Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer que eu não mudo de opinião

Semana passada foi a valsa do branco maluco em Brasília, primeiro o estouro da base governista quanto o impasse do Código Florestal, depois um novo escândalo envolvendo o já conhecido ministro Palocci, e a cereja do bolo foi a declaração da presidente Dilma se colocando contra o Kit anti-homofobia, sob pressão da bancada religiosa, e fazendo coro com o que há de menos laico no Congresso Nacional.

Novidade? Nem tanto, nas eleições do ano passado ela já havia lançado a Carta ao Povo de Deus, alegoricamente comparada com a Carta ao Povo Brasileiro de Lula, onde entre outras coisas dizia que:

Compreendemos o quanto as igrejas, todas sem distinção de dominações cristãs, são importantes e necessárias neste projeto de apoio e resgate da família e da sociedade.

As igrejas já fazem suas ações sociais, independentemente das ações do Governo. Elas são responsáveis por uma grande e invisível rede social, isto é louvável e traz em si a necessidade da mão amiga do Estado, dando sua contrapartida, tanto em termos de facilitação do acesso às políticas pública, como em termos de organização de um diálogo constante com o governo. Compromisso que assumo em meu eventual governo. Quero construir este diálogo com as instituções que têm sido os grandes amortecedores do sofrimento humano. Entendo seu valor, sua luta e seu trabalho impulsionado pela missão do evangelho.

Lembro também minha expectativa de que cabe ao Congresso Nacional a função básica de encontrar o ponto de equilíbrio nas posições que envolvam valores éticos e fundamentais, muitas vezes contraditórios, como aborto, formação familiar, uniões estáveis e outros temas relevantes, tanto para as minorias como para toda sociedade brasileira. (ROUSSEFF, Dilma)

O atrelamento do governo federal com a bancada religiosa já estava cantado há tempos, é só ver como a grande maioria dos parlamentares que compõe a bancada religiosa são de partidos da base governista no Congresso Nacional, no final das contas rifar pautas históricas dos movimentos sociais não é prática nova do PT e de seus governos, vamos combinar?

Infelizmente nossa primeira mulher presidente inaugurou seu mandato ignorando as denuncias de estupro no Haiti feitas pela Anistia Internacional em acampamentos protegidos pelas tropas brasileiras, articulou pelo seu staff político o arrocho salarial tratorando até mesmo as centrais governistas e em nenhum momento se posicionando contra o aumento nojento concedido ao congresso nacional e até mesmo a ela, fora o corte no roçamento que quando vamos analisar as áreas não estratégicas tão propaladas muitas delas atingem diretamente os direitos das mulheres. (Luka)

Engraçado que no discurso de posse de Dilma ela falava em honrar as mulheres e defender de forma intransigente os direitos humanos

Venho para abrir portas, para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, ser presidentes e para que, no dia de hoje, todas as mulheres brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher. Não venho para enaltecer a minha biografia, mas para glorificar a vida de cada mulher brasileira. Meu compromisso supremo, reitero, é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos. (ROUSSEFF, Dilma)

Continuando:

Meus queridos brasileiros e brasileiras, nossa política externa estará baseada nos valores clássicos da tradição diplomática brasileira, promoção da paz, respeito ao princípio de não-intervenção, defesa dos direitos humanos e fortalecimento do multilateralismo. (ROUSSEFF, Dilma)

A decisão de suspender o kit anti-homofobia em um momento como o vivido agora é no mínimo crueldade institucional com a comunidade LGBT, pois é trocar política pública que asseguraria inserção da discussão de educação não-sexista nas escolas públicas e assim fazer trabalho de prevenção à homofobia, mas por conta da governabilidade e necessidade de acalmar a base do governo que é composta sim pela bancada religiosa foi preferível deixar na roleta-russa aqueles que tem sido vítimas protagonistas de diversos casos de violência urbana nos últimos anos.

A vitoriosa pressão contra o kit anti-homofobia da bancada religiosa, majoritariamente composta por conservadores evangélicos e católicos, em um momento em que denúncias de corrupção atingem o governo, traz de volta ao cenário político a velha prática de se fazer uso de direitos civis como moeda de troca. Trocam-se, mais uma vez, votos preciosos e silêncio conivente pelo apoio ao preconceito homofóbico que retira de quase vinte milhões de brasileiros e brasileiras o direito a uma vida sem violência e sem ódio. A dignidade e a vida de pessoas LGBTTI estão valendo muito pouco nesse mercado escuso da política do toma-lá-dá-cá, senhora Presidenta! E o compromisso com a verdade parece que nada vale também. (Católicas pelo Direito de Decidir)

Como feito à época dos vetos ao PNDH-3 quando o governo do então presidente Lula cedeu a pressão dos ruralistas, grande mídia, militares e do dogmatismo religioso sobre pontos polêmicos inclusos no plano: Legalização do aborto, democratização da comunicação, comissão da verdade, união homoafetiva, reforma agrária e tantas outras questões importantes para o debate dos direitos humanos no Brasil.

Ora, não podemos negar tanto os acontecidos no governo Lula como a capitulação da campanha de Dilma durante as eleições para poder garantir sua vitória sobre José Serra, o que acontece agora com o Código Florestal e o Kit anti-homofobia é apenas a cobrança dos setores reacionários que a sustentam no governo e dos quais a cada ano o PT se aproxima mais e mais, estrangulando o debate político e ideológico junto à sociedade.

Obviamente não dá para deixar passar a declaração da presidente sobre ser contra o kit anti-homofobia dizendo não ter assistido os vídeos do kit e que estes seriam propaganda de “opção” sexual, o que gerou rebuliço no twitter e a assessoria ainda tentou mascarar a declaração como se fosse um erro de quem gerência o twitter do Blog do Planalto:

Presidenta Dilma diz que não assistiu aos vídeos do kit anti-homofobia e que o governo é contra a homofobia (@blogplanalto)

O governo é contra homofobia mas não precisa fazer propaganda de opção sexual, explica presidenta Dilma Rousseff (@blogplanalto)

CORREÇÃO: O governo é contra homofobia, mas não precisa fazer propaganda sobre orientação sexual (@blogplanalto)

Tanto que a a Niara do Pimenta com Limão lembra muito bem com quem estão comprometidos diversos parlamentares que votaram à favor do Código Florestal e agiram pressionando contra o Kit anti-homofobia do MEC:

Treze dos dezoito parlamentares que integraram a comissão especial do Código Florestal, da qual Aldo Rebelo era o relator, receberam doações de campanha do agronegócio. Fica meio evidente que essa proporção se repetiu no plenário da Câmara. Por que, então, seria preciso chantegear Dilma com Palocci? Os deputados aprovariam o novo Código Florestal de qualquer jeito.

Após a reunião com a chamada bancada da fé, onde Dilma diz ter assistido os vídeos da campanha antihomofobia – grotescamente apelidada de “kit gay” pelo deputado Jair Bolsonaro -, era visível seu constrangimento. Ver Dilma se referir a “opção sexual” quando já estava ambientada com a expressão “orientação sexual” usada desde a campanha é, para dizer o mínimo, nojento. Ela cedeu à chantagem da bancada da fé que foi cobrar o apoio dado durante a eleição (incluindo aqui a Rede Record do bispo Edir Macedo). Então, de novo, por que chantegear Dilma com Palocci? Sabíamos desde a eleição que essa conta seria cobrada. Mesmo que já durante a campanha tenham sido feitas concessões suficientes, como no compromisso assumido por Dilma em não enviar ao Congresso alterações na legislação sobre aborto. (OLIVEIRA, Niara)

Nada melhor do que relembrar da ligação entre estes temas e a discussão de reforma política que hoje é pautado no Congresso Nacional e junto à sociedade logo devemos ver realização de audiências públicas e afins, pois todas estas votações absurdas e conluios políticos acabam tendo origem também durante as eleições, com as coligações proporcionais que acabam se revelando como acordos políticos para garantir a governabilidade dentro do Congresso Nacional, o financiamento privado que atrela parlamentares a determinados grupos econômicos antes de tomarem posse em cargos do executivo ou legislativo e tantas outras questões que estão em pauta na reforma política e se fizermos uma defesa de radicalidade do sistema político brasileiro pode ajudar bastante a tirarmos pessoas como Malufs, Bolsonaros e afins de lá… Ou será que não seria bom termos mandatos revogáveis no legislativo brasileiro com tanta cagada sendo aprovada por lá?

13 thoughts on “Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer que eu não mudo de opinião

  1. Seu texto tocou no ponto. O que está acontecendo hoje, já foi articulado há muito tempo no governo Lula e na campanha passada. Não foi agora, só estamos assistindo o desenrolar das alianças, dos conchavos, dos acordos…
    Se a sociedade não reagir, vamos ver muito mais.

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