Havia tirado hoje para falar do Cordão da Mentira, mas hoje não tem como não falar daquela pessoa que ajudou a formar boa parte do que sou hoje. São 6 anos sem a minha mãe, não vou falar de uma mãe amorosa já o fiz antes, mas hoje falo das minhas primeiras memórias políticas. Todas, ou quase todas, com ela.
Em 89 ela fazia boca de urna para o Lula, alí no José Veríssimo – toda minha família votava no José Veríssimo, só eu que votava no Santa Rosa – eu e minha irmã brincávamos na Pça Batista Campos e ela distribuía santinhos. A gente pedia para distribuir também, mas ela não deixava, era o nosso momento de ir brincar e não distribuir panfleto. O Lula perdeu naquele ano, como todo mundo sabe e numa lógica de claro golpe, em casa a minha irmã chorava por que ele tinha perdido: Lula não perdeu, Lula já ganhou.
Durante o impeachment do Collor, em 1992, eu pedi para sair de preto, pois não apoiava o tal caçador de marajás, e ela me virou e falou: Olha, você é criança, isso é coisa de adulto. Essa cena é algo que ficou na minha vida pra sempre, talvez tenha sido por isso que naquela tarde passei colada assistindo a votação do impeachment em Brasília e depois, de dois em dois anos, chegava em casa da escola para assistir o horário eleitoral gratuito.
Foi com a minha mãe que eu aprendi a amar e foi com ela que percebi a primeira contradição política. Nas eleições de 1994, quando Almir Gabriel e Jarbas Passarinho disputaram o governo do Pará e o Lula apareceu elogiando o Jarbas Passarinho (conhecido testa de ferro do regime civil militar), minha mãe na época me contou que o elogio de Lula teria sido durante uma CPI no congresso e não para um apoio eleitoral.
O segundo turno daquela eleição uma revoada de petista votou no Almir Gabriel e eu na cabine de votação com ela perguntando por que ela ia fazer isso, por que não votava no PT novamente. Protagonizei cena parecida com a Rosa em 2010, a pequena me disse: Mas não é o Plínio, durante o segundo turno e pretendo nunca mais fazê-lo, pois toda vez comparo muito 2010 e 1994 quando penso nisso.
1996 foi ano em que o Edmilson Rodrigues deu a volta na Elcione Barbalho e deu um fatality no Ramiro Bentes e assim ganhou a prefeitura de Belém. A festa foi na Pça da República, a mamãe perguntou: Vocês querem ir para casa ou ir para o furdunço. Obviamente a nossa escolha foi o furdunço e era maravilhoso ver tanta gente cantando: Meu coração é vermelho! De vermelho vive o coração!
Já 2000 a festa foi na Pça do Operário, novamente ela levou por que pedimos. Só lembro do tio Sávio gritando que a direita não ia retomar a cidade tão cedo… Ledo engano.
Além de lembrar de todo o filme da sua história, eu tenho certeza que a dra. Darcy Cesário Franca também lembrou das nossas discussões políticas em São Paulo, quando ela me falava que todos os meus apontamentos eram coerentes, mas continuaria apoiando o governo Lula pois não tinha mais força pra lutar e que as migalhas já a deixavam satisfeita, mesmo sabendo ser migalhas. Deve ter lembrado da nossa primeira e única greve juntas, em 2006, quando pedi para ela ir a assembléia da PUCSP junto comigo e ela falou que confiava plenamente em mim, mas não iria.
Lembro quando falei a primeira vez para ela que estava próxima ao PSOL e ela me pediu para não filiar a partido algum, por que era uma vida muito extenuante e não queria sua filha nisso. Não teve como, por causa dela eu me descobri um ser político e não fazia sentido não estar em um partido.
É, eu não seria a pessoa que sou hoje, não estaria onde estou hoje se essa moça não soubesse a importância das coisas que falava, das desculpas que me pediu e das coisas ensinadas – políticas ou não. Não era nenhum quadro político histórico, mas inspirava e inspira. Além de ter protagonizado meus primeiros insights políticos.
Mais tarde entra o post do Cordão da Mentira, agora só preciso me lembrar de uma vida toda junta e dizer que para sempre eu vou te amar.
Lindo, Luka! Nunca esqueço algumas conversas que tive com Darcy, sempre com aquele olhar atento e sagaz, vejo isso em vcs duas também, as belas sementes que ela deixou neste mundo. Bj carinhoso nas duas. Daila