Quando foi que as babás viraram coisas? Durante a escravidão

Acordei hoje para resolver o finalzinho de férias da minha filha, antes de arranjar um trabalho fixo esta época e julho nós sempre viajávamos ou fazíamos programações nossas. Essa de super-mães dando conta de tudo sozinha é uma balela sem tamanho, porém é um absurdo a lógica de tudo que é relacionado aos rebentos ser responsabilidade de uma babá.

Nas festas de aniversário, saidinhas e afins sempre fico super aflita quando vejo aquelas garotas – praticamente todas da minha idade – de branco tomando conta das crianças enquanto os pais estão conversando. Eu acho que precisamos ter tempo pra trabalhar, para o nosso lazer, mas há algumas ocasiões que as coisas são meio impensáveis. Já fui confundida várias vezes como sendo babá da Rosa, normalmente pelas próprias babás e não pelos pais.

A primeira vez que comecei a pensar mais a fundo sobre o tema foi quando assisti o “Diário de uma babá”, foi na hora que pensei: Eu não quero ser uma mãe assim. Olha que o filme nem é lá essas coca-colas.

Não dá pra generalizar e achar que todo ricaço é desse jeito, mas vi algo parecido ano passado, numa pousada de luxo em SP. Toda criancinha tinha babá. Os pais dormiam num quarto, os filhos em outro, óbvio, com a babá, e no café da manhã pais, filhos e babás se esbarravam no restaurante, um sorria educadamente pro outro, e suponho que não se viam mais até a manhã seguinte. Não parecia ser o relacionamento mais amoroso do mundo. (ARONOVICH, Lola. CRÍTICA: DIÁRIO DE UMA BABÁ / Diário desonesto pra quem precisa de babá)

Acontece que eu amanheci hoje pensando em como garantir o resto das férias da minha filha sem que ela precisasse ficar dentro de casa ou ir para o trabalho comigo, tentava traçar um bom plano para o tempo que eu preciso ficar fora de casa ganhando dinheiro e que isso não me fosse oneroso e nem pudesse causar um dano a nossa relação mãe-filha (já tivemos momentos bem difíceis nestes 4 anos e agora estamos na nossa melhor fase). Entrei no twitter e vi a Aline Valek comentando do texto sobre babás e viagens, fui ler e só lembrei da época do debate sobre o Grupo Anti-terrorismo de Babás e do ótimo texto que a Luana Tolentino escreveu para o Viomundo.

Não levem para o lado pessoal as reclamações de suas funcionárias. Na adolescência, fui empregada doméstica, babá e faxineira. Conheço de perto os motivos de tantos descontentamentos. Trabalhei numa casa imensa. Imagino que seja bem parecida com a de vocês. Era tanta coisa para lavar que meus pés racharam ao ponto de minar sangue. Sentia uma dor enorme. Mal conseguia calçar sapatos. E não foi só isso. Fui acusada de um crime que não cometi: minha patroa disse que eu havia comido as maçãs que estavam na geladeira. Sem direito a defesa, recebi a sentença: vigilância extrema durante as 10 horas de trabalho. Chorava pelos cantos. Um choro de raiva, ódio e revolta. Em pouco tempo, minhas lágrimas deram lugar a convicção de que não ficaria me submetendo a esse tipo de humilhação.

O que vocês entendem como ingratidão e arrogância, nada mais é que um ato de insubordinação. Assim como as senhoras não esqueceram as lições deixadas pelas sinhás da Casa Grande, também aprendemos a lutar e a resistir como as negras das senzalas. Estou certa que as mulheres que lhes prestam serviços não precisam da compaixão e da piedade das senhoras. Elas querem somente um salário digno, condições justas de trabalho e o direito de almejar uma vida melhor. (TOLENTINO, Luana. Carta aberta ao Grupo Antiterrorismo de babás)

Como disse no começo do texto não acho ser possível uma mãe dar conta de ser mãe, trabalhar, estudar e – no meu caso – militar. Não dá para dar conta, é extenuante, mas uma coisa é você saber quais são os flancos importantes para dividir o bem estar da criança e outra é delegar completamente a criação dos filhos para outrém. É óbvio que é necessário instrumentos públicos para as crianças: Creches, Escolas de Ensino Infantil, Espaços Públicos de Lazer com supervisão, bibliotecas públicas, restaurantes públicos e o escambau para que as mulheres e homens possam ter sua jornada de trabalho e também direito ao lazer, pois vamos combinar? Há o lazer com as crianças e há também a necessidade do lazer nosso, pois não somos simbioses dos filhos. Mas isso não justifica tratar alguém que te ajude como se fosse um “item” da bagagem a se levar nas férias ou nas viagens.

Empregadas domésticas não são “itens”, empregadas domésticas não são coisas, empregadas domésticas são trabalhadoras como eu, como você, como qualquer outra mulher e, finalmente, estão ganhando equidade com outros setores do mundo do trabalho no que diz respeito aos direitos trabalhistas, pois é isso, no Brasil o emprego doméstico é sinônimo de continuidade da senzala.

Na minha opinião, em algumas ocasiões as babás são extremamente úteis, em outras são dispensáveis e em outras ainda são item de “terceira” necessidade. Enfim, acho que se bem ensinadas, elas podem quebrar um galho danado e nem sempre vão representar um novo integrante à família, porque pra mim família é pai, mãe e filhos e acho no mínimo estranho aqueles que tratam a babá como parte da família (desculpe-me quem pensa o contrário). (Valéria. Viagem levando babás)

Eu tenho experiências de viagens com a minha filha, algumas boas, outras nem tanto. Mas todas elas algo era fundamental: O envolvimento daqueles ao meu redor com o bem estar da Rosa. Ora, se eu estou numa viagem de férias com a minha filha eu vou programar com meus amigos, parentes e afins atividades que eu possa incluí-la e arranjar esquemas dentro da minha rede para vez ou outra eu poder também ter o meu esquema de lazer. Falo isso dentro da perspectiva de uma mãe solteira, se tivesse um companheiro que viajasse comigo provavelmente ele entraria na roda de divisão de tarefas.

A questão básica é que quando falamos do trabalho doméstico é como se não falássemos de trabalho ou de pessoas, falamos de objetos. Parece até uma das conversas da Liga Júnior de Mulheres de Histórias Cruzadas quando isso vem à tona. Eu não questiono o fato de não dar para ser super-mãe, ora, as babás de nossos filhos sabem disso na carne, pois muitas vezes deixam os filhos delas com a vizinha, mãe, avó para poderem cuidar dos nossos e alguém parou pra pensar nisso ao fazer propostas que no final das contas reverberam o racismo incrustrado no Brasil?

Não, por que a nossa exploração enquanto mulheres negras é invisível. Nós somos meros objetos que podem ser trocados e vão servir de escambo pelas listas de emails e isso é dolorido.

Incomoda-me bastante que muitas plantas de apartamentos ainda tenham o “Quarto de Empregada” destacado, ao lado da cozinha e da lavanderia – versão contemporânea da senzala. Como já disse aqui anteriormente, a crítica pode parecer besta, mas isso é carregado de simbolismo e, portanto, fundamental, herança da escravidão oficial, que moldou o nosso país. Aquele tantinho de espaço ao lado das vassouras, rodos e produtos de limpeza, destinado à criadagem me irrita. Peço perdão aos amigos que, por contingências do emprego, utilizam esse tipo de serviço, mas creio que retomar a análise é válido. (SAKAMOTO, Leonardo. Ao invés de abolir, o Brasil está exportando “quarto de empregada”)

Eu quero é só ver quando a PEC das Domésticas for sancionada, aí sim veremos o pulular racista no Brasil. Por que é isso, a periferia é onde hoje são nossos quilombos e o tratar as pessoas que trabalho em tarefas domésticas como se fossem máquinas que podem se jogar fora é a representação mais nua e crua do racismo que perdura no país. Da negação de nós negros como entes de direitos iguais a todos.

8 respostas para Quando foi que as babás viraram coisas? Durante a escravidão

  1. [...] A questão básica é que quando falamos do trabalho doméstico é como se não falássemos de trabalho ou de pessoas, falamos de objetos. Eu não questiono o fato de não dar para ser super-mãe, ora, as babás de nossos filhos sabem disso na carne, pois muitas vezes deixam os filhos delas com a vizinha, mãe, avó para poderem cuidar dos nossos e alguém parou pra pensar nisso ao fazer propostas que no final das contas reverberam o racismo incrustrado no Brasil? Referência: Quando foi que as babás viraram coisas? Durante a escravidão. [...]

  2. [...] fazer propostas que no final das contas reverberam o racismo incrustrado no Brasil? Referência: Quando foi que as babás viraram coisas? Durante a escravidão, por Luka [...]

  3. [...] um prato cheio para inúmeras discussões, e proporcionou reflexões muito coerentes, como essa e essa. Mas para além da crítica construtiva, eu vi muita gente falando umas coisas bem esquisitas. Vi [...]

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