Faz tempo que não consigo sentar e organizar um texto para publicar aqui pelo BiDê Brasil, mas como hoje é dia das mães e também 124 da abolição da escravatura achei por bem juntar os temas e sair do ostracismo aqui do blog.
Hoje é o dia em que a maternidade é celebrada, este instinto divino natural das mulheres que fica anos latentes até elas serem fecundadas e darem a luz aos minúsculos rebentos que formaram novos homens e mulheres da sociedade. Dádiva preciosa, é o significado que foi socialmente construído em nossa sociedade, bem antes da revolução industrial, mais ou menos na época em que surgiu a propriedade privada e a necessidade de se assegurar que os herdeiros de uma determinada linhagem eram seguramente herdeiros legítimos.
O instinto materno, como tantas outras coisas, é socialmente criado. Pior a maternidade da forma como a conhecemos é imposta as mulheres cotidianamente, muitas vezes sem que o estado e os governos garantam o mínimo acesso a direitos para que as mulheres mães tenham condição de criar seus filhos e fazer o mínimo planejamento familiar.
É no mundo do trabalho que vemos mais desnudada a diferença construída por um estado capitalista e patriarcal. Pois é neste espaço em que a diferenciação entre o trabalho reprodutivo e o trabalho produtivo se denudam e podemos perceber o quanto um é menos valorizado que o outro, e o quanto as mulheres acabam por assumir duplas ou triplas jornadas de trabalho. A secundarização do combate ao machismo só ajuda a reafirmar um estado baseado na opressão e desigualdade entre homens e mulheres, e assim pode ser dito também sobre o combate ao racismo e à homofobia. (FRANCA, Luka. A classe trabalhadora tem raça e gênero)
Vivemos em um mundo onde as mães são ovacionadas, mas quando aproximamos a nossa lupa vemos quanto o mínimo para o exercício da maternidade plena para todas as mulheres está longe de se efetivar, são mulheres que perdem suas moradias por causa de megaobras no Brasil todo, são atacadas dia após dia com os cortes anuais do governo em áreas sociais importantes como educação e saúde e nos afetam diretamente. São os nossos filhos que são mortos diariamente pela polícia militar brasileira, se durante a escravidão eram os sinhozinhos que tiravam a vida dos nossos filhos hoje o trabalho sujo foi institucionalizado, é o próprio estado que se livra de nós, seja por meio da política de genocídio da nossa juventude, seja pela crescente precarização dos serviços públicos aos quais estamos submetidas.
Somos nós e são os nossos filhos. Se avançamos um pouco mais na discussão nos deparamos com a situação das mães encarceradas. Realidade que já chegou aos cinemas seja como cinema “real” ou ficcional, só assistir Leite e Ferro ou Leonera para poder entrar um pouco na atmosfera do que é a maternidade encarcerada.
Cuidado pré-natal de rotina, incluindo-se acesso a exames de ultra-som e de sangue, não eram disponibilizados às mulheres grávidas em nenhuma das cadeias públicas visitadas. Algumas mulheres informaram receber algum tipo de cuidado pré-natal básico na unidade de saúde local, porém a frequência com que era examinadas variava consideravelmente entre as cadeias. As presas, normalmente, informaram que a visita feita pelo clínico geral não incluía cuidados pré-natais. Isso significa que elas dependiam dos funcionários para o agendamento de consultas e o seu posterior transporte para a unidade de saúde local. Algumas informaram ter descoberto sua condição de soropositivas na hora do parto, porque nenhum exame de sangue havia sido feito durante a sua gravidez. (HOWARD, Caroline (org.). Direitos humanos e mulheres encarceradas. págs 98 e 99)
O cotidiano nos mostra o quanto a maternidade, seja livre ou encarcerada é divinizada, mas na realidade o que vemos é a expropriação das mulheres mães, principalmente as negras e da classe trabalhadora, pois são estas que vêem seus filhos assassinados por uma política de higienização social nas periferias, sofremos com a falta de investimentos na saúde pública e temos postos de trabalho que não nos deixam ver nossos filhos crescer e em contrapartida não temos como mantê-los estudando visto o alto déficit de vagas na educação infantil.
Sofremos diretamente com o jogo contraditório do capital, como se a nossa carne e nosso sofrimento não já tivesse sido tão moído durante os anos de escravidão. Não, não basta termos sido arrancadas de nossas terras e estupradas por sinhozinhos, até hoje pagamos por nossa cor e se ontem éramos propriedade de outrem, hoje somos do setor mais expropriado e invisível da classe trabalhadora, as vezes invisível até aos olhos dos nossos pares.
Um dia das mães casado com o 13 de maio deixa apenas um recado para nós, recado que é preciso insistir para que se entranhe em nossos discursos e práxis revolucionária: construiremos uma revolução preta, feminista e socialista para não mais ver os nossos sofrerem.