Um quebra cabeça chamado Denarc na Cracolândia

Essa semana fez dois anos que desocuparam o Pinheirinho a mando do governo Alckmin, só este fato já deveria ser o suficiente para refletir e cobrar o tucanato sobre essa política de gentrificação e higienismo que assola o estado. Além disso estamos em pleno e fervoroso debate sobre os rolezinhos e a segregação que vem se revelando em diversos centros comerciais da cidade.

Pois bem, faltava a cereja do bolo e ela foi colocada nesta quinta-feira através de uma ação “surpresa” do Denarc na Cracolândia, onde mais de 30 pessoas foram detidas.

Houve confronto, bomba de gás e uso de bala de borracha. O Denarc nega e a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo afirmam que não foi usado bala de borracha na operação.

A Secretaria da Segurança Pública esclarece que foi legítima a ação realizada nesta quinta-feira na Cracolândia. Houve resistência, três policiais foram feridos e três viaturas danificadas. Os policiais buscaram reforço e realizaram quatro flagrantes por tráfico de drogas. O Denarc não possui e não usou bala de borracha na ação. (Nota oficial da SSP sobre o caso)

A Prefeitura de São Paulo, por outro lado, afirma que na operação o Denarc fez uso do armamento que oficialmente não possuiria.

A Prefeitura repudia esse tipo de intervenção, que fez uso de balas de borracha e bombas de efeito moral contra uma multidão formada por trabalhadores, agentes públicos de saúde e assistência e pessoas em situação de rua, miséria, exclusão social e grave dependência química. (Nota oficial da Prefeitura sobre o caso)

Ao ir para a Cracolândia e conversar com alguns moradores ouvi muitas vezes que as pessoas ouviram barulho de tiro e de bomba na região, além de ter ferido algumas pessoas.

Neste vídeo aqui, feito pelas câmeras que a Prefeitura de São Paulo, há imagens da hora que o reforço do Denarc chegou à Cracolândia. No minuto 3 do vídeo sai de uma das viaturas um homem vestido de vermelho e carregando uma arma e no minuto 3:40 aparece um cara de vermelho apontando o mesmo objeto para as pessoas que estavam no “fluxo” da Cracolândia e depois passa a arma para um outro policial que estava de colete.

Polícial Civil desfila pela Cracolândia portando arma. JF Diório/Estadão

Polícial Civil desfila pela Cracolândia portando arma. JF Diório/Estadão

Em reportagem publicada no Estadão há uma foto em que aparece um dos policiais que estavam na ação andando com uma arma por onde estava o “fluxo”.

Segundo a delegada, as espingardas calibre 12, usadas para disparar balas de borracha, vistas no local estavam descarregadas: “Nós estamos sem bala de borracha. Nós fizemos o pedido, mas elas ainda não chegaram. [A espingarda] Era só para intimidar”. (Policiais civis de SP são suspeitos de comandar tráfico na cracolândia)

Houve gente que saiu ferida, segundo relatado na reportagem do Estadão, por bala de borracha.

Conversando com gente lá na região tive a confirmação de que pelo menos uma moça de 23 anos ficou ferida, foi atingida na cabeça. O morador com quem conversei também afirmou que uma criança havia ficado ferida, porém ele não sabia precisar de quem ela era filha e onde morava exatamente.

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia em jovem de 23 anos

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia em jovem de 23 anos que estava no local

Não é a primeira vez que a Cracolândia é alvo de ação violenta por parte do poder público, em 2012 com a Operação Integrada Legal os usuários, moradores e afins tiveram que lidar de forma mais ostensiva do que o normal, inclusive dificultando o trabalho de diversas iniciativas não punitivistas que existiam e existem naquela região.

A ação “surpresa” do Denarc na Cracolândia nesta quinta-feira, cheia de abusos, com uso de armas não letais para acuar os que frequentam a região só demonstra cada vez mais o quanto o Estado não consegue lidar com a situação sem se valer da repressão, gentrificação, do higienismo social e da profunda criminalização da pobreza para poder lidar com a questão das drogas.

No fundo o que recrudescer naquela região é pelo fato de que boa parte da população paulistana encara os frequentadores da Cracolândia como não humanos, então ser mais violento ou menos violento, respeitar as leis ou não é o de menos quando se trata de não humanos.

Moradores da região entrevistados pelo GLOBO há duas semanas, antes do início do programa da prefeitura e da retirada de barracas de madeira das calçadas da Alameda Dino Bueno, relataram diversos abusos cometidos por policiais civis na região, entre eles agressões e prisões arbitrárias por tráfico. (GUANDELINE, Leonardo. Denarc nega uso de bala de borracha e diz que ação na cracolândia foi ‘certíssima’)

Eu pelo menos tenho duas perguntas que ainda não foram respondidas:

- Se era uma operação cotidiana do Denarc, por que parte do poder público não tinha ciência dela?

- Se o Denarc não possui balas de borracha, como teve gente ferida por bala de borracha durante a operação (segundo os moradores)?

A ação do Denarc nesta quinta na Cracolândia só demonstra que o debate sobre segurança pública, truculência policial, militarismo e criminalização da pobreza não tange apenas a Polícia Militar, mas sim a toda uma estrutura de segurança pública que visa punir e manter o status quo de uma sociedade capitalista, machista e racista.

O desenrolar dessa história espero que seja para ser favorável aos que frequentam a Cracolândia e precisam realmente de auxílio e não criminalização, truculência estatal e racismo até o talo.

 

Eike role!

É um absurdo! Na minha opinião, acabou a última opção de lazer dos paulistanos e dos que visitam nossa cidade”, contou Manssur. (“Estamos apavoradas”, dizem ex-participantes do ‘Mulheres Ricas’ sobre ‘rolezinhos’ em shoppings de luxo. AZANHA, Thiago)

Interessante que a mesma pessoa que diz estar apavorada com a juventude periférica indo usufruir dos shoppings centers é a mesma que se colocou contrária a PEC das Domésticas. Ou seja, zerou o debate do rolezinho com essas declarações da Regina Manssur.

Em Pernambuco, governo exonera secretário após declarações bizarras sobre estupro

Para quem não acompanhou as notícias de Pernambuco e as declarações lamentáveis do ex-secretário de defesa social daquele estado é só ler as matérias divulgadas nessa semana. Segundo a última informação que tive a é que Damázio foi exonerado, para além, segue a nota da setorial de mulheres do PSOL de Pernambuco sobre o caso.

Nota de repúdio do Setorial de Mulheres do PSOL-PE contra as declarações do Secretário de Defesa Social do Governo de Pernambuco Wilson Damázio

O setorial de Mulheres do PSOL-PE, através dessa nota, repudia as declarações de Wilson Damázio, o tratamento dados aos casos de abuso e violência sexual no Estado de Pernambuco e os crimes de violência sexual cometidos pela polícia, exigindo um outro modelo de segurança pública, baseado no respeito aos direitos de crianças, adolescentes, mulheres, LGBTs, em particular, das(os) que vivem nas comunidades pobres, que cotidianamente tem seus direitos violados pelo próprio Governo, através da perpetuação da violência.

As palavras do secretário, os atos dos policiais envolvidos em crimes contra as comunidades pobres e a naturalização e impunidade desses casos revelam toda discriminação direta e indireta contra determinados setores e o preconceito de gênero, raça, orientação sexual e classe arraigados em nossa sociedade e no sistema de segurança pública, que atua contra negras(os), pobres, prostitutas, homossexuais, trabalhadoras(es) e movimentos sociais.

Um paralelo importante feito pela Jornalista Fabiana Moraes, em alusão aos 80 anos de publicação da Obra Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre só revela que patriarcado brasileiro permanece e se atualiza. Longe de ter sido superado, arrasta-se desde o período colonial, quando a expansão numérica do povoamento brasileiro praticamente se deu pela dominação e arbitrariedade masculina no uso da violência sexual contra as negras e índias. 

O estupro colonial, violência perpetrada pelos senhores brancos contra índias e negras, permanece na violência sexual cometida por policiais a uma mulher de 28 anos que foi prestar queixas e buscar ajuda na delegacia e quando é aceita e naturalizada, por ser tratar provavelmente de uma prostituta. Permanece quando o secretário de Defesa Social diz “aqui tem muitos problemas, com mulheres, principalmente…Elas às vezes até se acham porque estão com policial. O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil… Eu não sei por que é que mulher gosta tanto de farda”. Quando ele reproduz em seu discurso e a polícia em suas ações o machismo, o ódio de classe e o racismo ao empregar meninas na SDS para trabalharem na limpeza da secretaria, perpetuando a lógica da senzala. Damázio também reproduz toda a homofobia institucional ao comparar o desvio de conduta da polícia com a livre orientação sexual, senão vejamos: “desvio de conduta a gente tem em todo lugar. Tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu? …Então, em todo lugar tem alguma coisa errada, e a polícia… né? A linha em que a polícia anda, ela é muito tênue, não é?”

Diante da situação, nos somamos ao coro daquelas (es) que exigem medidas reais contra a postura do Secretário Wilson Damázio, contra o preconceito institucionalizado e contra o tratamento que vem sendo dado pela segurança pública aos casos de violência sexual e os crimes cometidos no interior da própria polícia contra meninas e mulheres.

Setorial de Mulheres do PSOL Pernambuco

Guest Post: Reflexão sobre os últimos atos em São Paulo, posições da Mídia e da Esquerda

O William Santana, estudante de Ciências Sociais da USP me permitiu publicar aqui no BiDê um texto escrito por ele sobre o momento que vivemos em SP. Reflexões e apontamentos com os quais concordo bastante e que precisam ser levados em conta quando falamos sobre criminalização da pobreza e dos movimentos sociais.

No ato do Passe Livre do dia 25/10 que contou com cerca de 4000 pessoas, a capa de todos grandes jornais no dia seguinte foi apenas noticiando que “os mascarados” atacaram um coronel da PM indefeso e que a população de SP rejeita a ação “violenta” dos Black Block.

Outro fato que aconteceu. foi que depois do assassinato de Douglas Rodrigues, 17 anos, pela Polícia Militar na Zona Norte de São Paulo. A mídia apenas deu foco para os protestos dos indignados com o caso, que fizeram ato que colocaram fogo em 6 ônibus, 3 caminhões, “saquearam lojas”, estavam armados, fecharam a Fernão Dias. E divulgou a posição do Geraldo Alckmin que disse que os “vândalos” não se pode utilizar da comoção da família para fazer tais atos.

Nada como ler a Folha de São Paulo de hoje (29 de outubro) para entender melhor qual a linha política da direita para os últimos acontecimentos de São Paulo.

Logo no Editorial eles escrevem:

Paulistanos desaprovam em peso violência nos protestos, que pode pôr a perder tudo que há legítimo e salutar nas manifestações de rua

Na coluna da Eliane Castañede:

Para a boa e a velha esquerda, o coletivo sempre se sobrepunha ao individual e ao setorial. Mas não se fazem mais esquerdas como antigamente. Hoje? sabe-se lá…

E no Tendências e Debates, Benedito Roberto Meira:

Mascarados são covardes cujo objetivo é o crime. Não são manifestantes. A lei deve considerar ataque a policial como agressão ao estado

Há uma tentativa clara de separar os protestos entre seus membros pacíficos e os “violentos”. Conclamam a “esquerda coerente” para ajudá-los nessa tarefa. Depois se utilizam da criminalização dos mascarados como campanha de aumento do recrudescimento do Estado Penal, encarcerando assim mais jovens negros.

É a primeira tarefa da esquerda, independente das caracterizações dos Black Block, não fazer coro ao discurso da mídia e da Direita. Sempre combatemos o discurso criminalizante em relação aos métodos de luta dos movimentos sociais, não podemos retroceder nesse momento.

Enquanto houver uma ofensiva da criminalização aos protestos como estamos vendo, não podemos temer em afirmar: Somos todos mascarados!