É véspera do Dia Internacional de Luta das Mulheres, dia que tem sua história construída junto a mobilização e luta da classe trabalhadora. Infelizmente uma história que a grande mídia, principalmente, faz questão de esquecer ou algum dos programas especiais em “comemoração” ao 8 de março falou sobre a 2ª Conferência das Mulheres Socialistas em Compenhagen, em 1910, quando a alemã Clara Zetkin propôs que se internacionalizasse o Women’s Day realizado diversas vezes nos Estados Unidos. Nada se fala do que foi a luta das têxteis nos EUA, Rússia ou resto do mundo, à época eram os postos de trabalho mais precarizados e além das mulheres lutarem pelos seus direitos ainda tinham que se confrontar com os homens da sua mesma classe que defendiam a nossa volta para a família e o trabalho doméstico.
Recuperar o histórico do Dia Internacional das Mulheres como parte da luta social, como inegável ponto de intersecção entre a luta das trabalhadoras, do movimento socialista e da luta feminista, evidencia o caráter político dessa comemoração e, ao mesmo tempo, retoma historicamente o esforço das militantes socialistas em construir uma dinâmica de organização e luta específica das mulheres. A história evidencia a resistência – e mesmo o rechaço – de setores do movimento socialista à perspectiva de organização das mulheres, alicerçada na recorrente incompreensão do direito das mulheres à igualdade no mundo público (ao trabalho e à participação política), contrastando com a realidade da sua presença no trabalho agrícola e no proletariado industrial, já fortemente marcados pela divisão sexual do trabalho. Em diversos setores a mão de obra feminina era mesmo majoritária. Difícil seria pensar na organização da luta revolucionária sem a participação das trabalhadoras. (FARIA, Nalu. As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres)
O resgate da história real do 8 de março iniciou em 1984 com o estudo de Renée Côté publicado em Quebec no Canadá, lá ela resgata a 2ª Conferência das Mulheres Socialistas e começam a desvelar diversos mitos que rondam o Dia Internacional de Luta das Mulheres e em 8 de março de 1996 o jornal El Mundo publicava texto de Irene Lozano chamado: Aquele 8 de março… que nunca existiu. Avançando um pouco mais na reconstrução da história desta data tão importante não apenas paras as feministas, mas também para as socialistas. O texto de Lozano desmentia justamente o mito de que a data do Dia Internacional de Luta das Mulheres havia sido fixada no 8 de março por conta de um incêndio criminoso acontecido nesta mesma data em uma fábrica Têxtil em 1857 nos EUA, porém em diversas pesquisas feitas – com destaque para a de Ana Isabel Álvarez González republicada no Brasil pela Expressão Popular em parceria com a SOF – mostram que tal história ganhou status mítico, pois a cada ano ou lugar algo muda, seja o ano em que o incêndio aconteceu, a cidade e afins. Obviamente que incêndios em fábricas têxteis eram altamente comuns àquela época e tiveram importante impacto na organização da luta das mulheres nos EUA e a necessidade da organização destas para ter garantia da participação política até mesmo em seus sindicatos, porém não foram estas histórias que fixaram a data que ano após ano nos leva as ruas para reivindicar nossos direitos.
No ano de 1914, por proposta das alemãs, o Dia Internacional das Mulheres foi celebrado pela primeira vez no dia 8 de março na Alemanha, Suécia e Rússia. A única autora que se aventurou a dar uma explicação sobre a escolha desa data foir Renée Côté, que apenas aponta como possibilidade o fato de que o mês de março estava carregado de conteúdo revolucionário – a revolução de 1848, a Comuna de Paris de 1871 – mas sem dar nenhum argumento sólido sobre o porquê deste dia em particular e não outro. Se existia ou não a intenção de perpetuar a data de 8 de março para celebrar o Dia Internacional das Mulheres, é algo que não podemos saber porque o estopim da Primeira Guerra Mundial frustrou a celebração nos países beligerantes. (GONZÁLEZ, Ana Isabel Álvarez. As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres)
A participação das mulheres trabalhadoras nas mobilizações, levantes e até mesmo revoluções não é novidade, tanto que na própria história da maior revolução socialista da qual temos conhecimento foram as mulheres o estopimdas mobilizações resultantes na revolução se outubro de 1917, mais conhecida como Revolução Russa. É mais provável que tenha sido este acontecimento a fixar a data do 8 de março tenha sido o estopim da revolução de fevereiro na Rússia, pois no calendário ocidental o 23 de fevereiro – palco da greve das têxteis de Petrogrado – equivale ao 8 de março. Comemoramos assim o Dia Internacional de Luta das Mulheres no 8 de março por causa do início da Revolução Russa em 1917, mas isso as agências de publicidade e a grande mídia nem comentam em suas homenagens as mulheres.
Porém, não se pode envolver a massa trabalahdora na política sem fazer o mesmo com as mulheres. Porque a metade feminina da raça humana é duplamente oprimida pelo capitalismo. A operária e a mulher camponesa são oprimidas pelo capital, mas primeiro, e acima de tudo, inclusive na mais democrática república burguesa, a lei não lhes concede igualdade com os homens; e, em segundo lugar – e este é o aspecto mais importante – permanecem “escravas domésticas”, porque estão sobrecarregadas com a monotonia do mais mesquinho, duro e degradante trabalho na cozinha e nas tarefas domésticas familiares. (LÊNIN, Vladimir. Pravda, em 8 de março de 1921)
Compreender qual a relação da luta das mulheres com a luta da classe trabalhadora é para mim no mínimo essencial, pois a relação com o combate ao patriarcado, o anti-capitalismo e afins são basilares de nossas mobilizações e lutas e é por isso que no mínimo me indigna quando aquela que deveria ser símbolo-mór das mudanças estruturais na sociedade brasileira se presta a ir ao programa da Ana Maria Braga cozinhar omeletes, sem falar em problemas nefrálgicos que atingem as mulheres até hoje como a violência sexista, pois seu combate não está ligado apenas a SPM, mas também ao Ministério da Justiça que teve um cortede um terço do seu orçamento, falou do Bolsa-Família – cujo aumento apenas corresponde a 4% daquilo que foi cortado do orçamento - para famílias chefiadas por mulheres, mas não falou do direito social inexistente desta quando o assunto é trabalho, da necessidade de se equivaler a licença-paternidade ao mesmo tempo da licença-maternidade e deu que esta última seja um direito social de todas as mulheres.
Há cada ano que passa, apesar da plena noção de que os espaços da esquerda socialista também são machistas, me convenço de que não há feminismo sem socialismo, assim como não há socialismo sem feminismo
Dilma quebrou os ovos, e assim como os dois primeiros meses de seu governo mostrou muito bem a que veio. Disse que iria honrar as mulheres, mas cortou o orçamento de diversas àreas que nos atigem diretamente, não apenas o Ministério da Justiça, mas o da Integração Nacional, Previdência, Desenvolvimento Agrágrio, Cidades e diversos outros que tem projetos, obras e afins atingindo diretamente a realidade das milhões de mulheres brasileiras.
Chegamos a mais um 8 de março, o primeiro que temos com uma presidente mulher e a sombra do simbolismo pelo simbolismo, sem relação concreta alguma com a realidade e luta das mulheres no Brasil é pericletante, a ida ao programa de Ana Maria Braga ou ao de Hebe Camargo corrobora com a imagem construída pelo patriarcado ao longo dos séculos para nós. Dilma é compenetrada, mas lá no fundo é um doce e prendada, também é uma mulher. A realocação da imagem da presidenta é apenas indício do que já vem acontecendo na política, o não aumento real do salário mínimo em um país em que mais de 53% daqueles que sobrevivem com ele são mulheres enquanto o legislativo e o executivo se concedem aumentos fora da realidade, uma ausência de política para efetivação real do combate a violência contra a mulher e apenas sinalizações negativas do executivo sobre a legalização e descriminalização do aborto.
É, só símbolo não resolve o nosso problema, se tivesse resolvido o 1º presidente operário do Brasil não teria empurrado goela abaixo a contra-reforma previdenciária, trabalhista e universitária, nos legando PPPs idênticas ao do tucanato paulista. Mudaria realmente a base deste país e não apenas acrescentado maquiagem.
Este 8 de março não é para comemorar a 1ª mulher presidente do Brasil, mas sim para mostrar realmente que a luta feminista precisa seguir em conjunto com a luta socialista, sem contorcionismos explicando o por que é bom ir a programas que só reafirmam o lugar em que o machismo nos coloca ao passar dos séculos. Mais do que nunca é importante as mulheres irem às ruas para mostrar que não basta apenas ser mulher, há muito pelo que lutar e esta se fará como sempre todo dia, sem rabo preso de mostrar as incongruências das políticas apresentadas pelo governo Dilma, com autonomia para questionar, desmentir e pressionar pelo que é direito nosso.
Desculpem-me a sinceridade, mas estamos ladeira a baixo, há aumento no preço dos alimentos, probabilidade de carestia e sinalização do nosso governo de que não irá estocar alimentos por conta da competitividade no mercado internacional. No final das contas quem vai se estrepar é a classe trabalhadora e principalmente as mulheres.
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