Briga

Ele olhou para ela e soltou um: Não consigo acreditar que ainda procuras o amor da tua vida, olha pra nós dois! Tá tudo desmoronado, não existe a mínima cumplicidade entre a gente e tu ficas aí sonhando com passeios sob a chuva e dias de sol no parque… Se liga!
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Ela emudeceu, nunca o tinha visto tão agressivo e amargurado, nem parecia o homem por quem se apaixonara há 10 anos durante uma convenção de vendedores de farinha para bolo… Como ele podia dizer aquilo? E pior! Daquela forma, se o sonho estava desmoronando não era por ela querer viver coisa diferentes junto a ele, mas sim pelo fato dele nunca ter tempo de compartilhar as histórias do romance deles com ela.
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O cara saiu do quarto batendo a porta, desceu para sala e ligou a tv… Fazia isso quase todos os dias e ela ficava lá no quarto lembrando de quando encontrou aquele par de olhos pela primeira vez, não podia desmoronar tudo assim do nada, eles tinham se amado muito, pelo menos nos primeiros 5 anos eles tinham se amado!
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Na sala ele não conseguia assistir a tv direito, era algo recorrente, toda vez que ia para aquele comodo não consegui fazer nada a não ser pensar nas coisas ditas para sua mulher, como ela ainda estava com ele? O cara sabia do tamanho do amor dele por ela, mas sabia o quanto ele a machucava por não participar dos planos de casal construídos por ela… Brigava com ela para poder o mostrar o monstro que era, mas isso o machucava ainda mais, pois a amava como da primeira vez.
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Ela desceu até a sala e perguntou: Me dá um motivo para ficar, são 10 anos e um punhado de histórias que vais esquecer no momento em que eu passar por aquela porta, sabes disso! É isso? Queres esquecer tudo duma vez? O primeiro olhar, as risadas, tua birra por causa dos meus compromissos políticos, nossas transas, os passeios de carro pelas cidades vizinhas, as férias na praia, a minha birra por causa dos teus compromissos de negócios, a tua cara quando soubestes que a Clarice ia nascer, as idas ao obstetra, o acordar abraçados todos os dias como na primeira noite, o dia em que eu bati o carro, os dias que tu bateste o carro, as paradas gays que fomos juntos, as idas aos bares, nossa vontade de não se desgrudar nunca que até hoje eu sinto… Queres perder tudo isso hoje? Agora?!
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Ele olhou pra ela… A cara borrada de tanto chorar e a dele também… Não, não queria terminar tudo ali, não queria esquecer, queria mais dias de cataporas, de amor-perfeitos no final do dia, de suco de limão e sanduíche de atum no parque. Mas não queria magoá-la como fizera nesses últimos 2 anos, a ausência, o cansaço e tudo isso culminando na impossibilidade de passar mais tempo com a mulher da vida dele e a pequena Clarice… e soltou um insosso: Não… Não é isso que eu quero… Se saires por aquela porta eu morro, pois também tenho essa vontade louca de não me desgrudar de ti nunca mais, e quero te ver fazendo aqueles biquinhos de birra mais vezes, dançar contigo Blue Moon durante a madrugada toda, levar a Clarice para o colégio, ver o pôr-do-sol com as duas todos os dias e ter um porto que não me faz me perder entre tanta burocrácia e reuniões com empresas. Eu te quero aqui do meu lado, mas só tenho feito te magoar e isso eu não quero mais… Se for assim melhor me deixares, juro que não esqueço nenhum dos nossos momentos…

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Ela parou, sentou na escada e olhou pra ele… Não, aquele homem não era mais o ser encantador por quem ela se apaixonou na conferência, as vezes não tinha nem tempo de sentar junto com ela no quarto da filha para ler um conto de fadas, estava sempre entre Paris-N.Y.C-Tóquio-Bruxelas em reuniões intermináveis. Mas quando estava em casa ele voltava a ser um pouquinho daqueles olhos que a comiam feito fotografia desde o primeiro dia, se o largasse agora estaria chutando todos os sonhos dos dois por causa duma coisinha qu poderia ser solucionada… Se levantou da escada e sentou do lado dele no sofá e disse: Eu fico, sempre vou ficar e a gente superar tudo isso…
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Os dois adormeceram ali no sofá mesmo, toda aquela discussão tinha sido muito cansativa… Só se via o casal abraçado, como se estivessem pela primeira noite juntos.

Apenas uma sensação

Havia tempos que não saia do cinema tão pertubada… Na verdade havia tempos em que ela nem botava os pés dentro de uma sala de exibição, numa tentativa desnorteada de recuperar suas rotinas ela se lançou ao cinema mais próximo e num uni-duni-tê estremecido escolheu um filme para assistir.

Agora estava andando pela rua e não tinha muita idéia pra onde ir, encontrava-se mais desnorteada do que antes, o filme havia enviado o dedo dentro das feridas mais profundas existentes naquela pessoa… Sentia a necessidade de sumir e sentar numa vala qualquer para chorar, chorar desesperadamente como nunca fizera antes.

Estava em queda livre há tanto tempo que não percebera o quão amortecida ela se encontrava, procurava no rosto das pessoas um alento para toda aquela dor calada pedindo para rasgar o peito duma vez, não encontrava o alento e a angustia aumentava, a cabeça girava e as confusões, mágoas, bobagens e importâncias não conseguiam se organizar… Como chegara a tal ponto de não saber mais dela mesma e apenas continuar a sobreviver sem motivo real?

Se corresse alguém notaria seu desespero? Foi necessário duas horas e pouco para ela acordar e notar a sua própria miséria afetiva, não precisava de tal tapa na cara assim tão do nada, era como acordar assustada no meio da noite e a mãe pedir desculpas pelo susto… Um supetão… Um supetão que só fazia atiçar ainda mais a dor lancinante que sentia no peito.

Era como se nunca mais fosse parar de chorar ali naquela avenida, aí as lágrimas se tornariam ondas altamente salgadas e inundariam tudo, ela afundaria e não tinha um galho para tirá-la daquela afundação…

Havia se dado conta de todas as suas dores bem somatizadas, as mais recentes e as mais antigas, não parava de olhar na cara das pessoas pedindo silenciosamente ajuda para não morrer afogada em si mesma, ninguém a olhava, a acolhia ou a lembrava… Era apenas mais um borrão no meio da rua, um borrão cheio de angustia e água… Um borrão que a qualquer momento seria pisado e repisado pelo tempo… Um borrão pronto para ser desimportante para todos… Um borrão angustiado, choroso, gelado e cinza… Completamente blue.

Resolveu sentar num café qualquer e escrever, só pensava em escrever para que todos aqueles sentimentos e incertezas saissem dela e ganhassem o mundo a livrando um pouquinho do peso… Mesmo assim o peso não saiu…

Ela saiu do café, desceu a rua, sentou num canto da calçada e voltou a chorar compulsivamente… Chorou e acabou se afundando nas próprias incertezas e dores, não havia ninguém que soubesse nadar para salvá-la e no fundo das suas próprias águas ela ficou até não conseguir mais ouvir o seu próprio lamento. Tudo revelado por uma película pertubadora…
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I will learn to swim, Hannah… I will learn to swim

O começo do mais belo fim

‘Cause you give me something
That makes me scared, alright,
This could be nothing
But I’m willing to give it a try,
Please give me something
‘Cause someday I might know my heart.

Acordou e viu o sol brilhar, ligou o rádio e tudo parecia abertura de seriado estado-unidense. Saiu para ver o dia acontecer, ganhou flores de um passante sorridente, tomou um banho de chuva demorado e quando resolveu olhar para frente e deixar os pingos d’água escorrem pelo rosto redondo deu de cara com um par de olhos tristes…

Tristeza era algo que passava como um furacão pela vida da garota, sabia que uma hora ou outra tudo acabaria, por isso gostava de passar os dias intensamente, um de cada vez com direito a uma paxão por dia, uma flor por hora, um sonho por noite e uma atirada em gramas para ficar olhando as estrelas e a lua caírem sobre ela… Mas aqueles olhos eram tão tristes que a encheram de angústia… Angústia aguda e insuportável, mas que completava aquela garota de estranha forma… Era o que faltava dentro daquela história, faltava tristeza… Ninguém pode ser feliz o tempo inteiro e ela não era a excessão.

Voltou pra casa naquele dia transtornada, confusa… Mas sossegada, havia encontrado a outra parte… Eram os olhos dela que irradiavam tristeza… Era ela mesma que havia se visto e não uma outra pessoa qualquer, finalmente podia seguir em frente, mas agora de forma completa e isso a aliviava duma forma única.

O dia seguinte foi de frio e o sol não apareceu, ela sentiu a melancolia dentro do peito, mas sabia que não era algo eterno… Eterno só seria no dia do final de tudo, no dia em que encontrasse o começo e o final mais belo…