Desde a primeira vez que li algo sobre os feminicídios em Ciudad Juárez tive vontade de escrever sobre o tema, depois de anos e meses impelida a tentar compreender os crimes de Ciudad Juarez presenciamos no Brasil crime em certa maneira parecido no Realengo. No Rio de Janeiro foram mais ou menos 10 meninas assassinadas em um dia, em Ciudad Juarez foram pouco mais de 300 mulheres em um ano, ambos podem sim ser considerados crimes de ódio contra as mulheres.
Eram atacadas nas madrugadas, quando saiam de bares, boates ou quando iam para o trabalho antes do sol nascer. Logo eram encontradas mortas e estupradas em matagais.
As autoridades ao invés de tentar conter a matança, estimularam os criminosos, encobrindo pistas e prendendo inocentes. O prefeito afirmou que as mulheres que foram assassinadas mereceram morrer, porque se vestiam de forma provocante. Lançou uma campanha que dizia “Seja homem, cuide da sua mulher” e decretou toque de recolher na cidade, impedindo que os cidadãos circulem nas ruas depois das 23:00h. (WAINER, João)
A negação da existência do machismo arraigado na nossa sociedade acaba por encarar atentados de ódio contra as mulheres como algo mais ameno, para vir à tona o mínimo de discussão sobre opressão de gênero é necessário tragédias em série, mas confesso ter ficado um pouco incomodada de ter lido posts sobre o feminicídio no Realengo estabeleciam paralelos quase sempre com crimes do dito 1º mundo, esquecendo-se do mais dramático dos casos do México e a série de violações aos direitos humanos sistemáticas acontecidas naquele país. Até por que os crimes de Ciudad Juárez por suas recorrência são símbolo importante do que é a violência machista e a reificação da mulher e mostra o como a elação homem e mulher é uma construção social importante, este caso não foi algo individual, mas sim do coletivo dos homens daquela cidade contra as mulheres e este dado quando foi lembrado os casos de feminícidio para relacionar com o caso do Realengo fez uma falta qualitativa.
Ciudad Juárez es una ciudad fronteriza, bien al norte de México, que limita con El Paso, Texas. Es un enclave estratégico para el tráfico de drogas y humanos y, como tal, ha sufrido una escalada de violencia sin parangón que hoy por hoy tiene a la población entera completamente aterrorizada. Estamos, sin duda alguna, ante un caso de emergencia humanitaria. (Fuerzas Colosales)
A Cidade de Juarez é uma cidade fronteiriça no extremo norte do México, que limita com El Paso, Texas. É um local estratégico de tráfico humano e de drogas e, como tal, sofreu uma escalada de violência sem precedentes que hoje deixa completamente aterrorizada toda uma população. Enfrentamos, sem qualquer sombra de dúvida, um estado de emergência humanitária. (ONOFRE, Claúdia. Global Voices)
Compreender que em zonas de conflito normalmente quem mais sofre são as mulheres e crianças ajuda a compreender o drama vivido em Ciudad Juárez que até no cinema já foi retratado. Até por que o estupro ainda é considerado arma de guerra e por sermos considerados alvos mais frágeis acabamos morrendo mais também, perdemos filhos, irmãos, maridos e tendo que encarar muitas vezes o rechaço da sociedade por vivermos em locais de situação limite, como se fosse nossa escolha. Na verdade o feminícidio desnuda em muito aquela lógica de encarar a questão das mulheres e de gênero como questões menores, pois o caso de Ciudad Juárez nos mostra quem são as mulheres que são mortas, na sua maioria são sim mulheres da classe trabalhadora, no emprego informal, deixando cair por terra que um critério mais amplo para a luta anti-capitalista não passa também necessariamente por ter como princípio a luta pela vida e liberdade das mulheres.
Na verdade os casos mexicanos de violações aos direitos humanos são exemplos primordiais de como se estas discussões não estiverem atreladas ao debate geral de mudança de sociedade.
Ciudad Juárez es la muestra de lo que se gesta en México. Por un lado es una ciudad que genera una riqueza que se puede comparar al producto interno bruto de algunos países de Centroamérica, pero con una población en su mayoría en condiciones de exclusión y un nivel de desarrollo social casi inexistente. Encontramos una infraestructura de la ciudad precaria, con pocos espacios públicos donde se genere participación ciudadana, sistemas de transporte público de los años cincuenta, colonias en la zona sur y poniente de la ciudad sin los servicios públicos básicos, como agua potable o pavimentación de calles. (GRACIA, Gabriela Morales. Kaos en La Red)
Ciudad Juarez é o sinal de que está em desenvolvimento no México. De um lado, é uma cidade que gera uma riqueza que pode ser comparado ao PIB de alguns países da América Central, mas com uma população na maior parte em condições de exclusão e de nível de desenvolvimento social quase inexistente. Encontramos uma infra-estrutura da cidade pobre, com poucos espaços públicos onde geram participação do cidadão, sistemas de transporte público dos anos cinquenta, as colônias no sul e oeste da cidade, sem serviços básicos como água ou ruas pavimentadas.
A situação é tão grave que em 2010 uma das principais defensoras dos direitos humanos e militante feminista foi assassinada Marisela Escobedo em frente ao Palácio do Governo do Estado de Chiahuahua, mesmo ela tendo recebido ameaças e mais ameaças de morte nada foi feito para protegê-la por parte das autoridades mexicanas, obviamente considerando as denúncias de mortes em Ciudad Juárez um caso de histeria por parte das mulheres, análise muito comum quando se trata de violência contra a mulher em massa. Agora em janeiro a criadora da frase”Ni una más”, Susana Chávez, também foi assassinada.
Ante este panorama, ¿qué se puede esperar de los derechos humanos de las mujeres en Ciudad Juárez? No existen garantías para denunciar sin riesgos. Las posturas machistas están a la orden del día: se descalifica el trabajo de las activistas, se objetiviza a las mujeres, y las violaciones de sus derechos se justifican mediante sospechas sobre su comportamiento, con una postura moralista y conservadora. (GRACIA, Gabriela Morales. Kaos en La Red)
Neste contexto, o que se pode esperar dos direitos humanos das mulheres em Ciudad Juárez? Não há garantias para denunciar de forma segura. As posturas machistas são a ordem do dia: se desqualifica o trabalho das ativistas, objetifica as mulheres e as violações dos seus direitos são justificadas pelas suspeitas sobre o seu comportamento, postura e moralista conservador.
As mulheres encontradas mortas nesta região do México acabam sendo relacionadas diretamente ao crime organizado e isto acaba influenciano diretamente na morosidade de investigação dos crimes, obviamente não há por que investigar o crime cometido contra alguém que supostamente também é uma criminosa, né? Claro pois nesta região do mundo o machismo se recrudesceu ao máximo, sob o próprio argumento de assassino em série se justificam outros crimes contra as mulheres e as saídas são sempre criminalizando o elo mais fraco desta corrente. Ora, são as mulheres que provocam os homens com suas roupas e comportamentos inadequados, como elas esperam que não exista resposta alguma por parte dos homens a sua provocação? Mas como muito bem lembraram no blogueiras feministas: Isto não é um convite para me estuprar! Muito menos nos assassinar sem motivo algum.
Virou moda matar mulher. Tá infeliz, mata ela e põe na conta dos caras, diriam nos botecos os machos bigodudos entre goles de tequila, tortillas apimentadas e guacamole. Um psicólogo ajudaria a explicar porque na cidade dos derrotados gostam tanto de maltratar as mulheres. (WAINER, João)
No final o que prevalece em Ciudad Juárez é a lógica da mulher propriedade dos homens, quando por algum motivo não os satisfazem apanham e se tiverem sorte não são mortas. Os direitos eqüitários que ganhamos durante estes últimos anos vão para o ralo quando nos deparamos com casos como o desta localidade, pois ali os direitos equitários não existem, aparece apenas a ideologia da forma mais crua que tanto combatemos há anos. É bom lembrarmos que não vivemos numa bolha e o machismo existente em Ciudad Juárez é o mesmo que existe por aqui, África e Europa. A violência contra mulher em casos como este se reapresenta de maneira sútil (ou não) também nas escolas e grupos de jovens, sejam pelos meninos da mesma idade, seja por professores e estes perpetuam todas as formas de agressão sejam físicas, psicológicas ou econômica.
Os casos de feminicídio em Ciudad Juárez nos mostram o quanto a violência contra a mulher de forma mais recrudescida revela nos mais diversos setores da sociedade a latente noção de que nós não passamos de objetos de prazer e se resistimos a isso não temos direito a nossa vida. Acredito que o caso mexicano por ser em região tão pauperizada daquele país nos revela na prática o por que a desconstrução do machismo em conjunto a desconstrução da capitalismo dentro de um panorama maior são fundamentais e não dissociadas, pois não podemos ignorar o fato de Ciudad Juárez ser um ponto importante de tráfico de pessoas e de drogas, dois mercados essenciais para o caixa 2 do capital mundial.
Triste demais.
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