Diante do trono vemos a saída organizativa do conservadorismo, qual a resposta feminista para isso?

Faz um ano que eu gostaria de falar sobre o assunto, falar sobre a necessidade organizativa das feministas revolucionárias se organizarem para disputar ideologicamente a sociedade, reorganizar o programa e compreender a urgência de um projeto para emancipação das mulheres que vise a disputa de poder, seja nas organizações políticas, seja no cotidiano da nossa vida. Sem a disputa de poder nos movimento sociais, sem a organização das mulheres em seus territórios, espaços de trabalho, estudo e afins simplesmente abrimos mais espaço para que o machismo e o patriarcado recrudesçam sua força junto a sociedade.

Falamos muito de onda, avanço, recrudescimento e qualquer outra palavra que se remeta ao aumento do conservadorismo do país, mas nossa análise acaba por aí, até por que compreender que há atores organizando a vida política da sociedade e disputando-a ideologicamente, mantendo o status quo cotidianamente resvala em pensar quais pontos do projeto político para emancipação da classe trabalhadora nós estamos dispostos a abrir mão.

Muito bem, não existe revolução socialista se não houver mulher, LGBT e negrxs na sua base e na sua direção. Digo isso por que quando vamos analisar a morfologia da classe trabalhadora vamos ver que é composta justamente por estes setores, e são estes setores os mais expropriados em nossa sociedade. Como já dizia Marx: As mulheres são proletariado do proletariado. Porém as mulheres trans e negras são mais párias do que as outras. É um engano pensar que não há perspectiva de organização das mulheres no país hoje, existe, e não é na sua grande maioria uma perspectiva socialista e feminista, mas sim uma perspectiva de organização que visa manter o status quo, visa manter o machismo e a divisão sexual do trabalho. Sem dar conta das contradições que o próprio capital coloca para nós.

Nós cremos numa nova revolução feminina, uma revolução silenciosa que vai mudando o modo de pensar e de agir. Mulheres curadas na alma e que são instrumento de cura para a sua casa, para igreja e para a nação. Mulheres que não querem tomar e assumir o lugar dos homens, mas querem levantá-los para que eles assuma o seu próprio lugar. Mulheres cansadas dos fardos pesados que a revolução feminista nos fez carregar. Mulheres que não vão as ruas queimar seus sutiãs exigindo liberdade, mas que vão conquistar o seu espaço através de um espírito dócil, excelente e de oração. (VALADÃO, Ana Paula. II Congresso de Mulheres Diante do Trono)

Existe perspectiva de organização de massas no Brasil hoje e é uma perspectiva que desfia a concepção de um estado laico, de um estado para todxs e disputa a classe trabalhadora organizando-a de uma forma que já fomos capazes de organizar. Não a toa temos durante os pleitos eleitorais e discussões de votações congressuais de temas prementes aos direitos das mulheres, LGBTs e negrxs uma resistência grande da chamada bancada da fé e ao mesmo tempo uma negociação prioritária com estes setores por parte daqueles que querem gerir o estado burguês e não superá-lo, que abandonaram um projeto de poder d mudança, para apenas gerir o capital.

As igrejas já fazem suas ações sociais independentemente das ações do Governo. Elas são responsáveis por uma grande e invisível rede social, isso é louvável e traz em si a necessidade da mão amiga do Estado, dando sua contrapartida, tanto em termos de facilitação do acesso às políticas públicas, como em termos de organização de um diálogo constante com o Governo. Compromisso este que assumo em meu eventual governo. Quero construir esse diálogo com as intenções que tem sido os grandes amortecedores do sofrimento humano. Entendo seu valor, sua luta e seu trabalho impulsionado pela missão do evangelho. (ROUSSEFF, Dilma. Carta ao povo de deus)

Não é qualquer coisa quando a Rede Globo investe para reunir todas as principais cantoras do mundo evangélico em um festival durante o sábado de tarde. É por que sabe-se o poder de organização existente neste espaço e faz parte dos debates políticos e organizacionais a serem feitos o que significou a derrota das CEBs e dos núcleos de base do PT nos anos 80 e a contribuição histórica que estas derrotas legaram ao atual estágio da disputa ideológica e de classe que hoje vivemos. Pois não existe lugar vago na política, se não se organiza a classe para um projeto de disputa de poder ela não fica desorganizada e hoje a sua maioria é organizada por um projeto reacionário que visa manter uma lógica familiar heteronormativa, patriarcal e racista, sem pudor algum.

Fazendo propaganda ideológica para as massas dizendo que o feminismo apenas colocou um sofrimento as mulheres, sem lembrar que os lugares públicos que hoje estas mulheres ocupam são vitórias também de uma perspectiva mais liberal do feminismo, onde apenas o ocupar os espaços existentes na sociedade, sem um projeto de mudança real é válido. Haver pastoras, pregadoras é uma vitória feminista liberal e elas utilizam esta vitória do feminismo liberal para reconstruir a hegemonia do machismo e patriarcado na sociedade.

A existência de espaços de organização das mulheres como o Congresso de Mulheres Diante do Trono só demonstra a necessidade de se retomar uma discussão de projeto de poder para o movimento feminista, onde as nossas pautas não sejam vistas como anexos, mas sim como cerne fundante de um projeto de mudança social. Onde nossas companheiras e companheiros não abram mão de nossas pautas e tentem minimizar relegar ao esquecimento nossas reivindicações por conta de uma perigo que já atingiu a base de sustentação de um governo pretensamente progressista.

Ouvir que a revolução feminista em nada emancipou as mulheres é um sintoma de que as estratégias do movimento de mulheres organizado precisa pensar seriamente num projeto de disputa de poder junto a sociedade e aos movimentos sociais sem capitular aos discursos fáceis e aos atalhos e mais, a compreensão de que este projeto deve compor um projeto de sociedade completo, pois o que fazem espaços de auto-organização conservadores é justamente manter o patriarcado, homofobia, racismo e capitalismo e não pensar estas questões de forma concomitante e deixar brechas para a manutenção de todas as opressões, pois estas lutas são estratégicas e devem ser levadas em conjunto.

Resposta a organização que reforça o conservadorismo por um lado é a organização e disputa ideológica cotidiana do outro, sem medo de perder base, mas para que realmente possamos avançar junto a base de forma concreta e ideológica, para não mais ficarmos reféns dos estratagemas do menos pior e da conciliação ideológica daqueles que visam manter a nós oprimidxs.

O meu sonho eu sonho junto com o Giva

Em São Paulo são 55 vagas para vereador. Que são eleitos desse jeito aqui. A minha primeira eleição votando foi a de 2002, depois de 1996, foi a eleição mais feliz da minha vida, por que votei em gente e em um projeto que eu acreditava e tinha sonhado a minha vida toda de ajudar a construir. Infelizmente o projeto se esvaiu.

Aí veio 2010, 2010 e eu com filha pequena, tentando me formar na PUCSP, atrás de trabalho, sendo atropelada pela vida e surgiu um senhorzinho, um senhorzinho chamado Plínio de Arruda Sampaio. E este seu Plínio reacendeu o meu sonho, a minha esperança e me fez ver que nada é impossível de mudar. Mesmo quando a gente é atropelado pela vida, mesmo quando a gente é atropelado pela sociedade, o sonho permanece, ele só fica escondido, se cala, se melindra. Mas o Plínio cavou o sonho e tirou para fora, escancarou o sonho, escancarou a esperança, mostrou que não precisa ter medo de sonhar para além do limite das bordas da piscina, por que a gente pode transbordar em sonho e transbordando em sonho a gente muda a vida. Ali eu vi o meu sonho e o sonho da minha mãe respirarem juntos.

A vida me atropelou novamente e fui viver, fui militar, fui cuidar da Rosa, trabalhar, amar… Fui ser eu e o sonho começou a ficar amuado embaixo de tanta responsabilidade, necessidade, tarefa, pragmatismo… O sonho se escondeu. Aí chegou 2012, e a tarefa, a responsabilidade, o pragmatismo se olharam e perceberam que eram nada sem o sonho e aí a campanha do Giva veio mostrar que uma coisa não se faz sem a outra. E liberou o sonho, liberou a vontade de conversar com as pessoas e pensar organização junto, e disputar política junto, por que é isso que faz o sonho, nos organiza para ir lutar e mudar a vida.

Aquela máxima de que sozinho ninguém faz nada, que a força para um vereador está nas lutas com as quais ele constrói para destruir o status quo e não mantê-lo. Eu vi o meu sonho que antes era sozinho se juntar com outros sonhos e com outras esperanças. A história recente mostra que um parlamentar do PSOL faz diferença dentro das casas legislativas, a minha história pessoal me mostra que além de fazer a diferença na Câmara de Vereadores o Giva vai resgatar os nossos sonhos e esperanças, como o Roseno faz em Fortaleza e o Freixo no Rio de Janeiro.

No dia 7 de outubro eu vou votar no Giva, vou apertar com felicidade o 50055 na urna eletrônica. Por que sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é REALIDADE.

Maluf e Serra digievoluiram e viraram o Russomano

É sabido que São Paulo é em geral um estado conservador, não é apenas por ser governado pelo tucanato, até por que se esse fosse o critério não haveria explicação política para o fato do Brasil também ser um país conservador, né? Porém normalmente os holofotes políticos, econômicos, sociais e o escambau, o Brasil fica de olho em São Paulo, então a gente tem a impressão de que aqui a relação é mais recrudescida com o conservadorismo do que no resto do país. Mas é só um reflexo de quanto pensamos política e afins apenas nos respaldando no eixo centro sul do país.

Mas o foco deste texto não é o fato de todo mundo achar que as coisas mais importantes do Brasil acontecem apenas no eixo centro-sul, mas sim para falar do hit paulistano do momento (seja para os que elogiam, seja para os que criticam): Russomano. Não há o que discutir, o candidato do PRB é a digievolução do Serra com o Maluf, tanto que disputa aí os votos para ser eleito. Ideologicamente ele está muito bem definido e nada mais, porém o que significa Russomano no cenário político?

Porém é provável que seja necessária uma variável a mais para compreendermos um fenômeno eleitoral sobre o qual todos, até agora, quiseram acreditar que era transitório. Pois se existe alguma coisa em Russomanno que nos remete aos arcaísmos de São Paulo, há algo que deve ser compreendido em outra chave. Na verdade, ele é uma expressão mais bem-acabada de um certo conservadorismo pós-lulista ou, se quisermos, um conservadorismo que aparece como filho bastardo do lulismo. (SAFATLE, Vladimir. O filho bastardo do lulismo)

A questão é que estamos prestes a emular o 2º turno de 2010. A retomada do horror da idade das trevas chegar em nossa sociedade – como se já não tivesse ali presente e encontrando bem pouca resistência política para se consolidar como pensamento hegemônico. Russomano é a nova cara da direita paulistana, mas com uma diferença brutal de Serra: faz parte da base do Governo Dilma e aí que a porca torce o rabo.

Russomano já falou em recrudescimento da violência policial em São Paulo, nos seus apontamentos políticos desconsidera por completo as necessidades das mulheres LGBTs e negrxs (se considerasse não falaria em aumentar a repressão, né não?)

No rescaldo da imaginação
Cede a noite ao clarão, sua rotina por fim
Vem em cada passo, degrau em degrau
Na viela, é fatal, mais alguém sucumbiu
Vai e em silêncio guarda a dor com pesar
Um de seus que desandou sem pensar
Quando a quebrada não finda na esquina
Desejo se cruza com sina
Mas morte sem vida não há de vingar (SILVA, Everaldo Efe. Rescaldo)

Eu encontro meus amigos, converso com as pessoas e vejo que tem muita gente novamente com medo, eu estou com um pouco de medo também. Mas o medo uma vez já me tomou em 2010 e fiz escolhas políticas por medo e não por análise política e dessa escolha veio corte de orçamento, reajuste de salário vergonhoso, relação desumana com índigenas, não tomou decisão simples de ser tomada no caso do Pinheirinho… Esse foi o ônus da política do medo, eu tenho medo do Russomano, muito medo mesmo, pois ele foi assessor durante a Ditadura Militar, quer colocar uma igreja em cada quarteirão de São Paulo, mas escolhas políticas não devem ser feitas baseadas no medo. Russomano continua Serra e Maluf em São Paulo, agora o que eu quero ver é uma negação contundente do Haddad de que o PT não fará composição alguma com a nova cara da direita paulistana e não apenas falar que discorda de algumas propostas do Russomano.

Eleições 2012: Eu não vou ajudar a eleger um parlamentar de direita, e você?

Faltam poucos dias para o 7 de outubro, dia em que os municípios brasileiros (tirando Brasília e Fernando de Noronha) escolheram seus representantes no poder legislativo e executivo. Tarefa difícil em tempos de uma especularização gigantesca do processo eleitoral, onde o que mais vale é o fetiche de transformar os candidatos em mercadoria. Guy Debord teria muito orgulho do que vem acontecendo conosco, só que não.

Segundo um estudo do TSE pela primeira vez o Brasil superou a cota de 30% de mulheres nas chapas que disputam a vereança, o mesmo não se pode dizer das prefeituras, são apenas 15% de mulheres na disputa. Porém dados pelos dados, sem análise profunda do que significam ou a própria compreensão liberal de que ser apenas mulher basta para resolver os problemas do mundo. Uma mulher ligada a um partido conservador ajuda a manter o status quo, ou não?

A mesma coisa quando discutimos fortalecimento dos partidos, é preciso que os partidos políticos estejam comprometidos com a luta feminista de forma programática e pra isso é preciso sim estar assegurado o fortalecimento ideológico dos partidos que muitas vezes acaba sendo deixado de lado em coligações proporcionais para poder eleger parlamentares e depois garantir a governabilidade. E são nessas e outras que as pautas feministas sofrem um arremedo aqui, um tirada de cena ali e uma diluída acolá para poder assegurar as coligações nas candidaturas proporcionais, pensar isso também é pensar intervenção feminista para a reforma política, por que não queremos apenas mulheres no poder, queremos mulheres com formação feminista e sem rabo preso com acordos eleitoreiros. (FRANCA, Luka. O lugar da mulher na reforma política é para além da paridade e das cotas)

Saber em quem votar e como funciona o processo eleitoral é fundamental. Eu pessoalmente me tensiono muito com a lógica de votar em uma mulher para ficar de consciência em paz do ponto de vista liberal, porém acredito que para emancipar mulheres (cis ou trans) é necessário um programa que dialogue com a totalidade da política, que não seja uma colcha de retalhos sem senso algum e infelizmente com a corrida desenfreada para ver quem vai continuar gerindo o mesmo barco furado isso ficou de lado.

Por fim, quando você vota em um candidato a vereador, você está votando automaticamente em todos os candidatos da coligação. Numa eleição proporcional nunca se vota apenas em uma pessoa, o voto sempre conta para toda coligação do qual seu partido faz parte. O voto no honesto que está coligado ao desonesto ajuda também o desonesto. Pense nisso antes de votar. (AMARAL, Eduardo e LIMA, Matheus. Como se elegem os vereadores?)

Eu apoio diversas candidaturas, muitas delas com problemas, mas que hoje por hoje para mim são as que mais expressam a coerência de um programa político de totalidade junto a sociedade. Poderia aqui citar nomes do PT que as vezes se aproximam dos debates que julgo importantes, porém não há como indicar preferência política a quem vai contabilizar voto para ajudar a eleger gente da direita para a câmara de vereadores. Política também se faz pensando nestas coisas e não pensando apenas: Ah, esse cara legal e tem umas ideias ótimas. (Nisso uma das inserções do Haddad sobre o tema acertou em cheio, viu?)

Isso não quer dizer que não tenha gente aguerrida e comprometida com um outro projeto de sociedade em partidos com trajetória ombro a ombro com os movimentos sociais, quer dizer que eu não vou ajudar a eleger gente do PP, PRB, DEM, PSDB, PSDC e afins para que lá na frente nas câmaras de vereadores a gente veja os nossos direitos sendo vilipendiados por aqueles que apoiaram uma candidatura x ou y.