O ano passado terminou com o Chile bombando por conta do movimento estudantil e o processo de mobilização que alastrou o país, diversas pessoas foram para lá cobrir in loco o que estava acontecendo. Todos conheceram Camila Vallejo e acompanharam os desdobramentos da luta por uma educação pública por lá – lembrando que lá não existe educação pública igual a cá.
Muito bem este ano dois processos de mobilização interessantes vem acontecendo pelo continente americano, um é no México e que vem esquentando as eleições por lá e colocando em xeque a antes provável reeleição do PRI e o outro é em Quebec, no Canadá, e este é um que me parece interessante se ater, pois é uma das regiões mais abastadas do Canadá e dentro das mesas de negociação que vem acontecendo por lá entre estudantes e pans a luta que se coloca é por uma educação pública.
Os mais de 7 milhões de habitantes do Quebec são descendentes de colonizadores franceses, em contraste com as outras nove províncias anglófonas do país. 82% dos quebequianos são franco-canadenses e 10% anglo-canadenses. A província é de tradição ultracatólica e conservadora: até os anos 60, a Igreja Romana monopolizava a educação, por força da constituição provincial. À Universidade superelitista chegavam 3% dos jovens francófonos do lugar e não mais que 11% dos anglos.(CARVALHAES, Ana Cristina. “Primavera do Quebec” sacode província canadense em defesa do acesso democrático à educação)
Engraçado que como sempre a grande mídia fica caladinha sobre este processo, ainda mais com o circo pegando fogo aqui no Brasil em torno a educação superior pública – greve de docentes podendo ser estendida para uma greve geral da educação superior federal.
Em represália a três meses de protestos de estudantes indignados com elevação dos custos do ensino superior no Canadá, o governo da Província de Quebec aprovou uma lei emergencial que restringe a ação de movimentos políticos e ordena até mesmo o fechamento de algumas universidades. (MAURO, Filipe. Quebec proíbe manifestações e reprime estudantes que protestam contra custos universitários)
O processo ali é de se dar atenção, pois no último dia 23 de maio a ministra da educação ali caiu, o governo havia sinalizado recuar de algumas de suas imposições e os manifestantes canadenses e pedem a revogação da Loi 78.
Revoltados, os estudantes se recusam a cumprir as determinações e prometem continuar os protestos. “O ministro da Segurança diz que não acabou totalmente com o direito de protestar, mas que ele foi melhor estruturado. Eles defendem esta lei, mas as suas ações continuam as mesmas”, disse Martin Desjarden, presidente da Federação de Estudantes Universitários.
“Desta forma, as autoridades pressionam os estudantes cada vez mais e esperam que o movimento se desagregue por si próprio. Na verdade, acontece o contrário. O movimento de protesto vai aumentando e já saiu das fronteiras do Quebec. Temos visto muitos manifestantes de Vancouver, Toronto e Calgary, afirmou Desjarden.
Abalado por escândalos de corrupção, o governo do primeiro-ministro Jean Charest, do Partido Liberal, aumentou em 82% em sete anos as mensalidades no Canadá. “Lamentamos que o governo Charest tenha escolhido o caminho da repressão em vez do caminho da negociação”, declarou à agência France Presse um dos dirigentes da luta estudantil, Léo Bureau-Blouin. (TERRA, Marina. Estudantes de Montreal exigem alteração de lei que restringe manifestações)
Há elementos do que acontece hoje no Canadá que me lembram muito o Chile, a começar pelo fato de lá não haver educação pública. Porém o que mais é importante localizar é que Chile, México e Canadá há mobilizações sustentadas por universitários, pela juventude e que de uma forma ou outra acabam por questionar a própria situação política destes países. Porém protagonismo da juventude não significa que este setor seja o único ator importante destes protestos, na Canadá alguns setores sindicais já começam a se somar aos estudantes.
Agora é acompanhar os processos que se abriram nestes países, e talvez com o próprio processo que se abre na educação superior brasileira possa ser o estopim para diversos questionamentos políticos. Mais ainda estou cética quanto a chegada de um momento de ascenso de lutas em nosso país.