reforça ainda mais essa visão individualista e meritocrática, visto que oculta a discussão de fundo e a coloca em seu lugar um falso reino de “oportunidades”.

É por compreender que a luta pela libertação das negras no Brasil passa também pela luta de libertação da mulher e contra a exploração do trabalho, que a Setorial de Negrxs e a Setorial de Mulheres do PSOL vem a público reafirmar a posição de que o programa #SexoEAsNega não é uma forma de “empoderar” e emancipar a imagem construída da mulher negra na teledramaturgia brasileira, na verdade apenas reproduz o imaginário coletivo de que nós somos o supra-sumo de um produto sexual a ser consumido, e trabalhadoras para as quais oportunidades são “concedidas”.

O povo negro e especialmente as mulheres negras nunca receberam concessões, mas conquistas. Conquistas de uma resistência histórica e brava, na qual raça, gênero e classe nunca estiveram dissociadas, pois todo o tipo de exploração sempre recaiu sobre nós.

Assim, aproveitamos para colocar que a defesa do programa feita pelo deputado Jean Wyllys não representa o debate desenvolvido por nossas companheiras feministas negras junto ao espaço do movimento negro e feminista. O parlamentar tem sido um aliado importante em diversas lutas de direitos humanos no árido cenário da Câmara de Deputados, porém neste episódio acabou contrariando a construção de um debate coletivo realizado não apenas por nossas companheiras feministas negras, mas também por todo um movimento social que desde o início vem travando uma disputa de consciência ferrenha sobre o que significa “O sexo e as nega” na construção da figura da mulher negra no imaginário coletivo do brasileiro.

Aproveitamos para deixar registrado que o debate entre todas as formas de opressão e identidade não devem ser compreendidos sem um recorte comum, o que fará deles um debate exclusivista e corporativo. É preciso avançar nessa interlocução de maneira urgente.

Sabemos o quão difícil é negrxs terem espaço na teledramaturgia brasileira, mas acreditamos que uma luta para ampliação e diversificação das personagens negras na produção brasileira seria muito mais frutífera do que a defesa de um formato que em sua origem já apresenta diversos vícios. É preciso lembrar que essa transformação da mulher negra no arauto da exotização brasileira é o que tem trazido o movimento de mulheres negras até hoje a questionar a nossa representação midática junto a sociedade brasileira, não somos um objeto que deva ser disponibilizado para o deleite dos homens, mas sim mulheres que exercem diversas funções desvalorizadas socialmente.

Por fim, nós da setorial de negros e negras do PSOL temos ciência de que a TV Globo utiliza uma concessão pública para veicular seus programas que reforçam o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e tantas outras formas de opressão e exclusão social. Sabemos que não nascerá da benevolência de Miguel Falabella a modificação de como as mulheres negras são retratadas na teledramaturgia brasileira, mas sim de uma real democratização da comunicação em nosso país que é urgente!

É por conta dessas questões que o PSOL não ama “Sexo e as Negas”, o PSOL ama e defende toda forma de luta por emancipação das mulheres negras no país e não a manutenção de um programa que aprofunda a nossa objetificação.

O PSOL sabe que essa conquista passa pela luta das negras e de toda a sociedade contra o racismo, além da necessária e urgente democratização da comunicação no Brasil!

Setorial de negros e negras do PSOL.
Setorial de Mulheres do PSOL.

A militarização da vida nas eleições presidenciais

Durante o debate político entre as candidaturas a presidência da república que aconteceu no SBT, exatamente no 2º bloco, deu para perceber bem o quanto a questão de segurança pública – que é fundamental para garantir a estruturação de qualquer projeto de sociedade seja ele qual for – de Dilma e Aécio compartilham profundamente da perspectiva de guerra às drogas e de militarização da vida para assegurar segurança pública. Jogam novamente com a lógica de que segurança é apenas polícia e não apresentam propostas de mudanças estruturais profundas na forma que nossa segurança pública se apresenta hoje.

genocidio_negro_by_latuff2

O primeiro ponto que impressiona é o fato de nenhum dos dois apontar que o alto índice de mortes junto a juventude no Brasil tem um recorte claro. Segundo o Mapa da Violência 2014 os homicídios de jovens no Brasil ultrapassam de 50% do número total de assassinatos ocorridos no país. Em pesquisa feita pelo IPEA em 2013 o instituto apontava que 70% dos assassinatos no Brasil eram de negros, ou seja, quando o debate sobre segurança pública apareceu ontem na peleja entre Aécio e Dilma também se escondeu que o Estado em que vivemos organiza sua segurança pública para manter os negros e indígenas no cabresto.

Se corrida presidencial trouxe para a ordem do dia o debate sobre a redução da maioridade penal, pouco se tem falado sobre a exposição dos jovens à violência e sobre as execuções praticadas contra adolescentes em São Paulo e no Brasil. O “mito do adolescente violento” transforma o jovem, negro e morador de periferia em uma espécie de bode expiatório da sociedade. Poucos estigmas no mundo são tão mortais. (MANSO, Bruno Paes. Pelo fim da pena de morte aos adolescentes. O caso São Remo)

A continuidade de uma política de segurança pública baseada no tolerância zero em nosso país ficou explicita durante o 2º bloco do debate presidencial no SBT. A omissão de Aécio e Dilma de que há um processo de genocídio da juventude negra e indígena, promovido prioritariamente por braços ligados aos governos federal e estaduais foi gritante.

E só pegar os documentos de programa de governo dos dois candidatos para ver como a estrutura de segurança pública que temos visto se recrudescer com UPPs, Forças Armadas prendendo gente em favelas, guerra às drogas e militarização da vida. No programa de governo da Dilma (não sei onde Aécio procurou, por que eu achei o  dito, mesmo levando algum tempo) ela aponta que a Força Nacional continuará a dar suporte a operações nos estados. Bom lembrar que tanto na Copa das Confederações e do Mundo a Força Nacional foi responsável em diversos estados por reprimir manifestações diversas, além de ser usada nas áreas de conflitos indígenas.

unidade-de-policia-pacificadora

No programa de Aécio sobre o tema ele é enfático ao ressaltar a necessidade de se continuar ocupações militares em áreas periféricas. Além do apoio claro a Proposta de Emenda Constitucional proposta pelo seu candidato a vice, Aloysio Nunes, que reduz a maioridade penal no país. Afrontando claramente o direito de crianças e adolescentes e não dando uma saída civil para a marginalização sofrida nas periferias pelas crianças e jovens negros e indígenas.

Ambos apontam para necessidade de guerra às drogas. Sem levar em conta em nenhum momento que esta política no mundo foi organizada para garantir uma guerra aos pobres.

A “guerra às drogas” tem servido de pretexto para criminalizar a pobreza e militarizar a vida, especialmente nas periferias e favelas, proporcionando lucros astronômicos para o mercado financeiro (que “lava” o dinheiro do tráfico) e para a indústria de armas. Hoje, existem mais de 140 mil presos por tráfico nas cadeias brasileiras. A maioria jovens, negros e pobres, réus primários presos sozinhos com pequenas quantidades de maconha. A “guerra às drogas” é na verdade uma guerra aos pobres! (CINCO, Renato. Basta de guerra aos pobres! Por outra política de drogas. Legalização da maconha, já!)

O processo já em curso no Brasil de privatização dos presídios também é contemplado nos programas de governo e já há anos vem sendo criticado pela Pastoral Carcerária. Lembrando que em todas as recomendações colocadas sempre se aponta que o fortalecimento de uma gestão pública dos presídios, com garantia dos direitos dos presos e de direitos humanos ajudaria na recuperação e reinserção na sociedade.

A manutenção de políticas militarizantes e punitivas em conjunto com a existência de um Congresso Nacional mais conservador e militarizado deveria acender uma luz vermelha a todos que defendem direitos humanos em geral para a dureza que viveremos após o dia 26 de outubro, independente de quem venha ganhar.

Iniciaremos mais uma etapa no Brasil onde resistência pouca será bobagem, o militarismo e o punitivismo vem ganhando espaço na política brasileira há anos e não poderemos titubear pra enfrentar o cenário recrudescido que se coloca para nós.

Estas questões não são minoritárias, a forma como se organiza a segurança pública de um país é o método para garantir a implementação de qualquer projeto de sociedade e uma segurança pública que no último período só vem crescendo em arsenal militar e em perspectiva punitiva não deve ser encarado por quem defende liberdade democráticas e direitos humanos como uma vitória.

HIV e Ebola: Capítulos do racismo institucional no mundo

A epidemia de ebola que assola há décadas o continente africano começou a preocupar o mundo. E essa preocupação tem muito pouca relação com o espírito humanitário dos outros continentes e mais um estigma histórico que é imposto ao continente mais negro do mundo e com mais disparidades sociais.

Ebola

Imagem: André Carrilho

No Brasil a preocupação apareceu após a suspeita de contagio por ebola de um imigrante africano, nos EUA a preocupação surgiu um pouco antes quando houve suspeita de contagio por parte de um homem no Texas. O que vemos acontecer hoje com o ebola não se difere em muito com o processo de estigmatização sofrida por homossexuais, haitianos, usuários de heroína e hemofílicos quando a AIDS começou a aparecer fora da África. Ah! A África, este continente que irradia doenças e retrocessos para o resto do mundo, lar de boa parte dos marginalizados sociais e que pra onde quer que seus herdeiros vão carregam em si uma espécie de marca maligna que justifica perseguição, estigmatização e violência.

Esse processo de estigmatização dos negros pelo mundo quando há surtos epidêmicos só reforça o quanto o tratar a saúde no mundo sofre de um profundo racismo institucional.

Já nos perfis das redes sociais, os comentários eram os piores, expondo um racismo latente. Na página Brasileiríssimos, um participante publicou um comentário em que afirmava não ser racista, mas que achava que “este NEGRO que está com Ebola no Rio de Janeiro deveria ser sacrificado”. Numa outra publicação num perfil particular, uma jovem dizia que todos os africanos deveriam morrer porque eles só trazem doenças. No Twitter, um usuário pedia que fossem jogadas três bombas no continente africano, já que fora da África há poucos casos de infectados e que tinha como controlar a doença. Um outro post pedia que matassem logo o africano, pois “melhor morrer um do que morrerem mil”. (ALLEMAND, Márcio. Suspeita de ebola em africano gera comentários racistas nas redes sociais)

O fato é que o estado burguês e racista vem estruturando pelo mundo um organização social que coloca os negros, os marginais sociais em situação de maior vulnerabilidade. Tanto hoje o apavoro que se coloca sobre o Ebola, quanto o que foi feito com a AIDS demonstra uma organização em escala mundial do racismo institucional na saúde. Não é menor o fato de que os maiores óbitos até hoje das duas doenças são no continente africano e não em qualquer outro. Talvez este seja uma das mais cruéis heranças que Faetonte tenha legado ao continente africano: a estigmatização por ser negro.

O fato é que as políticas de isolar os países africanos que sofrem há décadas com o Ebola é também uma forma de impor aquela população uma política genocida e de campo de concetração. O processo estruturado de empobrecimento que tem em seu cume a segregação racial resvala também no processo de marginalização cada vez profundo no sistema capitalista, tendo recorte inclusive no sistema de encarceramento em massa.

Nos primeiros dias da epidemia de aids nos EUA, o medo, o estigma, arecusa de tratar as pessoas, de tocar as pessoas, foi um grande desafio”,disse Kates à Newsweek. “Já existem histórias de medo e preocupação sobre quem tem visitado países na África Ocidental”.

Kates compara isso às atitudes expressas para com o povo do Haiti, nos primeiros dias da epidemia de aids. Haitianos passaram a fazer partedos “quatro H” de “homossexuais, viciados em heroína, hemofílicos e haitianos”, segundo a Avert, uma organização internacional sem fins lucrativos para combater HIV e aids. (WESTCOTT, Lucy. Resposta americana ao ebola faz eco dos primeiros dias da epidemia de aids)

Em Antiblack Racism and the AIDS Epidemic, Adam M. Geary aponta o quanto o processo de segregação dos negros nos EUA facilitou a nos tornar mais vulneráveis a uma transmissão em massa de HIV. Geary faz uma avaliação apenas levando em conta os negros estado-unidenses infectados pelo HIV e como a organização racista do estado naquele país garantia que os ghettos ajudassem na proliferação da epidemia. Os países africanos hoje com o Ebola, assim como foi com a AIDS, são estes ghettos mundiais estados nacionais organizados para a proliferação e opressão de toda uma população negra e que de tempos em tempos é profundamente estigmatizada por conta de problemas de saúde que não são intrinsecamente ligados a raça ou a pobreza.

Na melhor das hipóteses, a associação de epidemias com a pobreza é estático. Na pior das hipóteses, é enganosa. Nas sociedades capitalistas, onde a pobreza é construída para preservar a apropriação privada do excedente social do trabalho, a condição dos pobres, incluindo a saúde, é um produto dinâmico de sua relação com a riqueza, não uma função da própria pobreza. (STARK, Evan. Passagem usada na página 71 de Antiblck Racism and the AIDS Epidemic)

Em uma sociedade capitalista e racista a forma como estão organizadas as periferias dos países e as periferias do mundo são catalisadores importantes para a transmissão em massa de epidemias, criando eternos espaços marginalizados, estigmatizados e, principalmente, vulneráveis a toda forma de racismo institucional quando surge a ameaça das epidemias saírem dos espaços onde “naturalmente” elas existiriam e matariam os alertas e o pavor criado em torno estas epidemias dá vazão ao mais vil preconceito.

O que vemos hoje acontecer no mundo é o atestado de como estamos falidos humanitariamente. A tardia preocupação com o Ebola foi também a tardia preocupação com o HIV e hoje o processo desembocado no Brasil onde africanos e hatianos tem sido estigmatizados como possíveis portadores do Ebola apenas coroa esse processo todo de racismo existente no mundo. Inclusive por que o tomar medidas preventivas nos países mais centrais, sem resolver realmente o drama existente junto ao marginalizados na África só coroará ainda mais um perspectiva racista e genocida de tratar aquele continente.

[+] Ebola Is Not a Weapon

[+] Duas epidemias

Mulheres no debate: Esquentando os tamborins para um programa sobre as eleições

Esse não é o post oficial da semana. Apesar de tratar de tema recorrente pelo blogo: política e feminismo.

Pois bem, a Ttouts e eu estamos produzindo um programa para web rádio  de análise política sobre 2º turno das eleições. Não apenas comentários sobre o cenário nacional, mas também sobre o cenário de 14 estados brasileiros que estão reencontrarão as urnas no dia 26 de outubro.

Vou te contar, tarefa nada fácil essa, viu? Pois não é apenas o fazer um espaço de debate político sobre as eleições de 2º turno, mas também colocar mulheres para comentar sobre o significado do cenário em seus estados e nacionalmente das disputas aí postas.

Até o dia 24 de outubro estaremos no ar com o programa, depois de ligar para diversos estados, pedir ajuda para diversos coletivos e organizações para montarmos um programa onde as mulheres protagonizam o debate político e não apenas para dar um ar cosmético de diversidade e pluralidade ao rolê.

A ideia do programa é não apenas colocar mulheres para comentar a conjuntura dos seus estados e analisar o que está em jogo nas disputas de governos e da presidência, mas também mostrar que não existe debate político apenas no eixo Rio-São Paulo-Minas. Estados que normalmente são alvo das análises políticas prioritárias na grande mídia e também na mídia alternativa.

O programa será a estréia das transmissões da embrionária Rádio Baderna e a nossa vontade é que dê tudo muito certo para que consigamos estabelecer um espaço na internet de mulheres no debate político mais geral também e somar com todos os espaços que tem criado trincheiras feministas, antirracistas e antihomolesbobitransfóbicas na internet e fora dela.

PS: Ainda estamos atrás de meninas do Acre e Roraima que possam comentar as eleições nestes estados numa perspectiva de esquerda, feminista e crítica.

Macacos e vadias são a mesma premissa de ressignificação?

“A falsa abolição fez vários estragos
Fez acreditarem em racismo ao contrário
Num cenário de estações rumo ao calvário
Heróis brancos, destruidores de quilombos
Usurpadores de sonhos, seguem reinando” (GOG. Carta à mãe Àfrica)

Ontem havia dado alguns pitacos sobre #SomosTodos Macacos, não chamarei de campanha e nem de movimento por que não se trata disso, se trata de campanha de marketing e apenas isso. E acho que identificar essa questão é fundamental. A movimentação gerou bastante discussão pelas redes sociais, e com algumas reflexões interessantes sobre o que seria um processo de ressignificação do termo “Macaco”.

Pois bem, estamos às vésperas da “Marcha das Vadias” e esse foi um exemplo bem concreto que vi colocarem neste debate sobre #SomosTodosMacacos. A “Marcha das Vadias” é um movimento contestatório muito importante e se utiliza da ressignificação do termo “Vadia” para pautar que todas as mulheres (negras, brancas, índigenas, mulçumanas e afins) são vítimas de violência sexual, independente do lugar, da roupa e da profissão. Ou seja, o termo “Vadia” universaliza a justificativa para a violência contra todas as mulheres que saem do “padrão” colocado em uma sociedade patriarcal.

Marchamos contra o racismo porque durante séculos nós, mulheres negras, fomos estupradas e, hoje, empregadas domésticas são violentadas, assim como eram as mucamas. Marchamos pelas crianças negras que são hostilizadas pela cor de sua pele, por seus cabelos crespos e são levadas a negar suas identidades negras desde a infância, impelidas a aderir ao padrão de beleza racista vigente. Marchamos porque nossa sociedade racista prega que as mulheres negras são “putas” por serem negras, tratando-nos como mulas, mulatas e objetos de diversão, desprovidas de dor e pudor. Marchamos porque nós negras vivenciamos desprezo e desafeto reduzindo nossas possibilidades afetivas; “Vadia” enquanto estigma recai especialmente sobre nós negras, por isto marchamos em repúdio a esta classificação preconceituosa e discriminatória de nosso pertencimento étnico-racial. (Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012)

Acho que esta é uma primeira dimensão necessária para entendermos o debate colocado desde domingo. Ontem quando publiquei o post “Macaco não é elogio” era justamente para conseguirmos ter a dimensão do que significou a diferenciação biologista entre europeus e outros povos massacrados por eles. E essa questão é importante, por que se em qualquer lugar do mundo termos parecidos com “Vadia” são usados para justificar toda uma cultura do estupro globalmente e a resignificação foi cunhada pelo próprio sujeito da opressão patriarcal, o mesmo não acontece com o termo “Macaco”.

Não acontece com “Macaco” pelo fato de que este termo na verdade subjulga toda uma gama de pessoas negras, índigenas, mulçumanos, latinas  afins aos europeus, porém quem cunha a tentativa de ressignificação não são os sujeitos dessa opressão. Negros, indígenas, mulçumanos e afins não reivindicação deste setor social para problematizar uma relação de opressão real existente no Brasil e no mundo.

E pra mim isso é algo fundamental. Esse termo foi usado ao longo dos séculos para justificar massacres e genocídio de populações diversas que eram reconhecidas como selvagens pelos europeus e hoje é apresentado como uma outra roupagem pelos mesmos que estiveram nos caçando nas florestas e açoitando no pelourinho.

E aí é importante localizar uma coisa: Essa pretensa campanha se utiliza de forma oportunista de uma resposta importante dada por Daniel Alves no domingo.

Quando uma grande parcela de pessoas brancas se identifica como “macacos”, infelizmente o sentido racista ressoa na expressão, e é como se essas pessoas estivessem dizendo que, num gesto de solidariedade, estão se identificando como negros (e não genericamente como seres humanos). Ou seja, por mais bem-intencionada que seja, a pessoa que diz “sou macaco”, nesse contexto em que se discute o racismo, está sem querer dizendo que negro e macaco se equivalem e que macaco não abrange semanticamente o branco. (LEITE, Thiago. Macacos)

A problematização sobre quem é sujeito e tem capacidade para ressignificações levando em conta o peso social e político que esse processo tem são os sujeitos da opressão. Isso é outro ponto fundamental, a desconstrução deve ser feita por seus sujeitos e não por seus opressores.

Não somos todas travecos. Não somos todos macacos. Não somos todos boiolas. Não somos todas vadias. Não posso pretender subverter o uso de um termo que nunca foi usado de forma violenta contra mim. Mas posso estar aberta a participar na luta contra cada um desses preconceitos sem tentar ocultar as vozes dos verdadeiros protagonistas. (MAGALHÃES, Camilla. Postado no Facebook)

É preciso também compreender a profundidade política da discussão. O processo de apropriação e cooptação de pautas por parte do capital e de suas bases estruturantes não é algo novo. Na verdade vai se reinventando para conseguir estabelecer um limiar de que temas realmente nefrálgicos para a classe trabalhadora e os setores mais marginalizados dessa classe trabalhadora tem alguma relevância. O outro caso que ocorreu no domingo também demonstra bem isso. A homenagem acéptica feita no programa “Esquenta” a mais uma vítima da violência militarizada do estado.

Eram os nossos que deveriam estar ali. Onde estão os intelectuais e ativistas negros para falar sobre o genocídio de seus jovens?? Onde estão as referências que inspiraram o menino Douglas para começar a dançar?? Onde está o espaço privilegiado para o desabafo da mãe, a presença dos amigos e a vida do jovem antes e fora do Esquenta?!?!? Nada disso estava ali, nós não estamos, nem nunca estivemos ali. Não se enganem!!!! (ASSIS, Mariana. Não se enganem!!)

Essa localização de qual foi o legado que nos trouxe até aqui. Em um processo que acirra a xenofobia/racismo na Europa. Que tenta invisibilizar a morte de negrxs e índigenas em um processo de reorganização social no Brasil que passa pela garantia da expropriação de terras índigenas e quilombolas para garantir o desenvolvimnto do agronegócio, onde a justificativa para intervenção militar nas favelas cariocas é uma pretensa guerra às drogas que, inclusive, tem sido alvo de críticas nos EUA, país onde a política foi originada.

É neste caldo político, nesse moedor de carne negra e índigena que este debate sobre ressignificação está inserido. Não é algo fora da realidade, não é algo alijado do debate de conjuntura que vivemos hoje no Brasil e no mundo. E também não é uma posição defensiva, pois há uma ofensiva real da população a questionar as ações racistas contundentes do estado brasileiro. A resposta ao combate ao racismo, machismo e homolesbotransfobiaserá dada pelas ruas, de forma contundente reivindicando que nossa vida seja garantida e não apenas uma ação de marketing para encher os bolsos daqueles que ajudam a manter a nossa opressão.

Macaco não é elogio

A polêmica instaurada sobre a “campanha” #SomosTodosMacacos necessita uma boa localização. Primeiro por que tenho visto gente problematizando com isso resignificações com termos como queer, vadia e afins que foram resignificações fruto de movimento contestatórios importantes.

Essa diferenciação é importante pelo fato de que a utilização e apropriação do termo macaco para se referir a população negra é feita justamente para estabelecer que há uma diferença evolutiva entre negrxs e brancxs. Essa dita diferença foi usada em diversos momentos da história mundial para o desencadeamento de processos de genocídio profundos, e até hoje estes processos existem.

Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do quê os cientistas daquela época provlamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A história do jovem Ota srviu para inflamar as crenças sobre a suprmacia ariana defendida por Adolf Hitler. Sua história é contada no documentário “The Human Zoo” (O Zoológico Humano). (Por que comparar negros a macacos não é motivo de piada)

Foi se baseando nessa falsa ideia de evolucionismo que enfrentamos processos de colonização por todo globo terrestre que massacraram populações que não se enquadravam em um padrão europeu de civilização e de estética. É disso que advém o processo de genocídio indígena e negro no Brasil. Essa base de que alguns são mais humanos do que outros, mais evoluídos do outros ajuda a sustentar um tipo de Estado excludente, que marginaliza e mata a maior parte da nossa população.

Os horrores do nazismo acabaram com o namorico da ciência mainstream com o racismo biológico. O genocídio de Adolf Hitler, apoiado de bom grado por cientistas e médicos alemães, mostrou que a má aplicação da ciência pode acabar.

Isso deixou o racismo científico nas mãos de grupos de extrema direita que estavam muito dispostos a ignorar as descobertas da biologia evolutiva do pós-guerra em favor de suas variantes pré-guerra. (BRADLEY, James. O insulto macaco: uma breve história de uma ideia racista)

O rechaço a violência sofrida por Daniel Alves ontem durante a final do Campeonato Espanhol revela o quanto há um espaço para se debater seriamente o racismo no país, porém ao mesmo tempo revela o quanto não olhamos para como o racismo se estruturou na sociedade ao longo dos séculos. Não #SomosTodosMacacos pelo simples fato que isso reverbera uma lógica ancestral de que há um setor na nossa sociedade mais evoluído do que o outro.

O acontecido com Alves no final de semana em nada se difere com os xingamentos e exclusão racista existente em nosso país ou quem não lembra do comediante Danilo Gentili oferencendo bananas para terminar uma discussão sobre racismo no twitter?

Além do mais é preciso compreender que em toda essa discussão também há um forte recorte de classe. Primeiro por que em nenhum dos outros casos veiculados neste ano sobre racismo no futebol vimos tanta solidariedade das figuras que se solidarizaram com Alves. Assim como não vemos estas mesmas pessoas localizarem o quanto a estrutura em que se baseia xingar o outro de macaco ajuda no processo de genocídio da nossa população no Brasil, hoje tendo como maior exemplo a intervenção militar no Rio de Janeiro.

Sem mais publicações