Cordialidade modernista – Um infeliz corporativismo

Bem, ontem pelo Facebook começou um debate sobre a atuação de uma escola em Belém em um caso envolvendo duas crianças de 3 anos. Pois bem, eu estudei nesta escola da 8ª ao Convênio (vulgo 3º ano), minha irmão também e apesar de termos conquistado grandes amigos ali naquela instituição, lidar com situações limites nunca foi fácil.

Pedi ontem para a Paloma Franca Amorim, minha irmã e também ex-modernista para escrever um guestpost sobre a passagem dela pelo Colégio Moderno, a qual foi muito difícil e até questiono muitas vezes se minha mãe não deveria tê-la mudado de escola.

Fui estudante do Colégio Moderno entre os anos de 1999 e 2004, iniciei minha jornada modernista aos 12 anos, na sexta série, depois de longo período estudando no Núcleo Pedagógico Integrado, escola de aplicação da Universidade Federal do Pará. À época, eu e minha irmã trocamos de escola porque o NPI passava por muitas greves e nossa mãe, como professora recém-contratada da Universidade da Amazônia (instituição essa atrelada ao Colégio Moderno e ao CESEP), tinha direito a um abatimento nos valores das matrículas e mensalidades da instituição.

Ao chegar ao Moderno senti uma diferença gritante em relação a meu antigo colégio no tocante ao vínculo entre os estudantes e o corpo docente. Lembro-me de três situações específicas que ficaram marcadas a ferro e fogo em meu percurso no ensino fundamental.

A primeira delas foi quando os indivíduos da classe começaram a ser punidos de modo tradicionalista e pedagogicamente reacionário quando esqueciam algum material ou faziam bagunça em demasia em sala de aula: éramos obrigados a escrever cem vezes em uma folha de papel, a ser entregue para a professora e para a orientadora pedagógica no final das aulas, que não deveríamos nunca mais realizar essas ou aquelas contravenções.

É curioso que um colégio chamado Moderno possa aderir a metodologias tão arcaicas em seu programa pedagógico. Quando eu e uma amiga comentamos com alguns colegas que iríamos denunciar tal punição ao MEC (sem saber exatamente o que isso significava, na verdade) nos chamaram na coordenação, a portas fechadas, e nos perguntaram quais professoras utilizavam aqueles métodos. A coordenadora afirmou não saber de nada, no entanto, eu e minha amiga sabíamos que isso era praticamente impossível visto que aquela prática era explicitamente assumida e corriqueira em nosso cotidiano escolar.

A coordenadora nos pediu desculpas e afirmou que aquilo nunca mais aconteceria, ali fizemos um pacto silencioso. A punição acabaria e nós ficaríamos caladas diante de nossa pequena vitória na sala da coordenação. Mais tarde, quando já estava no ensino médio, ao conversar com uma amiga que fazia teatro comigo e era mais nova, descobri que as longas páginas escritas pelos estudantes contraventores continuaram a ser confeccionadas. E isso deve ter se prolongado nos anos seguintes, quando eu já não fazia mais parte do corpo discente da instituição.

A segunda experiência de opressão educacional eu vivi também na sexta série, quando o professor de matemática me pegou conversando no meio da aula e escreveu no quadro branco as notas que eu e o colega com o qual eu conversava havíamos tirado em um teste. Foram notas baixas. O professor fez umas contas, pedindo ajuda para a classe o tempo todo que ora ria de nós, ora ficava constrangida junto conosco, e afirmou que a partir daquela pontuação já era possível se verificar que nossas médias não seriam suficientes para a aprovação no final do ano. Isso durou uns dez minutos. O tempo todo o professor procurava a cumplicidade dos outros estudantes para nos expor ainda mais, para que entendêssemos que deveríamos nos comportar e aprender. Em tempo, nessa situação não fui desrespeitosa com meu professor de forma alguma, embora eu tenha a consciência de que agi de modo pretensioso e desrespeitoso em muitas situações na escola. (Ainda se tivesse levantado a voz para reclamar da situação, penso que o professor não poderia ter agido de tal forma).

Acatei todas as afirmações e me calei, morrendo de vergonha não por minha nota, mas pelo fato de naquele momento eu ter sido obrigada a ocupar um lugar de exemplo para a classe – o velho chapéu de burro havia adquirido um novo formato para que pudesse caber nas cabeças dos maus alunos com maior sutileza.

O terceiro episódio foi o que mais me marcou e aconteceu na sétima série. Apenas posso dizer que uma professora de Geografia fez um comentário a respeito de um problema físico pelo qual eu passava para algumas pessoas da classe e isso se propagou como uma onda gigante, de modo que muitas pessoas começaram a falar coisas ruins de mim, comentários que me magoavam e me deixavam estranhamente envergonhada, eu não tinha vontade alguma de permanecer na sala de aula durante o tempo em que estava na escola.

Eu tinha vontade de ser invisível, pensava apenas nisso o tempo todo, pensava que todos na escola me conheciam por causa do falatório que se construiu a meu respeito. Contava os minutos para que as aulas terminassem logo e eu pudesse ir embora dali.

Mais uma vez a coordenação foi envolvida e, ao invés de entrar em contato com meus pais – procedimento mais do que razoável em uma situação dessas – puseram-me frente a frente com a professora que falara de mim em uma conversa tensa mediada pela mesma coordenadora que há um ano havia me dito para não fazer a denúncia ao MEC sobre as garatujas do que devemos ou não devemos fazer quando desempenhamos o papel de estudantes.

A professora disse que eu deveria trocar de classe na hora em que a nossa mediadora saiu da sala, quando ela voltou o discurso da professora tornou-se outro. A professora afirmou que eu deveria me manter na classe e que ela deveria ser remanejada. Eu não entendi nada, falei: você acabou de dizer que eu devia mudar de classe. Ela, surpreendentemente, disse que eu estava mentindo. A coordenadora começou a rir e eu comecei a chorar e tentar provar que não estava mentindo. Perdi o controle e não consegui mais falar nada, as duas riam ironicamente de mim como se eu tivesse inventado absolutamente tudo, eu gritava e dizia que elas estavam me impedindo de falar a verdade e todos os estudantes, através da porta e janelas de vidro da coordenação (dessas que os restaurantes põem para que você possa ver se a cozinha do estabelecimento é limpinha), ficaram me olhando como se eu estivesse descompensada. Ao fim da guerra, resolveram entrar em contato com minha mãe.

Passei uma semana sem voltar ao colégio, depois não pude mais inventar histórias que minha mãe sabia serem falsas para fugir da sala de aula. Não troquei de escola, embora implorasse por isso todos os dias. Só consegui superar de fato a situação no ensino médio, talvez ao final do segundo ano, quando minhas atividades para além dos muros escolares tornaram minha vida adolescente muito mais interessante.

Hoje, minha irmã me passou um relato de uma mãe que abriu um processo de sindicância para apurar uma situação que ocorreu com sua filha de apenas três anos de idade no Colégio Moderno. Minha irmã foi testemunha de toda a minha angústia nos primeiros anos em que estudei no Moderno e comentou ter achado particularmente semelhante a atitude dos coordenadores e orientadores da escola em relação à denúncia da mãe, ao episódio que vivi em 2000.

Ao relatar em seu blog pessoal o ocorrido, Cíntia Galvão detecta pontualmente o protecionismo existente na instituição. Fatos foram omitidos sobre o episódio e alguns depoimentos não foram realizados como preveem os protocolos. O depoimento pode ser lido aqui.

Sabemos que os problemas aqui evocados não pulsam apenas no coração dos colégios particulares, as instituições escolares no país estão em crise profunda, sobretudo aquelas que integram a esfera pública educacional, entretanto não podemos fechar os olhos ao que acontece dentro das sociedades civis escolares, sobretudo quando há situações concretas através das quais saltam aos olhos os equívocos educacionais tomados como verdade por muitos professores, coordenadores, psicólogos e orientadores.

No Colégio Moderno tive excelentes professores dentre os quais posso citar Balbina Coimbra, Eliene Nina, Dionelpho Júnior, Renato Torres, Norma Sá e Laílson Viana (todos conheci no final do Ensino Fundamental, início do Ensino Médio. Hoje não tenho certeza se ainda atuam no Moderno), mas também me deparei com injustiças e desvirtuamento educacional, tudo sempre muito velado pelos poderes organizativos da escola.

Também me tornei professora após concluir a graduação em Licenciatura em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo, no ano de 2012, e avalio a partir de minha formação como docente e de minha experiência como estudante, que o Moderno é uma extensão dos costumes culturais e políticos da provinciana elite paraense. Dentre tantos quesitos para integrá-la há o mais especial/fundamental de todos: a aparência gera lucro e portanto, não pode ser ferida por palavras de denúncia e contraponto. Ainda é clara para mim a voz da então diretora da escola afirmando em certa ocasião por mim presenciada que não queria alunos questionadores, queria alunos que passassem no vestibular – Isso torna mais do que claro o tipo de processo educacional que se constrói nas cartilhas modernistas, aquele que serve às demandas do mercado e ao capital, aquele que exalta a meritrocracia como pressuposto de formação humana, civil e política.

A questão é grave na medida em que não estamos falando de uma experiência parca de formação intelectual, física e social, o campo da aprendizagem e do saber é vasto e importante, deve ser tratado com respeito e cuidado pois é a partir dele que no mundo se frutificam as ações de mulheres e homens em formação.

Foi uma escolha não citar o nome daqueles que feriram meu processo educacional particular posto que não tenho interesse algum em individualizar a questão mais do que já fiz trazendo à baila minhas experiências pessoais nos corredores e salas de aulas modernistas. Nomeio apenas aqueles que foram fundamentais a minha formação, agradecendo-os por nadarem contra a corrente de um sistema político-educacional absolutamente restritivo e ineficiente. Este texto produzi em apoio a esta mãe que como a minha, em certo momento da vida, percebeu-se em uma luta quase vã (mas nunca vã, porque as lutas são transformadoras em menor ou maior escala) contra as forças do infeliz cordialismo corporativo tão expressivo na cidade de Belém.

Para Femen UK Thatcher não é um símbolo feminista

Bem, o Femen Brazil ontem revelou novamente a sua total compreensão de como a dinâmica social influencia diretamente no avanço ou retrocesso do direito das mulheres. Para quem não sabe o grupo postou uma homenagem a Margareth Thatcher, a controversa 1ª ministra britânica entre os anos de 1979 e 1989.

A homenagem dizia basicamente:

Nossos sentimentos à Margaret Thatcher, com sua política neoliberal, dirigiu um governo que reduziu o tamanho do Estado e transformou o Reino Unido. Ela foi, de longe, uma influência mundialmente, conhecida como Dama de Ferro, por conta de sua postura inflexível. Foi a primeira mulher a se tornar primeira-ministra britânica, cargo no qual ficou por três mandatos consecutivos, entre 1979 e 1990.
“Na política, se você quer que algo seja falado, peça a um homem. Se quer que algo seja feito, peça a uma mulher.”

Não é a primeira vez que o Femen Brazil é alvo de polêmica, só lembrar logo no começo do grupo aqui no país o descobrimento do passado da principal porta-voz do Femen Brazil ter tido relação com o movimento nazifacista, além da saída conturbada da anita número 2 do grupo Bruna Themis.

Pois bem, acabei questionando ontem pelo Facebook o Femen e o Femen UK se figuras como a Margareth Thatcher  seria um símbolo feminista para eles. Hoje ao entrar na minha conta do FB me deparei com uma resposta de uma pessoa que se diz administrador da página do Femen UK, David Jones, e ele me respondeu o seguinte:

Hello Luka i am the admin for Femen UK the answer to you’re question is no we don’t view thatcher as a feminist she is an extremely controversial figure in our country and most here don’t like her. Femen brazil has put her up for some reason it had nothing to do with us, the only good thing she did was liberate the falklands but she did alot of bad things to the english people and i can assure you we don’t support her or her right-wing politics.

Oi Luka, eu sou o admin para o Femen UK e a resposta para o teu questionamento é: Não, nós não vemos Thatcher como uma feminista, ela é uma figura extremamente controversa aqui no nosso país e a maioria da população não gosta dela. Femen Brazil a homenageou por algum motivo e isso não tem nada haver conosco. A única coisa boa que ela fez foi liberar as FalkLands (Malvinas), mas ela fez muita coisa ruim para o povo inglês e eu posso te assegurar que nós não a apoiamos ou suas políticas direitistas.

Não vou entrar aqui no debate sobre as Malvinas, até por que o foco é justament a desconstrução da Thatcher como uma figura que tenha contribuído com algo para a organização e luta das mulheres no mundo. E por óbvio mostrar que há um crasso problema de compreensão do que as relações políticas conservadoras interferem no avanço ou não do combate as opressões no mundo, coisa que parece ser algo menor para o Femen Brazil.

Antes que venham com o blábláblá de que é acadêmico, é isso ou aquilo, sugeriria avaliar o que a política thatcherista fez com o direito das mulheres e crianças na Inglaterra e o como a questão da análise de conjuntura política é essencial para se posicionar.

Morreu Margareth Thatcher, aquela que ajudou a oprimir mulheres

Quando morre alguém de direita eu normalmente friso o quanto não comemoro a morte de ninguém, acho fundamental sempre frisar isso por conta de uma lógica pouco humana que acaba circulando por aí: se é de direita seus filhos não sofrem, não se deve ter o mínimo de solidariedade e isso não faz parte do que eu acredito para uma mudança social.

Pois bem, ontem morreu Margareth Thatcher, conhecida como dama de ferro e que recentemente teve sua história nas telinhas do mundo inteiro com a interpretação de Meryl Streep. Novamente o que vemos é a grande mídia exaltar sua firmeza durante o período em que foi 1ª ministra da Inglaterra. Para quem não sabe Thatcher foi a 1ª – e creio que única até o momento – mulher a ocupar o mais alto cargo político da Inglaterra. Uhul uma mulher no poder, só que não.

Não devo nada ao movimento de libertação das mulheres. As feministas odeiam-me, não é? Não as posso culpar uma vez que odeio o feminismo. É puro veneno. (THATCHER. Margareth)

A ascensão de Thatcher na Inglaterra em nenhum momento significou melhora na condição de vida das mulheres daquele país, ou até mesmo do mundo. Foi ela quem iniciou o processo de guerra nas Malvinas, e como é bem sabido (ou deveria) em momento de guerra se dá também a ausência de direitos e quem mais sofre são as mulheres.

Seu papel foi decisivo para a rearticulação da contraofensiva conservadora dos anos 80. Ela irrompe na cena política de seu país e no teatro internacional em um momento no qual o capitalismo vivia novo ciclo de crise e uma onda revolucionária havia, na década anterior, fortalecido posições da União Soviética e seus aliados. A revolução portuguesa (1974), a vitória comunista no Vietnã (1975), a derrubada do xá no Irã e o triunfo sandinista, ambos em 1979, são os principais fatos da última escalada progressista do período histórico aberto com a revolução russa de 1917. (ALTMAN, Breno. Margaret Thatcher foi a grande apóstola da guerra fria)

O legado que a 1ª mulher a ocupar o cargo de primeiro ministro da Inglaterra deixou não é o de avanço aos debates feministas ou da auto-organização das mulheres para a sua emancipação social. Isso não quer dizer que alguns pontos não tenha tido posições mais arejadas como quando votou pela descriminalização da homossexualidade masculina e pela legalização do aborto. Mas ao mesmo tempo era contrária a legalização do divórcio e pela manutenção da pena de morte. O que para mim apenas significa um compromisso com a manutenção de uma família nuclear burguesa e heteronormativa, visto que não há uma única menção de Thatcher sobre apoio ao lesbianismo.

Thatcher privatizou a Inglaterra e garantiu assim que a vida das mulheres inglesas fosse mais dificultada, além de defender a necessidade das mulheres estarem nos locais públicos, mas também terem tempo para cuidar da sua família.  Além do mais estabeleceu como uma de suas principais metas o combate ao “comunismo” e o apoio a “democratas” da estirpe de Pinochet.

Ela pode ter sido a nossa 1ª ministra, mas os homens ainda terminaram a década de seu governo ganhando muito mais do que as mulheres. (How Britain changed under Margaret Thatcher. In 15 charts)

Suas ações políticas a frente da Inglaterra tinham reflexo direto nas “minorias” sociais, pois se balizavam na retirada de direitos sociais conquistados, era reconhecidademente uma opositora do estado de bem-estar social presente na Europa.

Quando foi Ministra da Educação e da Ciência privatizou a distribuição de leite nas escolas estaduais para crianças de 7 a 11 anos, mantendo apenas uma quantidade mínima da bebida para crianças menores de 7 anos.

Questionou em 1989 a forma como o seu governo havia recebido as críticas realizadas pelo Relatório Taylor, sobre a polícia inglesa e seus excessos.

Depois do colapso do neoliberalismo em 2008, ninguém nunca ouviu uma simples autocrítica sua a respeito da crise que destroçou a economia de seu país, toda ela inspirada em ideias que ela colocou em circulação. O que não é estranho para alguém que, cinco anos depois de assumir o governo do Reino Unido, produziu o declínio da produção industrial, o fim de fato do salário mínimo, dois anos de recessão e o pior índice de desemprego da história britânica desde o fim da Segunda Guerra (11,9%, em abril de 1984). Nesse caso, também sem a mínima autocrítica. (SAFATLE. Vladimir, Canonizando Margareth)

A presença de Thatcher na direção da Inglaterra entre 1979 e 1990  só demonstra o quanto a garantia de direitos e avanços sociais sob a égide de um símbolo conservador não aglutina para emancipação das “minorias” sociais. É importante analisar a fundo os acontecimentos e a quem as políticas públicas afetam diretamente e prioritariamente.

Pessoalmente, não quero mais Thatchers no mundo, quero ver na verdade outros perfis de mulheres que conseguem compreender que a nossa emancipação se dá em conjunto com a emancipação de outros setores sociais e que a política conservadora e capitalista em geral só tem uma tarefa: a de manter as coisas como estão. Sinceramente? Eu quero mais é subverter as coisas.

Margaret Thatcher was no feminist, por Hadley Freeman

Quando o politicamente correto vira resposta para tudo, ou, papo reto com a Marie Claire

Racismo, homofobia, machismo. A semana para quem faz o debate sobre direitos humanos está bem pesada, seja por conta do impasse no Congresso Nacional sobre permanência ou não do Marco Feliciano e do PSC na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos deputados, seja por conta do trote racista na faculdade de direito da UFMG ou o caso de agressão de uma menina negra no DF. Não tá fácil para ninguém e mais, não há resposta contundente do governo federal e estaduais para enfrentarem este problemas estruturantes de uma sociedade desigual e opressora.

No bojo deste kit-opressão desta semana uma representação feita no desfile de Ronaldo Fraga durante a SPFW também chamou a atenção. O estilista compôs o look de suas modelos usando como adorno uma espécie de perucas feitas com palha de aço.

A arte deve ser livre, como advogaram os dois homens da moda utilizando outras palavras, como a justificar a escolha da palha de aço para representar os cabelos das mulheres negras, talvez, numa intenção (infeliz) de subverter um símbolo de opressão. O caso é que, embora falemos de arte (guardadas as controvérsias, pois há estilistas respeitáveis que não consideram a moda uma manifestação de arte), ensina a política que são as pessoas oprimidas as que escolhem símbolos opressores que em dadas situações são subvertidos e/ ou re-significados. E não se trata aqui de acusar gratuitamente ao Ronaldo e ao Marcos como opressores, mas, concordamos que eles não são os oprimidos da história. Certo? E nenhum dos dois tem autoridade ou legitimidade para arvorar-se a revisor deste sustentáculo de opressão das mulheres negras durante sucessivas gerações, escudando-se na frase: “o suposto cabelo ruim é na verdade uma escultura em potencial.” (SILVA, Cidinha. Ao amigo Ronaldo Fraga)

Não, este post não é para ficar esmiuçando do por que a “homenagem” na verdade é reafirmação de um status quo social racista e reverbera apenas isso, mesmo que não seja a intenção do estilista. Até por que ideologia é combatida com ideologia e não há hoje combate ideológico efetivo no Brasil contra o racismo, machismo e homofobia, até por que as políticas públicas dos governos federal e estaduais de combate a opressão são muito para “inglês ver”. Este post é uma resposta na verdade a Marie Claire e seu lamentável editorial colocando questionamentos as críticas feitas por ativistas do movimento negro e de direitos humanos a escolha malfadada de Ronaldo Fraga. Até por que a desculpa do politicamente correto hoje serve para tudo, até para justificar piada sobre estupro.

A palha de aço na cabeça nada mais foi do que um recurso estético, uma licença poética, um apelo estilístico. Os detradores de Ronaldo Fraga, provavelmente, não entendem nem de arte e nem de negros. Acusá-lo de racista seria o mesmo que dizer que Tarsila do Amaral é jocosa em seu “Abaporu”, ao retratar o povo brasileiro em linhas modernistas. E achar que a defesa dos negros e de seus direitos se dá em uma arena histriônica, em um compêndio de acusações e ofensas desprovidas de ligações com a realidade é no mínimo ingenuidade, senão má-fé. As arenas de debate estão postas: o Congresso Nacional discute morosamente a criação de cotas para negros em faculdades e no mercado de trabalho.

Será que esses que se levantam para apontar o dedo a Ronaldo já se mobilizaram para ajudar a sociedade a garantir os direitos dos negros? É irônico que não tenham produzido contra o deputado Marcos Feliciano (atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara), abertamente racista, a mesma enxurrada cibernética de críticas que destinaram ao estilista brasileiro. (“Meu desfile foi capturado pelo ‘politicamente correto’”, afirma estilista Ronaldo)

Se a publicação fosse atenta teria percebido que nesta semana casos de racismo foram recorrentes e ganharam a mídia de forma abrupta: trote na UFMG, garota negra espancada, secretário de segurança pública de São Paulo se negando a debater com o movimento negro os homicídios existentes na periferia da cidade, a batalha contra a falsa política de inclusão do governo tucano. Tem muita coisa eclodindo dentro do debate dos direitos humanos no Brasil, mas me parece que a Marie Claire apenas se arvora nestes acontecimentos para dizer: vocês não tem coisa mais importante para fazer?

A resposta é: Temos, temos por que lutamos cotidianamente para implementação de políticas públicas reais que assegurem a vida de mulheres, LGBTs e negros no país. Estamos exaustivamente gritando que somos nós que morremos com a política de segurança pública militarizada no Brasil. São nossos filhos que morrem, que são espancados pela polícia. Somos nós que morremos por abortos ilegais e inseguros enquanto a tuas leitoras podem fazer abortos seguros em clínicas e hospitais da elite.

Antes de tudo, preciso explicar que a blackface é tudo menos uma piada inocente que acontece nos sábados à noite na televisão e no teatro (Tiago Abravanel se pinta de negro para interpretar Tim Maia). É um instrumento racista clássico que se iniciou no teatro estadunidense quando atores brancos pintavam seus rostos de preto para criar retratos estereotipados de pessoas negras, contribuindo para a disseminação e decantação do racismo. (Sobre a caloura Xica da Silva, nota sobre o trote na UFMG)

Porém, é importante lembrar que para nós nada é menor. Discutimos a política educacional e a não inclusão real da disciplina que ensina história e cultura africana nas escolas e que já é prevista em lei. A implementação de reformas trabalhistas que vão precarizar os nossos trabalhos, pois nossa cor e gênero nos relegam aos piores postos de trabalho e mais a ridicularização constante que sofremos por conta da nossa aparência. Somos exóticas, somos as diferentes, somos o fora do padrão. Mas atentem: a minha beleza não tem padrão.

As críticas sofridas por Ronaldo Fraga não foram feitas de forma leviana, muito menos por pessoas e movimentos que não discutem o cotidiano das mulheres negras, LGBTs e homens negros no país. Na verdade leviano é não se atentar para a conjuntura política colocada no país. Nós estamos em luta cotidiana, nós gritamos todos os dias e não somos ouvidos pelo Estado ou por vocês, pois simplesmente vocês não percebem que o status quo arduamente apresentado na sociedade só ajuda a consolidar a nossa opressão.

“Esse post faz parte da BLOGAGEM COLETIVA PELO DIA INTERNACIONAL PELA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL, uma iniciativa BLOGUEIRAS NEGRAS.”