Sobre a diminuição da taxa de energia

Com a polêmica que tem rolado por aí sobre a diminuição da taxa de energia e o aumento da gasolina acho que é importante analisarmos melhor o que significa esta redução, o Rodrigo Cruz fez um passo a passo que acredito ser bem lúcido e toca em pontos importantes…

1) A tarifa de energia elétrica vai baixar sim, mas a própria presidenta Dilma mencionou no seu pronunciamento que que uma nova tarifa deve ser incorporada às nossas contas nos próximos meses, o “risco hidrológico”, uma taxa sobre o uso das termoelétricas (visto que nesse momento, as hidrelétricas sozinhas não estão dando conta da demanda existente). A curto prazo, o consumidor vai sentir os efeitos da redução, mas uma nova elevação já está contratada a médio prazo.

2) Ainda não se sabe quando essa nova tarifa (o “risco hidrológico”) chegará ao consumidor, mas ele não será irrelevante, visto que as termoelétricas se utilizam de combustível (diesel) para produzir energia e, vejam só, o preço do diesel acaba de ser reajustado pelo governo federal (5,4%).

3) Há de considerar, ainda, que em determinas regiões do país, entre elas o Estado do Amazonas, os consumidores podem não ser beneficiadas com a redução da tarifa de energia elétrica. Isso porque ali, boa parte dos municípios depende do funcionamento de termoelétricas (115, ao total, para todo o Estado), e não de hidrelétricas.

4) É um pouco ingênuo dizer que o aumento do preço do combustível só vai afetar quem tem carro, e portanto, uma minoria da população. Basta dizer que as empresas de transporte público vão pressionar os governos para que o custo seja repassado ao consumidor ainda neste semestre, o que deve fazer com que a tarifa do transporte público seja reajustada em diversas cidades. E quem vai pagar por isso? O povo, claro.

5) Por fim, o governo deve estar muito certo de que o nível dos reservatórios das hidrelétricas vai voltar a subir nos próximos meses (mesmo tendo acionado as termoelétricas para dar uma forcinha no abastecimento, há pouco mais de duas semanas), porque a redução da tarifa para residências e empresas deve incentivar o aumento do consumo em um momento onde a oferta é menor do que a demanda. Arriscado, não?

E eu não estou aqui criticando a redução da tarifa, tá? Eu também pago conta de luz todo mês e acho ótimo que o governo trabalhe com a perspectiva de reduzir o custo, mas acho que essa é uma questão bem mais complexa do que os memes aqui da timeline possam dar conta de explicar. Agora, vamos fazer as contas, de verdade?

Sobre o Moinho, para o Moinho

Ontem o Moinho ardeu novamente, ontem a GCM e a PM envergaram sua truculência para cima daqueles que quase nada tem, os marginalizados, os invisíveis mais uma vez. O Jonathan, professor lá em Rio das Ostras/RJ, expressou muito bem a luta incansável e o desprezo que cada vez mais a sociedade tem por aqueles que trabalham e não tem direito a moradia, educação, saúde, cultura, lazer e tantas outras coisas.

Mas que bonito, mulher
Você, no Jornal da Globo
Também fiz bonito, né?!
Ou só fiz papel de bobo?
Tu igual doida, gritando
E eu parado atrás, em pé
E o Brasil inteiro olhando

Mas vê se acorda, homem
Que foi ruim por demais
Pois a nossa imagem some
No fogo que estava atrás
E em toda a nossa desgraça
O fogo ali nos consome
Não tem de quê achar graça

Tem que pensar diferente
Porque nunca fomos nada
Por um minuto fui gente
Fiquei com a alma lavada
Um fogo que aconteceu
Fez o mundo de repente
Ver quem sempre esqueceu

Depois esqueceu de novo
De nós, agora sem lar
Sempre vivemos num ovo
Mas tínhamos onde morar
E agora, nós vamos pra onde?
Vão jogar nós, e este povo
Todo, no Cê do Conde!

Jogam nada, minha esposa
Este incidente infeliz
É o acaso, é uma coisa
Que ninguém pensou, nem quiz
Deixa a poeira baixar
Que quando a gente repousa
É mais fácil pra pensar

Tu é muito inocente
Já disseram que foi gás
Ou cigarro, ou ferro quente
Que fez o fogo voraz
Mas eu sei que não foi não
Foi maldade desta gente
Que tem dinheiro e ambição

Não liga, nós é porreta
Faz nossa casa do nada
Se tem madeira, marreta,
Prego, pá, carrinho e enxada
Leva vida, a gente toca
O barco e nem o capeta
Vai queimar nossa maloca

Tu vai olhar com espanto
Num ouve o que a mulher fala
Olha os PMs, e quantos!
No povo metendo bala!
Só por estar refazendo
Seu barracos, no seu canto
Como tu ia dizendo…!

H – Mas Mulher, então me explica
Qual seria o Motivo?!
M – É que esta gente que é rica
Não vê na gente, ser vivo
H – Gente rica é burra então
Encosta o seu peito e fica…
Viu?! Sente meu coração?!

M – Tu é gente, eu sei, amor
H – Tu também é, eu garanto
M – Não é gente o tal Senhor
Que enriquece ao nosso pranto
H – Como é que ele não se importa
Na bala, fogo ou trator
Com quem vive Atrás da Porta?!

H e M – Fogo por fogo, como era
Eles tem mais a perder
Morumbi, Ibirapuera
Jardim, Pinheiros, vão ver!
Não pedimos pelo jogo
Mas só jogamos à vera
Pra nós, é fogo por fogo!

Convidada: Mulheres e a arte do cuidar como prática da transformação

Mais um texto da Camila Gibin, agora sobre maternidade, patriarcado e capitalismo. Tema que tenho tido dificuldade de abordar por aqui mas que é importantíssimo para se refletir e realmente construir uma outra sociedade, superando assim o capitalismo.

Refletir em torno das primeiras bases para uma nova sociedade é compreender o que está colocado para superarmos os atuais valores mediante uma educação psicológica permanente, garantindo a emancipação intelectual e o rompimento de uma vez por todas com o cerne objetivo e subjetivo que estrutura a sociedade de classes: o princípio da autoridade, do individualismo e da propriedade privada.

Desconstruir o individualismo e construir relações opostas a este perpassa também pela forma como nós mulheres temos compreendido e lidado com a maternidade e com a arte do cuidar, a qual tem sido historicamente massacrada e apropriada pelos interesses do patriarcalismo, dimensionando essas esferas como mais uma mercadoria do capital, necessária para a manutenção do sistema.

Isso se dá com clareza na própria relação que o patriarcado impõe a nós, mulheres, no que tange a relação com a gestação e com o processo educativo das crianças, que deixa de ser questão coletiva e passa a ações individualistas e superficiais – querer ter filhos ou não; o desejo pelo “meu” filho e etc. – respondendo, na maior parte das vezes, a anseios egoístas para suprir incertezas/inseguranças e necessidades do “eu”, relacionando-se de forma autoritária com o gerar e com os supostos sentimentos para com a criança que estará por vir, pautado na relação com o bebe o espirito de propriedade – o meu.

A sociedade cristã patriarcal – caracterizada pela hierarquia, pela violência e pela competição – não somente tem subtraído das mulheres essa relação de solidariedade, como também tem tido papel de controle dos nossos corpos, pela impossibilidade de optarmos pela livre maternidade, com a proibição do aborto e com os julgamentos morais que impedem a livre utilização dos métodos anticoncepcionais. O controle se dá também a partir da negação à importância do processo educativo à infância, com a falta de politicas que garantam o acesso a educação de qualidade e pela ausência de politicas diversas que permitam com que as mulheres tenham uma vida digna e consolidem um tempo livre para dedicarem-se a arte de cuidar.

As relações do capital têm penetrado também em nosso cotidiano e feito com que nos estranhamos e nos fragmentemos na luta, inclusive no que tange a questão das mulheres e da maternidade, classificando as mulheres como mães e não-mães e , assim, desestruturando dimensões solidárias que venham a indicar que todas somos mães, potenciais ao ato de gerar e/ou ao ato do cuidado para com todos os sujeitos/espécies.

Cabe então a reflexão do que é ser mãe na sociedade masculina e o que nós podemos propor para a dimensão da maternidade de modo que corresponda e contribua a valores mais humanos. A princípio, para o debate atual, o ser mãe está ligado necessariamente a dimensão biológica, pensamento o qual é fortalecido pela Igreja, pelo Estado e pela própria medicina. A Igreja vem historicamente defendendo esse pensar e disseminando a moral cristã ao determinar regras no que tange as relações matrimoniais e ao sexo, entendido apenas como forma de reprodução da espécie. Na mesma perspectiva, o Estado conserva as ideias cristãs e dimensiona o ser mãe biológico pelo interesse na manutenção da família e consequentemente da propriedade privada. Para respaldar tais valores, os conhecimentos médicos deterministas impõe a relação mãe-biologica e aterroriza aquelas que não engravidassem, argumentando que poderiam correr graves riscos de saúde, inclusive a morte. Relacionar a questão materna com a dimensão biológica vem de encontro então a vários interesses do capital.

Por outro lado, ampliar esse debate dimensionando a relação do cuidado é sermos no hoje propositivas a relações humanas que descontruam essa fragmentação imposta e necessária pelos motivos vários motivos já apresentados. Entender o papel da maternidade como algo além do ato de parir é visualizar a capacidade e a responsabilidade de coletiva no ato de cuidar. Portanto, todas as crianças de nosso bairro, de nossa cidade e do mundo são nossos filhos e filhas, remetendo a nós a responsabilidade de defendê-las e de cuidá-las, bem como o de cuidarmos de nós mesmas, enquanto irmãs.

A pratica do cuidar privado ou público (sejam as relações ou os espaços) tem sido acumulada e preservada pelas mulheres, que devido a contextos históricos vem assumindo este papel que acaba por ter valores, significados e interesses diferenciados. Somos então nós quem possuímos acumulo a maior percepção e sensibilidade quando comparado a maioria daqueles do sexo masculino, os quais, de maneira geral, são extremamente violentos e possessivos, chegando a ações de grande gravidade contra a espécie humana. Não atoa as expressões dessas atitudes nos processos de guerras para o firmamento de sociedades patriarcais, realizadas através da prática do estupro como mecanismo de controle utilizado pelos homens, reflexo da ideia de dominação que se tem assimilados e reafirmados pela lógica da propriedade e por eles mesmos durante os anos. Ainda sobre o contexto de guerra vale destacar aqui para nossa reflexão que temos, por um lado, as condutas masculinas descritas, e por outro as mulheres, mais uma vez, a frente nos trabalhos de acolher e cuidar dos feridos.

Diante destes diferentes processos de acumulação histórica na construção “ser” entre homens e mulheres, nós mulheres nos firmamos como sujeitos ainda mais humanistas e sensíveis ao cuidado, demonstrando que estamos avançadas quanto a perspectiva de ruptura e emancipação das relações individualistas. Mesmo vivendo em tempos difíceis de violenta desumanização das relações, resistimos e mantemos muitas práticas sensíveis. Vejamos, por exemplo, quem são que se encontram nas filas dos postos de saúde para garantir a saúde, das creches para conquistar a vaga, das prisões/febem´s para acolher/fortalecer a pessoa amada? Mulheres, mulheres, mulheres…e alguns poucos homens.

No entanto, essa compreensão só se faz de fato quando assumimos a mesma com leituras históricas e quando trabalhamos as questões subjetivas capazes de nos enxergar com esta intensa capacidade de avançar de forma mais coerente e veloz do que os homens, portanto, há a importância de nos apropriarmos novamente dos nossos conhecimentos e de nossas potencialidades que foram retiradas de nós durante a história simplesmente para nos submeter a uma logica violenta e manter-nos como submissas aos homens. Dentre esses conhecimentos temos, como exemplo, a questão da maternidade e do parto, conhecimento o qual sempre foi da mulher e que foi tomado bruscamente pela medicina machista que ignorou a sabedoria feminina em detrimento de uma prática inconsequente do parir, que é a linha de produção do nascer com as cesárias, sem ter devido olhar ao momento ideal da criança e da mãe.

Visto este contexto, é de nossa responsabilidade usufruir da arte do cuidar para nos emanciparmos subjetivamente, rompendo com o discurso forjado do cuidar que o capital tem utilizado contra nós mesmas, pois somos submetidas a lógica do cuidar de forma desrespeitosa e desvalorizada que acaba por ser interessante a classe dominante. O caso de compreender a mulher inserida no mundo privado, assumindo o papel de “cuidadora do lar”, é uma maneira do capital se apropriar de nosso valor humanitário e permeado de dimensão revolucionária a favor de si mesmo. Então submete de forma autoritária essa dimensão que, assimilada de forma alienada, não pode ser entendida como arte e como potencialidade para um novo mundo. Este “cuidado” entendido pelo patriarcalismo é permeado, por detrás, de relações de exploração e de opressão contra as mulheres. Apesar dessas problemáticas pertencentes a estruturação do capital pelo processo de exploração e de desvalorização de praticas solidarias, as mulheres, ainda em meio ao caos, conservam elementos significativos para a compreensão destas relações e transformação ao novo.

Desta forma, cabe entendermos que é somente o cuidar interiorizado e entendido como uma escolha ética é que poderemos construir relações mais solidarias entre nós e com a beleza do educar, permeados de novos valores que se contraponham ao do capital, pois a moral do cuidado é capaz de aproximar as pessoas, lidando com dados reais, diferente da moral masculina pautada apenas na dimensão dos princípios, que por não relacionar-se com proximidade das relações acaba por cometer erros.

Devemos compreender que diante desse processo temos responsabilidade traçar os caminhos a novas formas de ser e estar que visualizam outra sociedade. Coletivamente, devemos reaprender e fortalecer relações mais humanas e de cuidado que sejam de fato espontâneas, compreendidas como algo belo e fundante ás relações humanas, quebrando assim as rédeas das relações pautadas no medo e na submissão que muitas vezes o é nesta sociedade masculina.

Estabeleçamos então o olhar a cultura do eu e do nós, de nossa subjetividade, para enfrentarmos as violências e dar indicativos e ações as transformações. O papel e a responsabilidade da arte do cuidar como prática para a emancipação socioeconômica é nossa.

Camila Gibin – Compõe o movimento de defesa da infância e juventude e o Coletivo Feminista Anastácia Livre.

Nota da autora: Algumas leituras me fizeram refletir essa questão: de Kollontai a Sara Morace. As conversas com companheiras e companheiros também foram determinantes nesse processo. Mas, essencialmente, o desejo por relações de irmandade entre nós mulheres, o amor pela infância e pela juventude e a esperança pelo novo são os indicativos ao alimento desse pensar e dessa constante tentativa em agir, tendo como horizonte a emancipação humana.

Convidada: Pra cadeia ou para o hospital?

Segue texto da Vanessa Koetz sobre a questão da legalização do aborto hoje no Brasil, a Vanessa é militante do Coletivo Feminista Yabá , Barricadas Abrem Caminhos e do setorial de mulheres do PSOL/SP . Este texto é publicado hoje, pois é o Dia Latino-Americano pela Descriminalização e Legalização do Aborto e nada mais propício do que voltar a reflexão sobre a criminalização de mulheres no nosso país. Este post também faz parte da blogagem coletiva chamada pelas blogueiras feministas.

20 milhões de abortos são praticados anualmente no mundo. Desses, 97% são feitos em países pobres que criminalizam a prática. 6 milhões de abortos ocorrem todos os anos na América Latina. 1,4 milhão é praticado no Brasil. 1 em cada 7 mulheres brasileiras já fez um aborto.

No Brasil, o aborto é crime e só é permitido em duas exceções: quando a gravidez for resultado de estupro ou quando a gestação apresenta risco de morte à gestante. Apesar disso, sabemos que o aborto é prática recorrente entre as brasileiras. Para as mulheres ricas, é quase um direito, amparado por clínicas clandestinas de alta qualidade. Para as mulheres pobres é um risco de vida e pode levar à morte.

A prática de abortos inseguros e clandestinos no Brasil correspondem a 240.000 mil internações anuais; 25 % dos casos de esterilidade; 9 % dos óbitos maternos e a terceira causa de morte materna no país.

Criminalizar não resolve!

A intervenção do Sistema Penal na vida das mulheres que optam por não serem mães não diminui a prática do aborto. Apenas joga, em sua maioria, mulheres pobres e negras na prisão, causando maior sofrimento, tristeza, depressão e culpa naquelas mulheres que descartaram a maternidade. Outras vezes, quando o Estado impõe enquanto pena a obrigação de serviços comunitários em creches, por ex., o castigo da mulher que abortou é a tortura psicológica.

Ser mãe deve ser um direito e não uma obrigação!

A luta pela descriminalização e legalização do aborto é a luta pela autonomia da mulher, independente de qualquer religião ou crença. Levantar essa bandeira é lutar contra a ideologia machista e patriarcal que impõe à mulher enquanto destino irremediável a maternidade. Ser mulher não é a mesma coisa que ser mãe. Ser mulher é podermos fazer o que quisermos com o nosso corpo, que é só nosso e de mais ninguém. Não é da igreja, nem do homem, nem da família e nem do Estado. É nosso!

Queremos ser livres: Direito ao nosso corpo é legalizar o aborto!

O Estado não pode intervir nas nossas escolhas. Quem escolhe ser mãe ou não somos nós. Entretanto, o Estado não pode se eximir de garantir políticas públicas que amparem as nossas escolhas. Assim, é direito nosso e dever do Estado que ele promova habitação, saúde, transporte, educação e assistência social. Tanto quando escolhemos continuar a gravidez, como quando decidimos interrompê-la.

A mulher que deseja ter um filho deve ter seus direitos sexuais e reprodutivos assegurados, dispondo de pré-natal, parto humanizado, pós-natal, licença-maternidade, creches, educação infantil e assistência social. Aquelas que optam pela interrupção da gravidez também devem ter seus direitos sexuais e reprodutivos assegurados, devem dispor de aborto humanizado, assistência hospitalar e psicossocial.

Todas as mulheres devem ter seus direitos sexuais e reprodutivos assegurados, atendimento integral à saúde, educação sexual, direito ao planejamento familiar, dispor do uso de contraceptivos, de contraceptivos de emergência e anticoncepcionais, distribuídos gratuitamente nos postos de saúde, e aborto legal, seguro e gratuito garantido pelo SUS.

Defendemos a vida de milhões de mulheres!

Defender a legalização do aborto, não é apologia ao aborto! Mas, sim, defender a vida de milhões de mulheres que morrem por abortos clandestinos, em quase sua totalidade pobres e negras, é lutar pela autonomia do nosso corpo e lutar por um Estado Laico. Quem decide com quem, como, onde e quando eu tenho um/a filho/a somos nós!

Porém, há muito tempo que não somos nós quem decidimos sobre as nossas próprias vidas. E, ao que tudo indica, a luta pela nossa autonomia e pela vida de milhões de brasileiras está em segundo plano.

Os governos Lula e Dilma anunciam as dificuldades das mulheres brasileiras nessa luta. A supressão da questão da legalização do aborto no Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH3, a assinatura do acordo de reciprocidade mútua entre Brasil e Vaticano, o corte de verbas nos principais ministérios de bem-estar social, o irrisório aumento do salário mínimo (salário que é renda de 53% das mulheres brasileiras) frente ao absurdo aumento da remuneração de parlamentares e da Presidência e a criação de programas como o Rede Cegonha que antecipa o cadastro de gravidez e atendimento parcial à saúde da mulher, restando o direito à saúde apenas àquelas que optam pela maternidade, barram e retrocedem na luta pelos nossos direitos.

Além disso, essa postura do governo brasileiro fortalece e encoraja a intervenção de grupos que atentam contra a laicidade do Estado, como a Frente Parlamentar Pró-Vida que impõe fundamentos religiosos ao parlamento, permitindo que iniciativas de afronta aos direitos das mulheres apareçam no Congresso Nacional, como o bolsa-estupro, a CPI do Aborto, o Disque-Aborto, o cadastro de gravidez, a transformação do aborto em crime hediondo, a proibição do uso de camisinhas, a proibição do uso de pílula, o estatuto do nascituro, dentre muitas outras bizarrices.

No Estado de São Paulo, a situação também é grave: faltam creches, faltam programas de assistência integral à saúde da mulher, impera a privatização da saúde, as Organizações Sociais, que em sua maioria são ligadas a entidades religiosas, dominam os atendimentos à saúde das paulistas, o programa Mãe Paulistana cobre parcialmente à saúde da mulher, também garantindo o direito à saúde somente às que optam pela maternidade e o cadastro de grávidas e não há nenhum amparo às mulheres que interrompem precocemente a gravidez. Além disso, em alguns municípios do Estado foi aprovada a proibição de implementação do DIU no SUS e a distribuição de pílula do dia seguinte.

A defesa da legalização do aborto não faz com que aumente o número de abortos, não é para transformar o aborto em método contraceptivo, não incentiva as mulheres a abortarem.

Não aceitamos que mulheres morram, sejam presas, perseguidas e torturadas por terem feito um aborto! Reivindicamos educação sexual para prevenir a gravidez e DST’s, contraceptivo e anticoncepcional nos postos de saúde para não engravidar e aborto legal, seguro e gratuito, garantido pelo SUS, para não morrer!