Mídia é sempre um tema recorrente na rodas dos movimentos de combate às opressões, ainda mais nesta semana que é a semana nacional de democratização da comunicação. Até por que publicidade, jornalismo, novelas e afins são reflexos da nossa sociedade, acompanham nichos de mercado. Acho que foi em uma aula da PUCSP em que ouvi a máxima de que o capital vai se apropriando e incluindo a todos pelo consumo e nisso podemos listar: LGBTs, feministas, militantes do movimento negro e tantas outras frentes de movimento no país e no mundo.
Propaganda é sempre o tema que mais dá pano para manga. Schincariol, Prudence, Axe e tantas outras milhões de propagandas que refletem o machismo na sociedade e ajudam a mantê-lo. Um círculo vicioso e é por isso que críticas, denuncias e mobilizações por retiradas e mudanças na mídia são importantes, por que é onde podemos avançar um pouquinho na quebra desse círculo vicioso.
O documentário Miss Representation deveria ser visto por todos, principalmente por pessoas jovens (tem aqui, e dá pra baixar as legendas em português aqui) . Ele explica muito bem como as mulheres ou não são representadas na mídia, ou são representadas de forma negativa, limitada ou claramente mentirosa. E que essa imagem que a mídia (e, óbvio, não só a mídia, mas este é o foco do filme) passa das mulheres não apenas influencia diretamente como as meninas se veem, como também é devastador para toda a sociedade. Já falei um pouco do doc aqui (e, como já escrevi montes de posts relacionados a nossa realidade, ponho alguns links nos lugares certos). (ARONOVICH, Lola. Estatísticas pra você guardar e usar)
A manutenção dos esteriótipos, dos padrões de beleza e afins é apenas uma das formas de manutenção do status quo em nossa sociedade, é um pilar e um pilar que precisa ser combatido. Até por que também é uma forma violenta de manter as coisas como estão, não precisa apenas bater para violentar, violência psicológica também é uma arma poderosa. Não é por acaso que agora há tanta preocupação com opressões perpetuadas nas escolas – sorry, chamo as coisas como elas são, opressão é opressão seja na idade adulta ou na escola, não há diferença.
Pois bem, a Marisa está com uma campanha publicitária nova, uma campanha bem ruim. Na peça a modelo fala de todas as dificuldades que passou durante o ano para poder estar “em forma” durante o verão. Ou seja, novamente reafirmando um padrão e beleza caucasiano e magro, refletindo uma definição de beleza que há na sociedade e ajudando a manter esta definição da forma mais cruel que poderia ser possível fazer na mídia: mostrando a mulher a necessidade de submeter a tortura para cumprir os moldes pré-estabelecidos.
Não só mulheres magras e heterossexuais usam lingerie. É preciso parar de fazer campanhas publicitárias direcionadas sempre ao prazer dos homens e à normatização do corpo/comportamento da mulher. Essa mudança deve ser feita, em primeiro lugar, nas campanhas publicitárias de produtos direcionados para mulheres.
Não devemos nos deformar nem nos punir com dietas loucas que visam apenas nos enquadrar e normatizar conforme os padrões gordofóbicos impostos pela sociedade. Temos corpos de variadas formas e pesos, e devemos nos atentar a gostar de nós mesmas do jeito que somos. (Nota da Marcha Nacional Contra a Mídia Machista)
Porém não é a primeira vez que a Marisa corrobora com a tortura de mulheres, já o fez outras vezes e para além do ataque psicológico. A Marisa já esteve, em 2010, relacionada a denuncia de trabalho escravo de mulheres em sua linha de produção.
Pressionada por denúncias anteriores, a Marisa – assim como as outros magazines do setor – já tinha assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT) em 2007. No documento proposto pela Procuradoria Regional do Trabalho da 2a Região (PRT-2), a rede varejista se compromete a tomar providências (por meio de advertências no site, cláusulas em contratos comerciais e de visitas periódicas a fornecedores) no sentido de evitar ligações com oficinas com trabalho ilegal. (HASHIZUME, Maurício. Escravidão é flagrada em oficina de costura ligada à Marisa)
A loja havia se adequado as regras do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo em março deste ano. Porém a empresa foi suspensa este mês por questionar em ação judicial a constitucionalidade da lista suja do trabalho escravo, onde se relaciona empresas que tem em sua linha de produção relação com essa prática medieval.
De acordo com comunicado assinado pelos membros do Comitê (confira íntegra abaixo), o comportamento da Marisa, ao contestar o cadastro de empregadores envolvidos em casos de exploração de mão de obra escrava no âmbito da Justiça do Trabalho, “afronta” e “enseja a violação” dos princípios basilares e formadores do Pacto Nacional, articulação em atividade desde 2005. Ressalte-se que, mesmo após pedido prévio de esclarecimento feito pelo Comitê, a empresa informou que está convicta na manutenção de sua posição. (Marisa é suspensa de pacto contra escravidão)
A construção do machismo e do patriarcado não se dá apenas da forma midiática, ela é respaldada por como a sociedade se organiza e nisso entra também as relações de trabalho. No final das contas a Marisa não oprime mulheres apenas quando deixa ir ao ar uma propaganda machista, mas também quando questiona os critérios do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, pois quando vamos ver a maioria dos casos de trabalho escravo na industria têxtil a maioria são mulheres e muitas vezes são mulheres vítimas de tráfico de pessoas de diversas partes da América Latina.
É preciso questionar ao CONAR sobre a campanha publicitária? Obviamente, mas como no caso de outras propagandas machistas tenho minhas ponderações se será eficaz. Mas para denunciar é necessário ir aqui. Mas também é necessário cada vez mais percebermos que a pauta feminista precisa olhar para a sociedade como um todo, para que realmente a nossa luta emancipe as mulheres e não apenas algumas iluminadas.
Achei muito bacana o texto. A luta contra as opressões é assim mesmo que deve ser feita. No dia a dia, contra o que aparece como mais natural (já nos ensinava o velho Brecht).
A única ressalva, ou sugestão, seria que tomasse um maior cuidado com alguns conceitos, principalmente os históricos, caso de medieval, por exemplo, usado no contexto que você disse, relacionado ao trabalho escravo.
No mais parabéns, pelo texto, pelo espírito crítico e pela militância contra as opressões. Um abraço!
Luka, gostei muito do post e de tudo que li no seu blog. Voltarei sempre.
Um abraço.
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