Qualquer uma de nós pode ser a próxima Jandira ou Elizangela

As duas notícias sobre desaparecimento e morte de mulheres no Rio de Janeiro e que haviam decidido por abortarem tem tirado meu sono. Jandira e Elizangela são dois nomes que poderiam ser Ana, Marcela, Joana, Lívia, Isadora, Luana, Carol e tantos outros por aí, são dois nomes que hoje tem rosto, mas e todos aqueles que não tem rosto.

Normalmente a legalização do aborto em época de eleição é tema colocado pra debaixo do tapete, é feio defender a vida das mulheres e encarar o debate reacionário posto aí pela direita brasileira. A questão é quando usamos as questões ligadas ao combate às opressões para barganhar governabilidade, como Dilma fez, ou ficamos em cima do muro, como Marina faz, jogamos fora milhares de vidas de mulheres.

Segundo o Conselho Federal de Medicina mortes por causa de abortos ilegais e inseguros são a quinta causa de morte materna no Brasil, porém até agora tivemos pouquíssimas políticas públicas que realmente enfrentariam a dura realidade das mulheres brasileiras que decidem por diversos motivos não serem mães.

O debate não é novo, as estatísticas alarmantes de que o aborto inseguro e ilegal é uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil são ignorados há anos. Inclusive havendo retrocessos como a revogação da portaria do Ministério da Saúde que modificava a forma de como registrar o procedimento na rede credenciada ao SUS. Bom lembrar que tal recuo do Ministério da Saúde aconteceu após pressão da bancada da fé no congresso, com destaque especial para o PSC.

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Segundo a OMS haveria no mundo cerca de 20 milhões de abortos ilegais e inseguros sendo praticados e destes há 70 mil mortes relacionadas ao aborto por ano, a imensa maioria delas em países que possuem leis restritivas ao procedimento, sujeitando as mulheres e suas famílias ao aborto ilegal e inseguro. Já nos países em que a prática foi legalizada o que é observado são quedas nos índices de mortalidade materna por causa de aborto tem caído de forma brutal.

Um estudo realizado pela AADS (Ações Afirmativas em Direitos e Saúde) apresenta que no Brasil são realizados 1 milhão de abortos provocados, sendo que destas 250 mil mulheres por ano precisam ser internadas para tratar complicações dos procedimentos realizados de forma insegura e ilegal. Fora que complicações em decorrência de abortos ilegais e inseguros são a segunda causa de internamento em ginecologia no Brasil.

Além disso, uma série de estudos realizados pelo país também localizam que as mulheres negras acabam sendo mais vítimas do aborto ilegal e inseguro do que as mulheres brancas. Isso revela inclusive o dado levantado pela Alessandra de que as mulheres mais pobres – precisamos lembrar sempre que no Brasil a maioria dos pobres é mulher, negra e indígena – não possuem condição financeira para acessar clínicas clandestinas que não funcionam como açougues.

As que não morrem podem ser presas, graças a uma lei que quase nos remete à Idade Média. Já os homens que as engravidaram estão livres de qualquer pena.

De outro lado, as mulheres das classes mais abastadas têm acesso ao aborto seguro, pagando pequenas fortunas em clínicas que são tão clandestinas quanto as que mataram Jandira e Elizângela. E há pessoas que insistem em fechar os olhos para essa situação. (TERRIBILI, Alessandra. Legalizar o aborto urgentemente!)

Os caso de Elizêngela e Jandira revelam o quanto a legalização do aborto urge em nosso país e não pode ser mais alvo de negociatas para garantir apoios políticos e manutenção de governabilidade deste ou daquele partido. Além disso mostram o com todas nós somos parte de estatísticas perversas e, pelo fato de termo o aborto criminalizado no Brasil, estamos cotidianamente lutando contra uma pssível morte caso decidamos não ser mães.

Fechar os olhos para as mortes dessas mulheres é corroborar para a permanência de uma sociedade machista e racista no Brasil.

 

 

Vange Leonel e Plinio de Arruda Sampaio faces da mesma lição

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando (MELLO, Thiago. Para os que virão)

Não sou dada as homenagens. Aprendi há quase 8 anos quando me despedi da pessoa que mais amei nessa vida antes da Rosa nascer. Porém ontem, ao pegar 3 ônibus para chegar ao velório da Vange – passando por pedir dinheiro no ponto de ônibus em Itapecerica da Serra para conseguir concretizar a minha necessidade de dizer mais um adeus doloroso na minha vida – percebi o quanto eu tinha a dizer sobre as minhas recentes perdas.

Essa última semana terminaram de ser escritos os livros de duas pessoas que me ensinaram a mesma lição. Para muitos parecerei herética em dizer que Vange Leonel e Plínio de Arruda Sampaio foram mestres em igual patamar, mas foda-se, o que importa é que pra mim foram e sempre serão.

Dividi e divido sonhos com estes dois camaradas, isso não quer dizer que tenha concordado sempre com as posições apresentadas por eles, mas essa foi a maior lição de vida que ambos me deram: O respeito a posição divergente. E essa forma de lidar com os diferentes pontos de vista, de aglutinar pessoas, da generosidade em se doar para as conversas políticas são características que vi se presentificar da maneira mais acolhedora possível na Vange e no Plinio.

Para alguns vai parecer um devaneio, mas com estas duas pessoas aprendi que sonhos sim são possíveis de virar realidade e que nada é impossível de mudar. E o mais importante, conseguiam olhar para as pessoas e as verem, não contar como mais um número desta ou daquela determinada posição política. Isso é algo tão raro, Vange e Plinio ao me encontrarem sempre faziam a mesma pergunta: E como vai a Rosa?

Durante a minha andança entre ônibus intermunicipais e mendicância na frente de uma loja de cervejas especiais (Vange adorava cervejas artesanais e minha primeira cerveja artesanla foi tomada junto com ela e a Cilmara no Tubaína Bar) fui resgatando as memórias sobre estes dois e cheguei a conclusão que um não existiria na minha vida sem o outro.

Conheci a Vange durante as eleições de 2010, foi no twitter que a minha arroba esbarrou na arroba dela. Ela fazia campanha para a Dilma e eu para o Plinio. Foi por conta do debate político e feminista que começamos a conversar mais e mais, foi por conta de ter aberto a conta de twitter do Plinio no finalzinho de 2009 que eu comecei a acompanhar de forma mais ávida o que acontecia nas redes sociais.

Mesmo conhecendo o Plinio há um tempo mais considerável do que conhecia a Vange, olhando toda essa minha trajetória um tanto nonsense pela internet, política e relações pessoais percebi que as conversas com a Vange também influenciaram em muito coisas que acabei apresentando para o programa de mulheres da campanha Plinio.

Além disso tudo, Vange e Plinio construiam relações com generosidade, não tinha dessas de um saber mais do que o outro. Não tinha dessas de carteirada geracional, tinha mais uma contação de histórias de tempos que não tive oportunidade de viver. Com detalhes diversos, ênfase em acontecimentos diversos e uma paciência gigantesca com as problematizações.

Lembro quando a Vange me contou que a sede do SOMOS era no mesmo lugar que hoje funciona o meu bar favorito e a minha empolgação de menina com a informação contando para todos os meus amigos.

Em São Paulo,  os julhos normalmente são cinzas, coisa da cidade. Mas este, em especial será marcado no meu livro como um julho mais cinza do que o normal. O julho onde perdi dois mestres.

Para mim estes dois estavam ligados. Tanto que ambos dialogavam com gerações diversas e agora na hora do capítulo final do livro destas duas pessoas incríveis era visível o quanto ambos tem qualidades muito parecidas.

A lição que eu tiro destes dois tchaus? É que viver uma vida plena,  sem fazer inimigos e defendendo aquilo que acreditamos vale a pena e eu pretendo levar essa lição linda dada por Vange e Plinio para o resto da história que estou escrevendo.

Eles morrem, e deixam vários os que virão e eu sou um deles.

Vange e Plinio, obrigada por tudo. Amo vocês, hoje é sempre: presente!

Em Minas, desembargador culpabiliza mulher vítima de slut shaming

O processo de culpabilização das mulheres cis e trans numa sociedade patriarcal é algo com que nos deparamos cotidianamente. Seja ao enfrentar a possibilidade de sermos violentadas ao andarmos pelas ruas, tomarmos um transporte público lotado ou, o que é mais frequente, enquanto estamos em nossas casas ou em casas de entes queridos. Nunca é o bastante relembrar que 77% dos casos de estupro as vítimas conhecem seus algozes.

Fonte: A Lofty Existence

Fonte: A Lofty Existence

Além da violência física que estamos propensas a sofrer cotidianamente nesta sociedade machista e que necessita de superação, também somos cotidianamente atacadas psicologicamente e talvez uma das coisas mais violentas que temos visto se proliferar é o slut shaming de adolescentes e jovens ao serem expostas pelos ex nas redes sociais.

A realidade imposta pelo slut shaming e a cultura do estupro é lamentável: a sexualidade feminina não pertence às próprias mulheres – quando existe, é para satisfazer os homens. Mulheres lésbicas são vistas como objetos fetichistas para a masturbação masculina, constantemente questionadas e pressionadas a aceitar homens em seus relacionamentos, resultado de uma imposição falocêntrica que não admite nenhum sexo sem a presença de um pênis. Mesmo que mulheres trans se relacionem com mulheres cis em um relacionamento lésbico, a validação física se dá de modo cissexista e a própria lesbianidade de ambas é posta em dúvida. (ARRAES, Jarid. Cultura do estupro e slut shaming)

Pois bem, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais julgou o caso de uma moça que teve imagens eróticas disponibilizadas publicamente por um ex-namorado. Segundo o revisor do caso, desembargador Francisco Batista Abreu, a vítima da exposição realizada pelo ex-namorado de momentos íntimos também era culpada pelo acontecido. “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida”, afirmou Abreu durante o julgamento da ação.

As demais afirmações feitas pelo desembargador mineiro durante o julgamento do caso em questão só demonstram a profundidade do machismo em nossa sociedade e, obviamente, na justiça brasileira que tende a ajudar a manter as estruturas de sociedade como elas estão, ou seja, mantemos o status quo, pois esse status quo beneficia aos homens cis brancos e héteros.

A negação e culpabilização da sexualidade feminina é uma das formas mais indeléveis de se manter as correntes do machismo em nossa sociedade, quando apontamos os valores de moralidade de manutenção de uma estrutura social que pretende manter a desigualdade entre homens e mulheres estamos apontando que a liberdade sexual só pode ser assegurada para os homens cis e qualquer outra pessoa que a quiser exercer será culpabilizada se sofrer alguma forma de coação por exercer sua sexualidade livre.

Nenhuma mulher cis ou trans em um relacionamento, seja ele qual for, espera que a ex-companheira ou ex-companheiro a exponha a tal forma de violência psicológica. Ao naturalizarmos tais condutas o próprio imaginário coletivo da sociedade em que vivemos consolida estes padrões machistas de como lidar com os términos de relacionamento de forma possessiva, inclusive, expropriando a sexualidade alheia.

Ao culpabilizarmos as vítimas de slut shaming, ao institucionalizarmos a lógica de que existe um padrão moral para seguirmos e o não seguir este padrão justificaria nossa exposição ao assédio generalizado e, muitas vezes, massificado simplesmente fechamos os olhos para a barbárie diária que aflinge as adolescentes e jovens no Brasil e restante do mundo.

O fato da justiça brasileira notoriamente mais ajudar a manter a desigualdade entre homens e mulheres do que trabalhar para eliminá-la é notória. Como já disse a justiça serve a esta sociedade na forma como ela está arquitetada, ou seja, nos marginalizando e culpabilizando. Este fato, no entanto, não isenta de responsabilidade quando um desembargador protagoniza um processo de culpabilização das vitimas de uma sociedade patriarcal.

Na verdade, seria muito bom o movimento feminista cobrar retratação da postura desse desembargador junto ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Até por que não é nossa culpa sofrermos as violências que sofremos.

 

Segregar é preciso? Uma reflexão sobre o vagão rosa

A existência de um vagão exclusivo para mulheres no transporte público não é um debate de hoje no Brasil, desde que o primeiro foi implementado no Rio de Janeiro a eficácia desta medida ao combate e prevenção a violência machista dentro dos transportes de massa é problematizada.

Esta semana foi aprovada pela ALESP (Assembleia Legislativa de São Paulo) a Lei que reserva vagões específicos para mulheres. Apesar de um setor do movimento feminista compreender isso como vitória eu tenho lá meus questionamentos sobre a real eficácia da medida para o combate a violência machista como um todo, seja no estado de São Paulo, seja em outros estados brasileiros. Um dado importante desta votação é que apenas homens foram favoráveis a medida.

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

A primeira questão a ser considerada é o fato de que em São Paulo somos 58% das usuárias de transporte público, ou seja, mais da metade da população que encaram as latas de sardinha diariamente. Aí está a primeira problemática: Como garantir uma política de cotas de vagão quando o sistema metroferroviário do estado já está em total colapso?

Como sabemos, lei parecida com a do vereador Alfredinho já está em vigor no Rio de Janeiro desde 2006. É a Lei 4.733/2006, que em nada resolveu no fato de que as mulheres são assediadas, abusadas e estupradas nesse espaço, como demonstra a matéria do Portal R7: “Linha do medo: homens invadem vagão exclusivo para mulheres“. Ao contrário, sem qualquer mecanismo de regulação e fiscalização da implementação da Lei, os homens passaram a ocupar os vagões destinados somente por mulheres. (MARQUES, Léa e RODRIGUES, Patrícia. Contra os vagões femininos, pelo direito ao espaço público)

O processo de se segregar em vagões distintos homens e mulheres não avança no combate ao machismo estrutural existente no capitalismo, na verdade apenas avança no processo de culpabilização da vítima, ou seja, uma mulher que não consiga entrar no vagão destinado a ela e usar qualquer um dos outros vagões e sofrer algum tipo de abuso seria considerada culpada pela violência sofrida por não estar onde a lei manda: no vagão rosa.

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Defender o segregacionismo nunca foi uma máxima feminista, muito menos uma máxima socialista. Os setores que na sociedade normalmente defenderam formas segregacionistas para resolver os problemas que fossem, normalmente, flertavam com a extrema direita e isso não se pode perder do nosso horizonte.

Além do mais, devo frisar: os assediadores do transporte público não são doentes. Eles fazem parte dos homens que aprenderam, ao longo de sua vida, que podem tocar o corpo de uma mulher sem consentimento, e que continuarão fazendo isso fora dos vagões, na rua, em todos os lugares, inclusive em lugares considerados seguros – 77% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. O vagão não resolve sequer uma parte do problema. (AVERBUCK, Clara. Vagão para mulheres: segregar não é proteger)

Em junho de 2013 jovens do Brasil todo se levantaram pedindo diminuição da tarifa dos transportes públicos e melhoria nestes serviços. Óbvio que estas melhorias passam necessariamente pela garanti de que mulheres cis e LGBTs possam usar o transporte público sem o medo de sofrer violência. Na proposta sancionada pelo governador Geraldo Alckmin não se pensa em nenhum momento em como será garantida a integridade física de mulheres e homens trans que forem vetados a entrar nos tais vagões rosa, relegar a outro setor marginalizado o lugar da violência cotidiana que sofremos é justo? Avança para a luta por uma sociedade de mais igualdade?

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

A criação do vagão rosa não enfrenta o problema da violência machista nos transportes públicos de forma contundente, apenas ajuda a colocar o problema para debaixo do tapete. Não coloca no centro do debate que a violência existente no metrô e trem são fruto da lotação enorme do transporte público que é garantida pela falta de investimentos nas ampliações das frotas e do pessoal com treinamento necessário para manter e fazer funcionar metrô e trem.

O sufoco sofrido por nós mulheres nos trens, metrôs e ônibus se resolveria se não tivesse casos de corrupção no transporte público como o revelado pelo Caso Alstom/Siemens no começo do ano. Se o dinheiro destinado ao transporte público de qualidade fosse realmente usado para garantir transporte público de qualidade e não ajudando a financiar cartéis empresariais como aconteceu no metrô.

Não, não precisamos de segregação que amplie o processo de culpabilização da violência que nós sofremos. Precisamos é que se encare o problema a fundo e se garanta que não existam transportes públicos superlotados facilitando a ocorrência de crimes de oportunidade. Precisamos da garantia do nosso direito a fruir o espaço público sem restrições e, sobretudo, não podemos nos valer de reformas que não avancem para a luta das mulheres e LGBTs em nosso país e o vagão rosa hoje só ajuda a aprofundar a culpa que a sociedade nos impõe pela violência que sofremos.

Sim, eu apoio a greve dos metroviários!

Ontem estive na assembleia dos metroviários de São Paulo, depois fui ajudar no piquete lá no Pátio Jabaquara. O governador Alckmin e seus asseclas dizem que é uma greve motivada por diferença política, o mesmo argumento usado quando começou a estourar os casos de cartéis no Metrô e na CPTM.

greve_metroviarios_spMe parece que o governador esquece dos diversos casos de estupro e assédio sexual que ocorrem no metrô todos os dias por conta do sufoco que são as linhas nos horários de pico, assim como parece esquecer o fato da insatisfação da maioria da população com a qualidade do transporte em São Paulo.

A greve dos metroviários afeta a toda população? Sim, afeta. Mas não afeta menos do que os problemas cotidianos que enfrentamos ao embarcarmos nos trens lotados, com uma das tarifas mais caras do Brasil, com trens superfaturados e que muitas vezes podem nos colocar em risco, como o caso do descarrilamento acontecido no começo do ano. Esses problemas nos afetam mais, estes problemas que nos afetam são os problemas que os metroviários combatem e que o governo tucano finge que não existem.

propinoduto-do-metro-de-spA culpa dessa greve ter paralisado 3 linhas das 4 linhas do metrô (sim, são só 4 linhas do metrô que são representadas pelo Sindicato dos Metroviários, a linha-4 amarela não faz parte da Companhia do Metropolitano e não entra dentro do processo de campanha salarial da categoria dos metroviários por conta da licitação feita pelos psdbistas vendendo, praticamente, a linha para a iniciativa privada) não é dos trabalhadores e trabalhadoras metroviários que todos os dias estão junto conosco enfrentando o sufoco das estações superlotadas, tentando reformar trens que muitas vezes não tem mais como serem reformados, conduzindo os trens pelas vias abarrotados de gente, tendo que ouvir e dar tratamento aos assédios sexuais e estupros que as mulheres vivem ali dentro cotidianamente.

A Justiça concedeu liminar para que os metroviários garantissem o funcionamento de 100% da frota em horário de pico e 70% nos outros horários. Ora, isso é o funcionamento normal do metrô, isso é passar por cima do direito de greve e também é fazer todo mundo, metroviários e população, de palhaços. Somado a isso, vem agora a ameaça do Secretário de Transportes do estado de São Paulo de demissão dos trabalhadores em greve, do jeitinho que o tucanato fez em 2007 com vários metroviários que lutam até hoje por sua reintegração a categoria.

metroviarios-sp-catraca-livre-geraldo-alckminEu queria que o metrô estivesse funcionando hoje, adiantaria muito a minha vida. Porém Geraldo Alckmin negou a proposta feita pelo Sindicato dos Metroviários de São Paulo de liberação das catracas para que a população pudesse utilizar o serviço. Ora, os metroviários  apresentam uma saída para as linhas funcionarem e o governador de São Paulo ignora essa proposta, então não me resta dúvida que ele não está interessado no transtorno e sufoco nosso de cada dia, se tivesse tinha acordado em liberar as catracas para a a população de São Paulo usasse o metrô durante a greve. Este senhor não tem consideração nenhuma pelo povo de São Paulo e hoje é a prova cabal disso.

No mais, São Paulo é um sufoco cotidiano, um sufoco atordoador com ou sem greve e eu apoio quando as pessoas demonstram o quanto essa cidade está em completo colapso e que algo precisa ser feito de forma efetiva para mudar esse cenário. A certeza que eu tenho é que Geraldo Alckmin já demonstrou sua incapacidade de resolver a parte do colapso dessa cidade que cabe ao latifúndio dele.

Quando a violência é com prostituta e é invisibilizada. De que lado nós sambamos?

Demorei para conseguir organizar as ideias para este texto, achei que encontraria mais reflexões na blogosfera feminista sobre a truculência da PM-RJ junto as trabalhadoras do sexo do prédio da Caixa de Niterói. Bem se sabe que estamos em processo acelerado em diversas cidades brasileiras de reorganização, não necessariamente uma reorganização que vá incluir aqueles setores sociais mais marginalizados, na verdade o que temos visto com esse processo de reorganização – protagonizado pela Copa do Mundo e Olimpíadas – é justamente o aprofundamento da gentrificação e higienização social dos grandes centros urbanos.

Pois bem, na última semana centenas de mulheres que prestavam serviço sexual no prédio da Caixa Econômica Federal de Niterói foram brutalmente retiradas do local pela PM-RJ, ação que já nos coloca uma reflexão: No Brasil ser prostituta não é crime, então por que as mulheres que exercem são cotidianamente vítimas de criminalização e violência?

A minha questão neste texto não é debater qual a melhor linha de pensamento para se tratar do tema da prostituição: regulamentarismo, abolicionismo ou proibicionismo. Até por que minha posição em geral está melhor resumidas nestes dois textos do Bloqueiras Feministas: Prostituição: por que seguimos ignorando o que elas estão nos dizendo? e Nem toda prostituta é Gabriela Leite: prostituição, feminismo e leis. Meu objetivo com esse post é refletir o por que um setor tão marginalizado e invisibilizado pela sociedade patriarcal, racista, homolesbobitransfóbica e capitalista quando sofre uma violência brutal com a de ser desalojado de maneira truculenta pela PM-RJ isso não gera indignação de uma gama de lutadores e lutadoras sociais diversos?

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Inclusive por que este processo de gentrificação em cima das mulheres que trabalham na rua não é algo específico de Niterói. Em São Paulo, na região da Luz, as mulheres que lá prestam serviços sexuais são assediadas pela PM-SP para saírem do local antes do início da #CopaDasCopas pois ali será um espaço a ser ocupado por turistas. Pelo relato da Cleone do GMEL, elas tem resistido, mas a preocupação com qual será a resposta a esta resistência por parte dos governos estadual e municipal é grande. Provavelmente haverá mais tiro, porrada e bomba.

Ou seja, mulheres estão sendo retiradas violentamente dos locais onde trabalham – no caso de Niterói há denúncias de estupros por parte da PM-RJ durante a operação, inclusive com eles justificando que estuprar prostituta não era crime – e a movimentação de solidariedade a elas por conta destas violências é muito pouca. Independente se consideramos a prostituição como uma violência em si ou não, o processo de criminalização a estas mulheres está se recrudescendo e a tendência é ficar pior e nós iremos fingir que este problema não é conosco também?

Puta Dei realizado no dia 31 de maio de 2014 em Niterói. Foto: Evelyn Silva.

Puta Dei realizado no dia 31 de maio de 2014 em Niterói. Foto: Evelyn Silva.

Neste processo de recrudescimento do higienismo social, da criminalização da pobreza e violência policial o lado das feministas deve ser o lado de quem vem sendo invisibilizada e massacrada por essa política de exclusão promovida pelos governos e megaeventos. Não denunciar as violências que vem sendo impetradas a estas mulheres cis e trans é coadunar com o higienismo social no Brasil. Nossa tarefa não é invisibilizar setores, nossa tarefa é nos aliar com xs indesejáveis para realmente mudar o mundo e acabar com o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e capitalismo.

É claro que não é todo homem que odeia mulher. Mas todo homem se beneficia com o sexismo

A Daniela Abade acabou de traduzir esse texto da Laurie Penny, publicado originalmente na New Statesman em agosto de 2013, e autorizou a replicação da tradução aqui no Bidê Brasil. Achei super interessante, pois cada vez é mais nescessário apontar o como a organização social na qual vivemos é diretamente responsável pela nossa opressão cotidiana.

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Isso vai machucar. Nos últimos meses foi quase imposível abrir um jornal ou ligar a TV sem encontrar uma história sobre alguma garota menor de idade que foi estuprada, alguma política que foi assediada ou outra mulher trans que foi assassinada. Mas enquanto mulheres, garotas e um número crescente de aliados masculinos começaram a se manifestar contra o sexismo e a injustiça uma coisa curiosa começou a acontecer: pessoas estão reclamando que falar de preconceito é uma forma própria de preconceito.

Hoje em dia, antes de falarmos de misoginia, as mulheres são cada vez mais questionadas a modificar sua linguagem para não machucar os sentimentos masculinos. Não diga “O homem oprime as mulheres – isso é sexismo, um sexismo tão ruim como o que qualquer outra mulher tem que lidar, talvez pior. Em vez disso, diga: “Alguns homens oprimem as mulheres”. O que quer que você faça, não generalize. Isso é coisa que homens fazem. Não todos os homens – só alguns.

Esse tipo de discussão semântica é uma maneira muito eficiente de fazer as mulheres se calarem. Afinal de contas, a maioria de nós aprendeu que ser uma boa menina é colocar o sentimento de todos os outros na frente do seu. Nós não devemos dizer o que sentimos se há alguma chance de chatear alguém ou, pior, fazer alguém ficar com raiva. Então suprima seu discurso com desculpas, advertências e sons tranquilizantes. Nós reafirmamos a nossos amigos e homens que amamos que “você não é um desses homens que odeia mulheres”.

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O que nós não dizemos é: é claro que não é todo homem que odeia mulheres. Mas a cultura odeia mulheres, então os homens que crescem em uma cultura sexista tem a tendência de fazer e falar coisas sexistas, mutas vezes sem a intenção. Nós não estamos julgando você por quem você é, mas isso não quer dizer que você tem que mudar seu comportamento. O que você sente pelas mulheres no seu coração é de menor importância imediata do que como você trata mulheres cotidianamente.

Você pode ser o homem mais gentil e doce do mundo e ainda assim se beneficiar do sexismo. É assim que a opressão funciona. Milhares de pessoas que por um lado são decentes aceitam um sistema injusto porque desse jeito o transtorno é menor. A resposta apropriada quando alguém exige uma mudança nesse sistema injusto é ouvir, em vez de virar as costas ou gritar, como uma criança faria, porque não é culpa dela. E não é sua falta. Eu tenho certeza que você é adorável. Mas isso não quer dizer que você não tem responsabilidade de fazer alguma coisa a respeito disso.

Sem evocar estereótipos bobinhos de gênero sobre capacidade de realizar multitarefas, nós todos podemos concordar que é relativamente fácil armazenar mais de uma ideia no cérebro humano. O cérebro é um órgão grande, complexo, mais ou menos do tamanho e do peso de uma couve-flor bem feia e podre – e ele tem espaço para muito lixo, tramas de TV e até o número de seu ex que você não deveria ligar depois de seis doses de vodka. Se ele não pudesse armazenar grandes ideias estruturais e, ao mesmo tempo, algumas pessoais, nós nunca teríamos descido das árvores e construídos coisas como cidades e kinoplexes.

Então não deveria ser tão difícil explicar para o homem médio que você, enquanto indíviduo, cuidando da sua vida, comendo cereais e jogando BioShock2, pode não odiar ou machucar as mulheres; mas você, incluído no grupo masculino, homens, como estrutura, vocês certamente o fazem. Eu não acredito que a maioria dos homens seja tão estúpida para não entender essa diferença, e se eles entendem – e se eles podem diferenciar, precisamos intensificar nossos esforços de impedir que eles comandem quase que a totalidade dos governos globais.

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De alguma forma ainda é difícil falar com homens sobre sexismo sem encontrar uma parede de resistência que faz sombra a uma indiscutível hostilidade, até violência. Raiva é uma resposta completamente apropriada ao entender que você está envolvido em uma sistema que oprime as mulheres – mas a solução não é dirigir essa raiva às mulheres. A solução não é calar o debate nos acusando de “sexismo às avessas”, como se de alguma maneira isso fosse equilibrar o problema e evitasse que você se sentisse tão desconfortável.

Sexismo deve ser desconfortável. É doloroso e enfurecedor está no lado receptor de ataque misóginos e também doloroso assistir eles acontecendo sabendo que você está implicado nisso, mesmo sem ter escolhido. Você deve mesmo reagir quando é avisado que um grupo do qual você faz parte está ativamente ferrando com a vida de outros seres hmanos, da mesma forma que você deve reagir quando um médico bate um martelo em seus joelhos. Se ele não se mexe, algo está terrivelmente errado.

Dizer que “todo homem está envolvido na cultura do sexismo” – todo homem, não somente alguns homens – pode parecer uma acusação. Na verdade é um desafio. Você, homem individual, com seus sonhos e desejos individuais, não pediu para nascer em um mundo onde ser um garoto lhe daria vantagens sociais e sexuais sobre as mulheres. Você não quer viver em um mundo onde garotinhas são estupradas e depois são acusadas de terem provocados seus estupradores em uma corte; onde o trabalho das mulheres é mal remunerado ou não remunerado; onde nós somos chamadas de putas ou vadias por exigir igualdade sexual. Você não escolheu isso. O que você vai escolher, agora, é que é o que muda tudo.

Você pode escolher, como homem, ajudar a criar um mundo mais justo para mulheres – e para homens também. Você pode escolher desafiara misoginia e a violência sexual onde quer que você a encontre. Você pode escolher se arriscar e gastar sua energia apoiando mulheres, promovendo mulheres, tratando as mulheres da sua vida como verdadeiramente iguais. Você pode escolher se levantar e dizer não e, todo dia, mais homens e garotos estão fazendo essa escolha. A pergunta é: você vai ser um deles?

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