Em Belém morreu Almir Gabriel: o ex-governador privatista e mandante do massacre de Eldorado do Carajás

Cheguei hoje em Maringá, liguei o computador para subir um texto no Blogueiras Feministas e ver emails e me deparo com uma notícia: Almir Gabriel morreu. Bem, muitos não conhecem o Dr Almir Gabriel, eu nunca o vi cara a cara, mas o conheço. Ele foi o símbolo da minha primeira noção da contradição de votar no menos pior e do voto útil. Mas não é por causa da minha história pessoal que faz este senhor ser importante na política paraense.
Almir Gabriel foi governador do Pará de 1994 até 2002, mesma época do queridão FHC na presidência do país. Porém não é só por ser tucano que Almir Gabriel foi uma figura importante no estado, e também não foi apenas por ser governador.

O tucano foi eleito em 1994 como sendo alternativa ao menos pior ao Jarbas Passarinho (esse mesmo, o da ditadura). E seu governo culminou em nada mais ou nada menos com o Massacre de Eldorado de Carajás, pois Almir Gabriel foi o principal mandante deste banho de sangue.

Os 19 mortos eram integrantes da “Caminhada pela Reforma Agrária”, iniciada no dia 10 de abril por 1.500 famílias de trabalhadores rurais sem terra. Um dia antes do massacre, por volta das 15h, essas famílias montaram um acampamento no Km 96 da PA-150, na deno­minada “Curva do S”, próxima à cidade de Eldorado dos Carajás. Os trabalhadores interditaram a estrada e exigiam alimentos e transporte, em negociação com a Polícia Militar, que acompanhava a marcha.

Naquele momento, a tropa do 4º Batalhão de Polícia Militar, em Marabá, estava pronta para realizar a desobstrução da rodovia. Por volta das 20h, a operação foi cancelada em um acordo entre integrantes do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Polícia Militar. O major José Maria Pereira de Olivera, comandante da 10ª CIPM/1ª CIPOMA, que negociava com o MST, garantiu que as reivindicações dos trabalhadores seriam levadas às autoridades competentes nos âmbitos federal e estadual. No dia seguinte, data do massacre, às 11h, o tenente da PM Jorge Nazaré Araújo dos Santos informou que as negociações estavam encerradas e que nenhuma das reivindicações seriam atendidas, nem mesmo a doação de alimentos.

Enquanto isso, na capital, o governador do Estado, Almir Gabriel, ordenou ao secretário de Segurança, Paulo Sette Câmara, ao superin­tendente estadual do Incra, Walter Cardoso, e ao presidente do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), Ronaldo Barata, a desobstrução do Km 96 da PA-150. (CARVALHO, Sandra. O Massacre de Eldorado dos Carajás)

Além do sua forma peculiar de dialogar com os movimentos sociais parenses, o ex-governador também protagonizou processos de privatização brutal das empresas públicas paraenses. O caso mais conhecido é o da venda da CELPA (Centrais Elétricas do Pará) em 1998, quando a empresa foi comprada pelo Grupo Rede por um valor muito abaixo do que valeria e que agora protagoniza um processo de falência brutal.
Na época do leilão da CELPA outro coronel da região, senhor Jader Barbalho que também merecerá post por aqui quando morrer, denunciou que o dinheiro do leilão havia servido para pagar a campanha de reeleição de Almir Gabriel ao governo paraense. Como tudo que é denuncia eleitoral o caso não foi investigado.

Depois da Celpa vendida justamente para o Grupo Rede, voltamos a carga para denunciar que a Empresa compradora estava usando a Celpa para arrancar dinheiro do BNDES, juntar com os lucros obtidos aqui para capitalizar outras empresas do Grupo, aumentando o endividamento da empresa paraense que passou a correr o risco de ficar insolvente. Mais uma vez fomos ignorados pela imprensa paga e pelos políticos vendidos que apóiam sempre quem está no poder, independente de cor e de bandeira. São os mesmos que passaram de tucanos a petistas como se tudo fosse a mesma coisa. (LIMA, José Carlos. Blog do Zé Carlos do PV)

Acho que os dois casos são emblemáticos sobre qual foi a real transformação que este senhor fez no Pará. Não comemoro mortes, não faz parte da minha formação política, mas quando políticos morrem só vemos obituários bonitos, sem lembrar das entregas que fizeram, dos desmontes, das mortes e do entreguismo dos políticos. É como se morrer desse para eles uma habeas corpus eterno ao qual eles não tem direito.

Almir Gabriel desmantelou o serviço público paraense, se refestelou com a privataria tucana, matou trabalhadores sem terra.
Além do mais é bom lembrar que em 2010, quando Almir Gabriel rompe com o PSDB e seu filhote Simão Jatene, seu apoio foi recebido com entusiasmo pela candidatura petista a reeleição ao governo do Pará de Ana Júlia Carepa – com direito a chamadinha misteriosa no horário eleitoral e suspense animado por parte dos petistas. Este fato para mim foi de uma incongruência petista tremenda, pois o PT durante todo o governo Almir Gabriel se colocou contra
suas políticas, enfrentou bravamente o boicote que o governo estadual tentava fazer a prefeitura de Edmilson Rodrigues iniciada em 1996.
Não, eu não comemoro mortes da direita, mas também não choro a morte de quem oprimiu e matou gente trabalhadora

Tchau 2012, olá 2013

Aprendi a fazer balanço do ano que vai findando com o primeiro cara que eu beijei na vida, ainda quando estava em Belém. De lá para cá balanços foram ficando mais cotidianos na minha vida, principalmente quando se trata de política, também beijei outras pessoas e percebi que não necessariamente paixonites de adolescência são eternas.

2012 começou tenso e em crises múltiplas. Começou com uma paixão maluca que foi se esvaindo e se tornou uma amizade engraçada, junto tinha uma crise, uma crise que foi superada de mãos dadas. 2012 começou em Carapicuíba, passou pelo Vale do Paraíba, São Carlos, Franca, Vitória, Rio de Janeiro, Belém e termina em São Paulo.

Vi a maior ocupação urbana da América Latina ser trucidada pelas mãos do tucanato, antes de ver o Pinheirinho no chão eu o vi erguido e falar com aquelas pessoas e naquelas assembleias foi a uma das experiências mais catárticas da minha breve vida política.  Foi também no episódio do Pinheirinho que vi nos olhos do meu companheiro uma preocupação única: o meu bem-estar e o da Rosa.

Foi ano de eleição e uma das campanhas para vereador em São Paulo mais lindas que eu já fiz na vida, foi ano de esperança em Belém, mas que por diversos motivos não floreceu. Ano duro, quando pela primeira vez me vi perdendo gente próxima a mim da minha idade, da minha época de militância e por crime de ódio.

Em 2012 o meu relacionamento mais longo terminou, mas também foi época de reencontros. Juntamos as amigas da época de colégio em Belém, Rosa conheceu a madrinha dela, vivemos a cidade das mangueiras de forma intensa e única. Reabastecemos as baterias. Reencontrei amores antigos de uma forma doce, sensível, madura.

Consegui um emprego fixo. Ouvi um “eu não quero te fazer chorar, só sorrir”. Tive um átimo, dei uma bicicleta para a minha filha. Dei um tempo de desgastes, organizei as ideias.

2012 foi conturbado, com momentos duros. Mas os saldos são positivos: um emprego, uma filha feliz, um átimo e reorganização de atuação política. Eu fui feliz, tenho sido feliz nos últimos dois anos, algumas dores vão doendo menos, as coisas se organizando da sua maneira e um sorriso gigante voltando ao rosto para ficar, pelo menos é o que eu espero.

2012 termina e eu estou estável e não tem nada melhor pra mim do que estar estável. Como de costume eu aguardo 2013 com ansiedade, viver tem sido uma aventura primorosa nestes últimos anos.

Eleições 2012: Eu não vou ajudar a eleger um parlamentar de direita, e você?

Faltam poucos dias para o 7 de outubro, dia em que os municípios brasileiros (tirando Brasília e Fernando de Noronha) escolheram seus representantes no poder legislativo e executivo. Tarefa difícil em tempos de uma especularização gigantesca do processo eleitoral, onde o que mais vale é o fetiche de transformar os candidatos em mercadoria. Guy Debord teria muito orgulho do que vem acontecendo conosco, só que não.

Segundo um estudo do TSE pela primeira vez o Brasil superou a cota de 30% de mulheres nas chapas que disputam a vereança, o mesmo não se pode dizer das prefeituras, são apenas 15% de mulheres na disputa. Porém dados pelos dados, sem análise profunda do que significam ou a própria compreensão liberal de que ser apenas mulher basta para resolver os problemas do mundo. Uma mulher ligada a um partido conservador ajuda a manter o status quo, ou não?

A mesma coisa quando discutimos fortalecimento dos partidos, é preciso que os partidos políticos estejam comprometidos com a luta feminista de forma programática e pra isso é preciso sim estar assegurado o fortalecimento ideológico dos partidos que muitas vezes acaba sendo deixado de lado em coligações proporcionais para poder eleger parlamentares e depois garantir a governabilidade. E são nessas e outras que as pautas feministas sofrem um arremedo aqui, um tirada de cena ali e uma diluída acolá para poder assegurar as coligações nas candidaturas proporcionais, pensar isso também é pensar intervenção feminista para a reforma política, por que não queremos apenas mulheres no poder, queremos mulheres com formação feminista e sem rabo preso com acordos eleitoreiros. (FRANCA, Luka. O lugar da mulher na reforma política é para além da paridade e das cotas)

Saber em quem votar e como funciona o processo eleitoral é fundamental. Eu pessoalmente me tensiono muito com a lógica de votar em uma mulher para ficar de consciência em paz do ponto de vista liberal, porém acredito que para emancipar mulheres (cis ou trans) é necessário um programa que dialogue com a totalidade da política, que não seja uma colcha de retalhos sem senso algum e infelizmente com a corrida desenfreada para ver quem vai continuar gerindo o mesmo barco furado isso ficou de lado.

Por fim, quando você vota em um candidato a vereador, você está votando automaticamente em todos os candidatos da coligação. Numa eleição proporcional nunca se vota apenas em uma pessoa, o voto sempre conta para toda coligação do qual seu partido faz parte. O voto no honesto que está coligado ao desonesto ajuda também o desonesto. Pense nisso antes de votar. (AMARAL, Eduardo e LIMA, Matheus. Como se elegem os vereadores?)

Eu apoio diversas candidaturas, muitas delas com problemas, mas que hoje por hoje para mim são as que mais expressam a coerência de um programa político de totalidade junto a sociedade. Poderia aqui citar nomes do PT que as vezes se aproximam dos debates que julgo importantes, porém não há como indicar preferência política a quem vai contabilizar voto para ajudar a eleger gente da direita para a câmara de vereadores. Política também se faz pensando nestas coisas e não pensando apenas: Ah, esse cara legal e tem umas ideias ótimas. (Nisso uma das inserções do Haddad sobre o tema acertou em cheio, viu?)

Isso não quer dizer que não tenha gente aguerrida e comprometida com um outro projeto de sociedade em partidos com trajetória ombro a ombro com os movimentos sociais, quer dizer que eu não vou ajudar a eleger gente do PP, PRB, DEM, PSDB, PSDC e afins para que lá na frente nas câmaras de vereadores a gente veja os nossos direitos sendo vilipendiados por aqueles que apoiaram uma candidatura x ou y.

Adesão do Pará ao Império e o desenrolar para a Cabanagem

Como hoje tem post novo meu no Blogueiras Feministas preferia fazer só algo breve por aqui, muito para não deixar passar a data de hoje: adesão do Pará ao Império brasileiro.

É dia importante não por conta de que na minha infância e adolescência era um dia de ficar em casa, andar de bicicleta na Praça da República ou Batista Campos, ou dormir até tarde depois de alguma festa. Na verdade a data de hoje só é mais um marco de repressão que o estado já sofreu de diversas formas ao longo da história.

Hoje é feriado Estadual no Pará. A História registra que, no dia 15 de agosto de 1823, nosso Estado aderiu à Independência do Brasil. Logo após a Independência do Brasil, algumas províncias, entre as quais a nossa, não aceitou a separação com o reino de Portugal e com isso algumas revoltas eclodiram império afora. Gradativamente, elas foram sendo pacificadas à força pelo império, e uma das últimas que resistia era a Província do Pará. A mando de Dom Pedro I, o almirante John Grenfell obrigou os Estados que não aderiram à Independência a aceitar a separação entre o Brasil e Portugal. Em Belém, Grenfell armou um ardil para convencer os responsáveis pelo Estado a aceitar a adesão, convencendo-os de que havia uma esquadra estacionada em Salinas pronta para bloquear o acesso ao porto da capital, isolando o Pará do resto do Brasil. Acreditando na história, restou aos governantes da época se render, proclamando a adesão ao restante do País. (PINA, Luiz Paulo. 15 de agosto: Feriado no Estado do Pará – Adesão do Pará à independência)

Acho que algumas coisas é preciso ponderar sobre hoje, até por que depois vai abrir flanco para uma das maiores mobilizações populares da história brasileira contra o Império de Dom Pedro I e talvez este deva ser o ponto que mais deva ser lembrado hoje, por que os desdobramentos tidos pela adesão do Pará à República culminam na Cabanagem que é tão presente no cotidiano de Belém (Filipe Patroni, Batista Campos, Eduardo Angelim e outros, infelizmente até hoje não encontrei referência as mulheres da cabanagem).

A revolução social dos cabanos1 que explodiu em Belém do Pará, em 1835, deixou mais de 30 mil mortos e uma população local que só voltou a crescer significativamente em 1860.2 Este movimento matou mestiços, índios e africanos pobres ou escravos, mas também dizimou boa parte da elite da Amazônia. O principal alvo dos cabanos era os brancos, especialmente os portugueses mais abastados. A grandiosidade desta revolução extrapola o número e a diversidade das pessoas envolvidas. Ela também abarcou um território muito amplo. Nascida em Belém do Pará, a revolução cabana avançou pelos rios amazônicos e pelo mar Atlântico, atingindo os quatro cantos de uma ampla região. Chegou até as fronteiras do Brasil central e ainda se aproximou do litoral norte e nordeste. Gerou distúrbios internacionais na América caribenha, intensificando um importante tráfico de idéias e de pessoas. (RICCI, Magda. Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo na Amazônia entre 1835 e 1840)

A história de hoje para os paraenses só ajudou a recrudescer uma violência contra a população mais pobre do estado, assim como podemos ver em outras revoluções de caráter popular no Brasil. A relação com o povo pobre, negro e indígena neste país é historicamente opressora e a forma como as revoltas populares foram massacradas pelo Império brasileiro são exemplo disso.

Tentaram estabelecer um governo revolucionário estável e capaz de governar a província. Mas a tentativa foi novamente frustrada por traições e conflitos entre os líderes do movimento. Em abril de 1836, o governo central desfechou um novo ataque militar e conseguiu reassumir o controle da capital da província e impôs um novo presidente.

Foram cinco anos de intensa luta, até que os cabanos foram derrotados. Estima-se que, durante o período do conflito entre tropas governamentais e revolucionários, a população do Pará, que era de cerca de 100 mil habitantes, foi reduzida a 60 mil. (CANCIAN, Renato. Rebelião tem fim sangrento no período regencial)

Hoje se eu estivesse no Pará estaria com uma blusa em referência a cabanagem e não a adesão do Pará ao Império que iniciou um processo de genocídio da nossa população no Brasil.