A necessidade da esquerda socialista compreender o direito ao corpo

Cada vez o domínio sobre o corpo das pessoas tem aumentado e isso tem reverberado diretamente em políticas para a classe trabalhadora, ou seja, o direito ao nosso corpo precisa ser encarado como um patamar importante da luta das mulheres da classe trabalhadora também, não na lógica da liberação sexual pela liberação sexual, isso é limitador, mas como a necessidade da busca de uma sociedade plenamente igualitária e emancipadora. Perder este pé e a noção de que hoje no mundo se reorganiza um pedaço do movimento feminista que precisa ser disputado é um tanto cego, pois a maioria das mulheres que mais precisa destas políticas são trabalhadoras e negras.

A legalização do aborto tem sido um dos temas mais nefrálgicos do programa feminista há muito tempo, ainda mais em países em que a laicidade do estado é uma lenda urbana muito mal contada. Semana passada mais um capítulo da luta pela legalização da prática no país foi escrita, o Ministério da Saúde acabou por divulgar que iria estudar medidas para reduzir os danos do aborto ilegal em nosso país. A notícia obviamente causou furor entre os conservadores de plantão que dizem esta política ser ilegal, confirmando que em nada se preocupam com a vida das mulheres. Pois mesmo uma política recuada do governo que primeiramente só pensa em estudar a possibilidade de uma política de redução de danos (ou só eu acho que a possibilidade da possibilidade é algo recuado?).

Segundo a proposta em discussão, os médicos passariam a orientar as mulheres decididas a tomar o remédio. Explicariam como usá-lo e qual é a dose ideal, de forma a reduzir o risco de complicações. É possível que o governo crie uma cartilha para orientar os profissionais sobre o que fazer quando atendem uma paciente antes ou depois do aborto clandestino. (SEGATTO, Cristiane. O Estado e a mulher que aborta)

Porém esta política necessita de um olhar sobre o que é a saúde pública brasileira hoje. Um país onde parte considerável do serviço público é vendido para OSs e OSCIPs, das quais a maioria é administrada por entidades religiosas e impõe dentro da sua administração seus dogmas. Muitas vezes se negando a atender mulheres em situação de abortamento. Lembrando que no caso das mulheres negras a situaçãod e sangramentos e risco de vida acaba sendo 6 vezes mais do que as mulheres brancas, pois normalmente somos nós que recorremos ao SUS privatizado e desmantelado.

O debate está aberto há tempos, é um embuste dizer que este movimento do Ministério da Saúde reabre o a discussão junto a sociedade, até por que foi este o debate que pautou as eleições de 2010, onde a atual presidenta capitulou de todas as formas aos tucanos e aos verdes, assim como tirou do papel a MP 557 (cadastro de gravidez) para viabilizar o seu Rede Cegonha e escanteou de vez o PNAISM (Plano Nacional de Atendimento Integral à Saúde da Mulher) e o PNHP (Plano Nacional de Humanização do Parto). Ambos de formulação da época do governo Lula  e que atendiam a diversidade de mulheres (negras, lésbicas…) existentes na classe trabalhadora hoje.

A política sobre direitos sexuais e reprodutivos acaba sendo tão controversa no país que é preciso sentar e observar atentamente as movimentações do poder público na área. Como já disse a política de privatização da saúde por parte do governo petista é uma realidade no país. São leitos do SUS terceirizados para planos de saúde, postos de saúde administrados por empresas privadas e não pelo poder público e tudo isso interfere diretamente na aplicação de uma política que leve em conta os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, ou seja, o direito sobre o corpo das mulheres tem relação direta com as políticas existentes hoje em nossa sociedade sobre saúde pública. E debate saúde pública e direitos sexuais e reprodutivos deve ser muito pequeno burguês mesmo para parte da esquerda brasileira não fazer esta ligação e não disputar nos espaços do movimento de saúde, feminista, sindical, estudantil e o escambau uma concepção de saúde que contemple a maioria da classe trabalhadora.

A política de privatização da saúde acaba por interferir diretamente no próprio debate de humanização do parto, pois a industria da cesárea no país e a desumanização do atendimento obstétrico, pois a maioria das cesarianas feitas em nosso país é no setor privado, que em alguns lugares chega a quase 80% das taxas de parto.

O Brasil é o país com maior índice de partos por cesariana no mundo.

Isso é uma grande preocupação para os governantes e para as famílias.

Para cada 1% que se cresce no índice de partos por cesariana, o custo operacional para o país e para a sociedade é aumentado em US$ 9,5 milhões. (*)

Uma em cada 1000 mulheres morre em partos por cesariana (**)

Na América Latina estima-se um número de 850.000 partos por cesariana desnecessários e o Brasil tem o índice de 32% bem acima dos Estados Unidos e todos os outros países latino americanos.(***). O Organização Mundial de Saúde desde 1985 recomenda que este número não ultrapasse 15%. (OLIVAS, Walter. Partos Normais x Partos por Cesariana)

Ora, se há um processo de privatização da saúde pública brasileira e os números mais alarmantes da industria da cesárea é na rede privada de saúde é só somar os dois dados para saber o que vai aprofundar nesta seara da saúde da mulher, ou não? Casas de Parto públicas com gerência direta ao governo são raríssimas, mesmo que saiam nos planos votados nas conferências de mulheres e de saúde. O que há na verdade é um descaso geral com os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, mas não apenas aquelas que nasceram com vagina e útero. Porém fomos acostumadas a não compreendê-las como parte também do mundo do gênero feminino.

Sim, as mulheres trans e travestis também sofrem diretamente com essa política aí colocada e que interfere na discussão do direito ao corpo.  Na última Parada Gay de São Paulo o governo tucano soltou nota pedindo para que as travestis e transsexuais se vestissem de maneira “comportada”, além disso a organização da para tirou estas mulheres do carro oficial da parada, onde o querido governador paulistano Chuchu estaria presente.

As travestis e transexuais iriam vestidas de professora, enfermeiras, advogadas. “Eles [os organizadores] pediram que nós não fossemos peladas ou de vestido curto. Mesmo a gente achando que no fundo tinha algum preconceito porque boy de sunga branca sem camisa iria ter aos montes, nós concordamos porque era uma maneira de dar visibilidade aos transgêneros.”

Toda esta situação escancara um certo desdém, mesmo que implícito, pelas vítimas mais visíveis da homofobia. “Com esta gestão não conseguimos diálogo algum, existe uma invisibilidade para as travestis e transgênros. A Parada Gay hoje é uma parada machista e misógina”, desabafa Janaína. (ANGELO, Vitor. Travestis e transexuais protestam contra Parada Gay: “É machista e misógina”)

Compreender o momento histórico onde o qeu há de mais conservador na sociedade acaba nos marginalizando, tirando direitos e justificando isso pela moral e bons costumes é fundamental. Pois o direito ao aborto legal e seguro, ao parto humanizado e a não marginalização dos LGBTs, em especial as TTs é importante. Pois as mulheres marginalizadas por realizarem abortos, por não serem biologicamente mulheres e que sofrem com cesáreas desnecessárias estão de um lado importante da classe trabalhadora, pois na maioria destes casos quem sofre a opressão é quem está na base da sociedade e por estar na base da sociedade é quem mais sofre com as retiradas de direitos e o descaso existente seja pelo governo, seja pela não compreensão de suas lutas por parte da esquerda sectária.

Mães pretas, mães encarceradas, mães trabalhadoras, mães sem direitos

Faz tempo que não consigo sentar e organizar um texto para publicar aqui pelo BiDê Brasil, mas como hoje é dia das mães e também 124 da abolição da escravatura achei por bem juntar os temas e sair do ostracismo aqui do blog.

Hoje é o dia em que a maternidade é celebrada, este instinto divino natural das mulheres que fica anos latentes até elas serem fecundadas e darem a luz aos minúsculos rebentos que formaram novos homens e mulheres da sociedade. Dádiva preciosa, é o significado que foi socialmente construído em nossa sociedade, bem antes da revolução industrial, mais ou menos na época em que surgiu a propriedade privada e a necessidade de se assegurar que os herdeiros de uma determinada linhagem eram seguramente herdeiros legítimos.

O instinto materno, como tantas outras coisas, é socialmente criado. Pior a maternidade da forma como a conhecemos é imposta as mulheres cotidianamente, muitas vezes sem que o estado e os governos garantam o mínimo acesso a direitos para que as mulheres mães tenham condição de criar seus filhos e fazer o mínimo planejamento familiar.

É no mundo do trabalho que vemos mais desnudada a diferença construída por um estado capitalista e patriarcal. Pois é neste espaço em que a diferenciação entre o trabalho reprodutivo e o trabalho produtivo se denudam e podemos perceber o quanto um é menos valorizado que o outro, e o quanto as mulheres acabam por assumir duplas ou triplas jornadas de trabalho. A secundarização do combate ao machismo só ajuda a reafirmar um estado baseado na opressão e desigualdade entre homens e mulheres, e assim pode ser dito também sobre o combate ao racismo e à homofobia. (FRANCA, Luka. A classe trabalhadora tem raça e gênero)

Vivemos em um mundo onde as mães são ovacionadas, mas quando aproximamos a nossa lupa vemos quanto o mínimo para o exercício da maternidade plena para todas as mulheres está longe de se efetivar, são mulheres que perdem suas moradias por causa de megaobras no Brasil todo, são atacadas dia após dia com os cortes anuais do governo em áreas sociais importantes como educação e saúde e nos afetam diretamente. São os nossos filhos que são mortos diariamente pela polícia militar brasileira, se durante a escravidão eram os sinhozinhos que tiravam a vida dos nossos filhos hoje o trabalho sujo foi institucionalizado, é o próprio estado que se livra de nós, seja por meio da política de genocídio da nossa juventude, seja pela crescente precarização dos serviços públicos aos quais estamos submetidas.

Somos nós e são os nossos filhos. Se avançamos um pouco mais na discussão nos deparamos com a situação das mães encarceradas. Realidade que já chegou aos cinemas seja como cinema “real” ou ficcional, só assistir Leite e Ferro ou Leonera para poder entrar um pouco na atmosfera do que é a maternidade encarcerada.

Cuidado pré-natal de rotina, incluindo-se acesso a exames de ultra-som e de sangue, não eram disponibilizados às mulheres grávidas em nenhuma das cadeias públicas visitadas. Algumas mulheres informaram receber algum tipo de cuidado pré-natal básico na unidade de saúde local, porém a frequência com que era examinadas variava consideravelmente entre as cadeias. As presas, normalmente, informaram que a visita feita pelo clínico geral não incluía cuidados pré-natais. Isso significa que elas dependiam dos funcionários para o agendamento de consultas e o seu posterior transporte para a unidade de saúde local. Algumas informaram ter descoberto sua condição de soropositivas na hora do parto, porque nenhum exame de sangue havia sido feito durante a sua gravidez. (HOWARD, Caroline (org.). Direitos humanos e mulheres encarceradas. págs 98 e 99)

O cotidiano nos mostra o quanto a maternidade, seja livre ou encarcerada é divinizada, mas na realidade o que vemos é a expropriação das mulheres mães, principalmente as negras e da classe trabalhadora, pois são estas que vêem seus filhos assassinados por uma política de higienização social nas periferias, sofremos com a falta de investimentos na saúde pública e temos postos de trabalho que não nos deixam ver nossos filhos crescer e em contrapartida não temos como mantê-los estudando visto o alto déficit de vagas na educação infantil.

Sofremos diretamente com o jogo contraditório do capital, como se a nossa carne e nosso sofrimento não já tivesse sido tão moído durante os anos de escravidão. Não, não basta termos sido arrancadas de nossas terras e estupradas por sinhozinhos, até hoje pagamos por nossa cor e se ontem éramos propriedade de outrem, hoje somos do setor mais expropriado e invisível da classe trabalhadora, as vezes invisível até aos olhos dos nossos pares.

Um dia das mães casado com o 13 de maio deixa apenas um recado para nós, recado que é preciso insistir para que se entranhe em nossos discursos e práxis revolucionária: construiremos uma revolução preta, feminista e socialista para não mais ver os nossos sofrerem.

Blogueiras Feministas: Aquela tal de culpa materna

Segue o décimo quinto texto publicado no Blogueiras Feministas.

Quarta-feira de cinzas, confesso que fazia tempo que não pulava um carnaval como este, das últimas vezes havia só ido há blocos frequentados por gente mais próxima com a Rosa, por conta de uma culpa materna enorme de ter que ficar com ela 24 horas por dia. Coisa que hoje vem se dissipando e começo a criar alguns mecanismos para não ter esta culpa materna que me rondará até o final da vida.

O fato das mulheres terem papéis definidos junto a sociedade – mesmo com uma pretensa equidade sendo propalada por aí -, como falei algo recorrente é a tal da culpa materna, como já senti isso diversas vezes, como já ouvi amigas falando sobre esta maldita companheira que nos acompanha desde o dia em que o rebento sai da nossa barriga.

O texto pode ser lido completo aqui.

Diário Liberdade: 8 de março: Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede!

Segue o décimo terceiro texto da coluna A segunda luta que trata basicamente de feminismo e política, a qual publico no Portal Diário Liberdade.

Tem algumas coisas sobre política para mulheres que no 8 de março, vulgo Dia Internacional de Luta da Mulher, a gente tenta sempre repetir, coisas do tipo: Não basta ser mulher, ainda há muito pelo que lutar e afins. Como se todas nós soubéssemos do que está sendo falado, como em uma conversa de comadres, sim, neste 8 de março há muito que exigir e denunciar dos governos federal, estaduais e municipais, pois a ação deste na perpetuação da opressão machista em nossa sociedade é cada vez mais pujante.


A questão é que o machismo e o patriarcado estão radicalmente entranhados em nossa sociedade e na nossa rotina, pois é quando compreendemos qual lugar a mulher ocupa na sociedade e que secularmente foi construído que nós somos um gênero menor do que o masculino começamos a perceber a necessidade de políticas públicas reais para transformar essa desigualdade criada socialmente.

O texto pode ser lido completo aqui.