Da mudança ao mesmo

E aí que acordei hoje com Mesmo que Mude do Bidê ou Balde tilintando na cabeça e por causa disso acabou saindo a história da Ana Clara por aqui.

Ana Clara correu ao ouvir o telefone tocar, corria toda vez que o telefone tocava com o coração quase para sair pela boca. Há anos esperava assim, bem esperadinho, queria só ouvir a voz de uma pessoa desconhecida, mas que sabia estar vivendo em algum lugar do globo.

Clarinha cresceu ouvindo história fantásticas, de uma época onde nem pensamento ela era ainda, histórias de voltas de carros, de céus imensos engolindo as pessoas, cervejas incontáveis, momentos melhores impossíveis, uma centena de manias e passeios no supermercado. Junto com estas histórias sempre vinham princípios de água salgada no rosto e uma respiração ofegante, como se lembrar tirasse o ar. Foi assim que Ana Clara aprendeu a esperar o telefone, pois quando o telefone tocava tinha sorrisos e não falta de ar.

Clarinha ouvia o telefone e corria, corria para ouvir um oi igual ao que um dia interceptou sem querer. Mas há muito tempo o telefone não tocava daquele jeito e Ana Clara nem sabia mais se realmente a voz ainda existia, achava que sim, mas só achava, não tinha certeza mais de nada. Fazia tempo que não via água salgada no rosto ou a respiração faltar, mas as vezes pegava um olhar para a lua cheia, um olhar cheio de brilho e esperança, regado de palavras únicas e azuis. Era nesta hora que sabia da existência do oi.

Ana Clara tinha diversas teorias do por que o oi não ligava mais, talvez não gostasse das mudanças, das cores, do Roberto… Provavelmente não gostaria mesmo do Roberto, pois o Roberto não gostava de cervejas sem fim, céus imensos e coisas melhores impossíveis. Ana Clara achava Roberto um chato de galochas, não gostava de nada, não deixava ninguém fazer nada, nem sorrir para encher a casa ele deixava, mesmo sempre dizendo gostar dos sorrisos. Balela.

Um dia o telefone tocou, Ana Clara correu para atender, mas o Roberto atendeu antes. Aí a Clarinha só conseguiu ver um sorriso imenso entrando na sala junto com o olhar brilhante da lua cheia e o Roberto ficar tão pequeno, mas tão pequeno que não conseguia achar espaço para se acomodar.

Os que ficam na pele, memória, cheiro e não saem nem em um milhão de anos

Fevereiro corrido com tudo e mais um pouco, fevereiro cheio de confusões pessoais, fevereiro feito para pensar devagarinho e cultivar um jardim de sentimentos boiados em calmaria e paciência histórica. Há tanta coisa sobre política, violência e luta social para falar, mas hoje eu sou só sentimentos, as vezes confusos pra caramba, outras vezes tão lípidos e cheios de reflexos como os rios de Caxiuanã.

Tirei o dia para reler meus amores, pensar no que tirei de bom daquelas relações e quais amarguras ainda permanecem. As personagens eternas na minha vida, todas guardadas em caixinhas que as vezes não resisto e reabro só para sentir o rompante tomar conta da respiração e de todo corpo mais uma vez.

Ficaram aqueles sorrisos lindos que me cativaram logo no primeiro olhar, o stop motion das primeiras conversas, os passeios de carro, o primeiro beijo de fundir a alma e fazer perder a cabeça, os telefonemas, as canções, as madrugadas bebendo, o cinema de animação, os banhos de chuva noturnos, a sensação de imensidão e completude, a política, os dias de vazio, o contar os minutos para rever, os olhos de comer fotografia e das angústias, mágoas e choros só haviam esparsas lembranças, como se não se sustentassem frente a belezura de tudo que me faziam sentir.

Ao fechar as caixinhas a vontade é só de bailar na sala, olhar para frente e deixar o coração aberto, para sentir coisas novas e velhas ao mesmo tempo, deixando os medos de lado e fazendo os caminhos se seguirem lentos, intensos e regados a músicas que fazem plainar.

Os primeiros raios de sol

Ela acordava todos os dias e passava 30 minutos em cima da cama pensando na vida, as vezes pensamentos atribulados e ansiosos, outras pensamentos leves, delicados como a asa de uma borboleta. Queria contos de fada e se deparava com a dureza de pedra da vida real, todos os dias a vida passava feito um teaser na sua frente; olhava para o lado e todos os pensamentos sobre o passado davam lugar ao sentimento mais doce existente no mundo. Passava a mão nos cabelos finos e tocava o nariz pequeno com os lábios da forma mais delicada que poderia fazer.

Eram estes momentos entre começar a rotina e acordar dos sonhos que tudo mais fazia sentido e a vida real se encontrava com os contos de fada, pois ao seu lado encontrava aquela criança dormindo tão calma e serena, levantava e colocava The Magic Numbers para tocar, pois a sonoridade alegrinha e simples resumiam o fato de que no raiar do dia não havia contas para pagar, almoço para resolver, problema político para pensar, existia só a felicidade plena e serena.

Haviam os casos, as paixões, as historietas típicas de filmes ou sitcons, mas nada que a fizesse amar daquele jeito, uma forma de desejar existir uma Terra do Nunca só para não se crescer mais e o tempo parar ali entre os primeiros raios de sol para sempre. Fazia uma prece bem baixinha, desejando aquele momento parar de uma vez e uma janela com ares vintage e dourados se abrisse para as duas poderem voar, pois algumas das coisas que queria dar aquela pequena não podiam ser feitas neste mundo aqui.

Nas pontas dos seus dedos escorriam um néctar delicado colhido do ninho das fadas, antes dos primeiros raios de sol brotarem no horizonte, deixando apenas um mundo de faz de conta e revelando aos poucos um outro mundo mais real. Nestes primeiros raios de sol desejava congelar o momento, mas desejava mudar o mundo, para que aqueles pares de olhos tão ávidos pela vida não tivessem que descobrir a diferença entre os contos de fada e o mundo real.

Construía aventuras enormes para se lembrarem, mesmo sabendo não ser ninguém para construir estas aventuras e que não necessariamente seria visto com bons olhos as duas pulando em cima da cama no meio da tarde, mas sonhava com estas coisas enquanto o sol nascia. Sonhava com um encontro entre o amor mais antigo e este amor mais novo, e o encontro do amor mais novo com todas as paixões que uma hora passaram pela vida real e tiveram uma pitada de sonho de fadas.

Passavam os 30 minutos e só ouvia sua voz dizer: Rosa, está na hora de ir para a escola, vamos acordar?

Em um tom muito parecido com um tom de voz antigo e que há muito não podia mais ouvir, levantava e se dava conta de que estava na hora de encarar o mundo de pedra. Sentava e chorava um pouco e aí uma mãozinha paraiva nas costas e só ouvia uma voz pequenininha: Mãe? Você tá chorando? Não chora não, eu to aqui.

E tudo voltava a parar por mais alguns segundos.

Exclusivo! A primeira entrevista da Rosa