Carta dos setoriais de negros e negras e de mulheres do PSOL sobre a manifestação de Jean Wyllys sobre o seriado “Sexo e as Negas”

A veiculação do programa “O sexo e as nega” tem alimentado diversos debates junto ao movimento de mulheres negras brasileiro desde o início de sua produção. O debate sobre a representação da mulher negra na grande mídia não é um debate novo para nós. A imagem historicamente construída e midiaticamente naturalizada, é baseada no papel social atribuído às mulheres negras, em que a subalternidade e precariedade de trabalho caminha ao lado da sensualidade erótica, sempre reforçando e naturalizando o papel de todas essas formas de exploração – de raça, gênero e classe.

E é durante o novembro negro, justamente na semana da Consciência Negra, que nos deparamos com a campanha #EuAmoSexoEAsNegaorganizada por alguns atores da TV Globo para defender o programa de autoria de Miguel Falabella. Uma das justificativas apresentadas para a defesa do programa seria o fato dxs negrxs terem muito pouco espaço de trabalho na teledramaturgia brasileira, que incorpora e reproduz um preceito liberal para o qual as mudanças podem ser fruto de paulatinas inserções e incorporações nos ambientes de poder, o que mudaria, por si só, um lugar socialmente e historicamente construído.

Ora, o que o próprio debate acerca do programa indica é que não.
Se de fato há essa inserção, ela tem se caracterizado por um reforço do estereotipo e do racismo institucional, erotizando e realimentando a subalternidade mascarada por uma “conquista”. A defesa do diretor do programa desvirtua o debate e reforça ainda mais essa visão individualista e meritocrática, visto que oculta a discussão de fundo e a coloca em seu lugar um falso reino de “oportunidades”.

É por compreender que a luta pela libertação das negras no Brasil passa também pela luta de libertação da mulher e contra a exploração do trabalho, que a Setorial de Negrxs e a Setorial de Mulheres do PSOL vem a público reafirmar a posição de que o programa #SexoEAsNega não é uma forma de “empoderar” e emancipar a imagem construída da mulher negra na teledramaturgia brasileira, na verdade apenas reproduz o imaginário coletivo de que nós somos o supra-sumo de um produto sexual a ser consumido, e trabalhadoras para as quais oportunidades são “concedidas”.

O povo negro e especialmente as mulheres negras nunca receberam concessões, mas conquistas. Conquistas de uma resistência histórica e brava, na qual raça, gênero e classe nunca estiveram dissociadas, pois todo o tipo de exploração sempre recaiu sobre nós.

Assim, aproveitamos para colocar que a defesa do programa feita pelo deputado Jean Wyllys não representa o debate desenvolvido por nossas companheiras feministas negras junto ao espaço do movimento negro e feminista. O parlamentar tem sido um aliado importante em diversas lutas de direitos humanos no árido cenário da Câmara de Deputados, porém neste episódio acabou contrariando a construção de um debate coletivo realizado não apenas por nossas companheiras feministas negras, mas também por todo um movimento social que desde o início vem travando uma disputa de consciência ferrenha sobre o que significa “O sexo e as nega” na construção da figura da mulher negra no imaginário coletivo do brasileiro.

Aproveitamos para deixar registrado que o debate entre todas as formas de opressão e identidade não devem ser compreendidos sem um recorte comum, o que fará deles um debate exclusivista e corporativo. É preciso avançar nessa interlocução de maneira urgente.

Sabemos o quão difícil é negrxs terem espaço na teledramaturgia brasileira, mas acreditamos que uma luta para ampliação e diversificação das personagens negras na produção brasileira seria muito mais frutífera do que a defesa de um formato que em sua origem já apresenta diversos vícios. É preciso lembrar que essa transformação da mulher negra no arauto da exotização brasileira é o que tem trazido o movimento de mulheres negras até hoje a questionar a nossa representação midática junto a sociedade brasileira, não somos um objeto que deva ser disponibilizado para o deleite dos homens, mas sim mulheres que exercem diversas funções desvalorizadas socialmente.

Por fim, nós da setorial de negros e negras do PSOL temos ciência de que a TV Globo utiliza uma concessão pública para veicular seus programas que reforçam o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e tantas outras formas de opressão e exclusão social. Sabemos que não nascerá da benevolência de Miguel Falabella a modificação de como as mulheres negras são retratadas na teledramaturgia brasileira, mas sim de uma real democratização da comunicação em nosso país que é urgente!

É por conta dessas questões que o PSOL não ama “Sexo e as Negas”, o PSOL ama e defende toda forma de luta por emancipação das mulheres negras no país e não a manutenção de um programa que aprofunda a nossa objetificação.

O PSOL sabe que essa conquista passa pela luta das negras e de toda a sociedade contra o racismo, além da necessária e urgente democratização da comunicação no Brasil!

Setorial de negros e negras do PSOL.
Setorial de Mulheres do PSOL.

Notas sobre a #RevoltaDaLâmpada e de como é bom lutar no fervo

Não é novidade a quantidade de casos de homolesbobitransfobia que existem no Brasil. Seja o caso dos rapazes agredidos no metrô há algumas semanas, seja o rapaz assassinado no Parque Ibirapuera ou a garota que foi estuprada para “aprender” ser mulher em plena Rebouças. O combate a violência homolesbobitransfóbica é uma agenda que vem ganhando força há anos e em conjunto com ela diversos outras reivindicações civis da população LGBT tem avançado junto a sociedade.

Tanto é fato isso que durante o período eleitoral que a agenda dos direitos civis LGBTs, mulheres e, de forma mais marginal, negrxs foram temas que ajudavam a diferenciar os projetos de país dentro de uma perspectiva progressista ou não, mesmo que em alguns momento fossem feitos de forma bem oportunista.

Ora, se o espaço vem sendo tomado paulatinamente e em momentos críticos do debate político brasileiro esta é uma questão que eclode por conta do recrudescimento conservador (oposicionista ou situacionista) isso deveria refletir em um apoio dos setores mais progressistas as manifestações que denunciam as violências sofridas pela comunidade LGBT, não?

No domingo (17/11) pude perceber que talvez a lógica não seja assim tão direta. A manifestação “A Revolta da Lâmpada“, lembrando os 4 anos em que um jovem foi atacado por homofóbicos com uma lâmpada na Av. Paulista 777, levou centenas de pessoas da comunidade LGBT para as ruas de São Paulo, além de contemplar as pautas LGBTs, ao ler o manifesto do ato podíamos notar a defesa da Legalização do Aborto, Legalização das Drogas, Direito ao Nome Social e uma série de outras questões que davam um tom político interseccional da manifestação. O fato era: podíamos contar nas mãos as organizações políticas que reivindicam o debate e que colocaram peso militante para ir ao ato.

Isso me deixou bastante intrigada, pois ir à Parada LGBT ou à caminhada lésbica é algo bem incorporado as diversas organizações progressistas que reivindicam as pautas de direitos humanos e combate as opressões. Porém, a sensação que fica, é que quando se sai do script do calendário base de manifestações, atos ou atividades em que devemos estar as organizações dão um tilt e o construir espaços de intervenção pública para além do script vira algo voluntarista.

Não sei se é por medo de fazer o debate sobre orientação sexual e identidade de gênero de forma mais cotidiana, ou por achar que o tema é secundário. O fato é que ontem eu senti falta de diversas organizações que cotidianamente reivindicam a lutar contra a homolesbobitransfobia e o que vi foi, no geral pois há boas exceções nisso, gente indo de forma mais voluntarista do que fruto de uma organização que encara o debate LGBT de forma estratégica.

Acho que há também um receio com o próprio formato destes atos, onde a política e o fervo se encaixam de forma perfeita. Para quem tem receio por conta disso só digo: se atualize minha filha, lutar no fervo é uma das coisas mais maravilhosas que podemos fazer.

PS: Durante o trajeto do ato houveram momento brilhantes: A mulheragem à Letícia Sabatella quando a manifestação toda deitou na Paulista; as palavras de ordem puxadas no carro de som sobre legalização do aborto e legalização das drogas, a reivindicação do feminismo e de pautas antirracistas. Fora o momento em que falaram da gloriosa Rosa no carro de som e ela ficou se achando toda ;D.

A capa de Kim Kardashian tem uma questão racial da qual ninguém está falando

Ontem postei uma reflexão sobre um comentário da Tina Fey sobre a capa da Paper com a Kim Kardashian.

Hoje posto um texto da Hannah Ongley, publicado originalmente no Styleite, que faz uma reflexão interessante e importante sobre o fotógrafo que assina o ensaio de Kardeshian para a Paper e sobre o fato de seu trabalho historicamente utilizar as figuras femininas negras para exotizá-las e estigmatizá-las. O texto foi traduzido por mim.

champagne1

O bumbum de Kim Kardashian é a estrela da capa da edição de inverno da revista Paper que trás na manchete “Quebre a Internet”. A capa chegou a causar um rebuliço no Twitter e entre descoladinhos modernosos , mas todo mundo que não escolheu ignorar que tem algo a dizer sobre isso. É muito sexual (irrelevante), que é uma má escolha de modelo para capa (depende de quem você é,) e é muito photoshopada (verdade). Mas a maioria das críticas está sendo destinada a Kim, e ela claramente não é a pessoa que construiu o conceito ou assumiu o controle da edição de fotos . (Bem, até onde sabemos.)

O fotógrafo responsável pela imagem é Jean-Paul Goude, e não há mais nada para saber sobre ele do que ele ser “francês” e “lendário”. As duas coisas também são verdadeiras, mas não há isso também : A história artística de Goude é repleta de acusações de objetivação e exotização dos corpos das mulheres negras. Esta não é uma tangente de seu trabalho – é a base de toda a sua obra . Não é uma coincidência que sua autobiografia pictórica de 1983 se entitula: Jungle Fever. “Os negros são a premissa do meu trabalho”, o artista disse à revista People em 1979, “eu tenho a febre da selva.”

grace3Para criar suas imagens exotizadas, Goude iria fotografar mulheres negras em poses que variaram do atlético ao primitivo. Ele, então, literalmente cortava as _ imagens em pedaços e as remontava para criar algo ainda mais formidável. Você pode ver como ele fez a manipulação pré-photoshop na a foto infame que ele criou de Grace Jones, com quem teve um relacionamento turbulento nos anos 80, na icônica capa do álbum Island Life.

Criticar capa com Kim, porque “ela é photoshopada”_ é ignorar o significado da arte do fotógrafo. Como disse Goude sobre a capa de Jones, “… a menos que você seja extraordinariamente flexível, não poderia fazer esse arabesco. O ponto principal é que Grace não poderia fazê-lo, e essa é a base de todo o meu trabalho: a criação de uma ilusão credível “.

Paper atribui erroneamente a inspiração para capa com Kim Kardashian a uma foto vintage de Goude chamada “Champagne Incident”. A foto é na verdade de 1976 da modelo Carolina Beaumont, e isso é sobre mais do que habilidades de equilíbrio. Um erro inocente, talvez, mas o fato é que Beaumont vem sendo obscurecida pelo que parece.

Jean-Paul-Goude-9

Em Venus in the Dark: Blackness and Beauty in Popular Culture, a autora Janell Hobson discute como as “melhorias” de Goude são muitas vezes feitas para tornar o corpo das mulheres negras altamente exagerado, cômico e grotesco.

O sujeito usa um penteado ‘exótico’ e ‘sorri’ para a câmera posando como um ‘selvagem feliz e satisfeito em servir servir’”, ela diz, “o que sugere sua cumplicidade em ter seu corpo, literalmente, retratado como um objeto , uma visão ‘primitiva’ que proporciona prazer pornográfico e intoxicação para um, presumível, espectador masculino branco.

Kim, por outro lado, usa um vestido de lantejoulas e jóias caras. Ela não está aqui para servir.

Isso é o que eu acho preocupante sobre a capa da Paper: não é a obra de Goude, não é o photoshop, e não é nem mesmo a própria Kardeshian . É que a Paper tomou uma imagem carregada de uma tensão racial artística nos tornamos cada vez mais conscientes de como a sociedade se afastou da (ou , pelo menos, tentou se afastar) da idéia de que as mulheres negras não são selvagens. E é recriada essa imagem usando uma mulher armênia-americana famosa por ter uma vídeo de sexo vazado. A razão – para “quebrar a internet” – é quase comicamente frívola.

Veja todas as capas de Kardeshian abaixo:

Kim_cover_web_2_1024x1024

Kim_cover_web_1_1024x1024-1

[+] Kim Kardashian doesn’t realize she’s the butt of an old racial joke

Isso não é sobre a Kim Kardashian, mas sobre a invisibilização das mulheres não brancas

Às vezes tenho a sensação de que perdemos os parâmetros dos debates pela blogosfera. É preciso sempre recalibrarmos o nosso discurso e formulações para realmente dialogarmos para além dos nossos umbigos e essa tarefa nunca é tarefa simples.

Tenho a leve impressão de que o debate sobre “padrão de beleza” no feminismo sempre precisa passar por este processo de recalibrarmos para não cairmos em um formalismo barato do feminismo liberal, mas também não sermos enredadas pela cantilena de que a diferença racial neste debate não conta efetivamente.

image

Entro neste debate pelo fato de ter me deparado com uma aspas da Tina Fey pelas TLs que frequento e apesar de haver coisas que ela aponta com contundência e eu concordo, justamente por não achar que o formalismo do feminismo liberal realmente ajude a emancipar as mulheres sejam cis ou trans, achei uma afirmação com uma dificuldade de diálogo com a categoria raça. Simplesmente porque o questionar o padrão de beleza vigente em nossa sociedade hoje sendo caucasiana é muito diferente do significado deste debate para as mulheres não brancas.

Sabemos que em todas as sociedades anteriores existiram padrões de beleza, todos contendo algum grau de preconceito e exclusão. Mas o que temos hoje está mais próximo da completa insanidade, o que reflete uma sociedade ainda mais louca. Isto porque se trata de padrões de beleza inatingíveis, irreais. O virtual, a capacidade de controlar imagens através de um computador, produziu mulheres que simplesmente não existem. E o mais esquizofrênico é que muitos homens acreditam ser possível encontrar a mulher do tipo “capa de revista”, e a mulher quer a todo custo tornar-se este tipo. (LAIZO, Denise. A beleza: o terror da “nova mulher” – A ditadura da beleza irreal)

Aponto isso por que entender o contexto social dos continentes e países é fundamental para localizarmos qualquer debate feminista. Ou seja, a declaração da Tina Fey não estabelece empatia mínima com qualquer mulher não branca, incluindo as feministas. Ora, por que?

Mesmo que a sociedade capitalista e patriarcal se aproprie da representação formal da diversidade feminina e as incorpore em um grande supermercado de partes de corpo que são desejáveis para ser perfeita frente a sociedade, é importante lembrar que o símbolo cumpre um papel importante na disputa de consciência cotidiana – é um papel limitado, mas é um papel que ajuda a nos dar perspectiva.

RacismoUSPRibeirãoOu seja, a mulher negra é tão estigmatizada pelo padrão de beleza caucasiano que não raro nos deparamos com acefalias como o livro de hinos da bateria da Medicina USP-Ribeirão revelado pelas redes sociais. O tal livro de hinos só revela o que está por demais arraigado na sociedade brasileira: a mulher negra é o pária mór no Brasil.

Se queremos ser lembradas como mulatas? Claro que não! Até porque essa designação relembra o fato das mulheres negras poderem ser violentadas pois se acreditava que não poderiam reproduziam, assim como a mula, e essa era a justificativa inclusive de não reconhecimento de paternidade e violência sexual por parte de diversos sinhozinhos.

Mas precisamos ter espaço para desenvolver nossa auto-estima, e muitas vezes o debate sobre padrão de beleza organizado por nossas companheiras brancas não leva em conta o fato de nós negras estarmos na base da pirâmide social e do padrão mercantilizador.

O fato de haver uma sub-representação de mulheres não brancas no aceitável como padrão de beleza social fala muito sobre o quanto o patriarcado é profundamente racista. Haverá incorporação de mulheres não brancas como parte do padrão de beleza? Sim haverá, e em um primeiro momento isso será bom para as meninas não brancas verem que elas são bonitas também, que há perspectiva de ocupação de espaços sociais que antes nos eram negados.

Por fim, é fundamental sabermos como acolher nossos interlocutores. Nesse exato momento as mulheres não brancas precisam de um espaço para se olhar e perceber: Minha beleza não tem padrão, meu espaço existe e que bom que pude ter símbolos que me demonstraram que é possível ser do jeito que somos.

PS: O debate sobre a relação do feminismo liberal com a xenofobia e o racismo na Europa tem sido feito de forma bem profunda, não apenas o debate sobre feminismo liberal, mas também o desenvolvimento de uma direita LGBT altamente xenófoba. Mas isso é tema para outra hora.

novembro de 2014 em Belém, maio de 2006 em São Paulo

5 de novembro de 2014, entro no computador para ler as notícias da manhã. O coração fica apertado como há tempos não ficava. Durante aquela madrugada diversos bairros de Belém haviam ficado sitiados após a morte do Cabo Antônio Marcos da Silva Figueiredo, também conhecido como Pet. Pet estava afastado da ROTAM (Ronda Ostensiva Tática Metropolitana) por ser alvo de inquérito na Polícia Civil investigando o envolvimento dele e de outros policiais em um assassinato. Além deste inquérito, há outras denuncias recebidas pela ouvidoria do Sistema de Segurança Pública do Pará e pelo Comitê Estadual de Combate e Prevenção à Tortura sobre envolvimento de Pet com milícia organizada na cidade, porém, assim como o inquérito da Polícia Civil, as denúncias e os encaminhamentos relativos a elas seguem sigilosos.

ConvocatóriadarotamUma página da Rotam no Facebook, mas que não é um instrumento oficial de comunicação mantido pelo governo paraense, assim que a notícia de que o cabo Pet estava morto publicou uma mensagem dizendo que a “caça havia começado”. Não apenas esta página da Rotam afirmou que a caça havia começado pelas periferias paraenses como em alguns perfis de PMs afirmavam coisas semelhantes.

Na quarta mesmo a Segup (Secretaria Estadual de Segurança Pública) confirmou que 9 pessoas teriam morrido na Mangueirosa durante a madrugada, este número até a última sexta-feira subiu para 11. Porém, moradores afirmam que o número é maior, ainda há pessoas desaparecidas na cidade e não se tem notícia sobre entrada de feridos nos Prontos Socorros da cidade, mesmo que os óbitos informados depois de quarta tenham sido de pessoas que estavam internadas em PS da cidade. Na mesma página da Rotam quecontagemrotam informou o início da “caça” em retalhação por conta da execução do cabo Pet era possível ver uma postagem com a contabilização de quantas pessoas poderiam ter morrido durante a ação.

A narrativa contada pelas redes sociais, nas conversas ao telefone era algo muito comparável ao que ouvíamos em 2006 em São Paulo. Comércio fechando, escolas avisando que não dariam aula naquele dia, uma falta de informações oficiais grande e quando estas saiam o desencontro com informações coletadas na rua era brutal. Segundo H.L., morador da Terra Firme, havia uma diferença grande entre o pânico nos bairros periféricos e nos bairros centrais “Na TF o nosso pânico é de quem viveu e constantemente vive situações como essa, enquanto em bairros mais nobres o medo é que a violencia que nos assola chegue até eles”.

Acompanhando de longe, parecia que o dia não teria fim, olhando hoje parece que a semana ainda não terminou. “Os suspeitos [dos assassinatos ocorridos naquela madrugada eram sempre descritos como] dirigindo uma moto, encapuzados [seguidos] por um carro preto”, afirma Francisco Batista da Comissão de Justiça e Paz do Pará.

Fato é que a resposta no dia seguinte foi real. Durante a madrugada, nove pessoas foram assassinadas em bairros pobres paraenses. Testemunhas apontaram a presença de motoqueiros com capacetes e capuz como autores. Na página da Rotam no Facebook, não é de hoje que são feitas referências ao “motoqueiro fantasma” que entra em ação para executar criminosos. Um jovem de 17 anos e um cobrador de ônibus estavam entre os mortos na quarta. A busca do caçadores, ao que aparenta, foi aleatória e matou pessoas que estavam no lugar errado na hora errada.(MANSO, Bruno Paes. Esquadrão da Morte 2.0. e a epidemia de violência no Pará)

RossicleyDurante uma coletiva de imprensa realizada por na própria quarta-feira o presidente da Associação de Cabos e Praças da PM do Pará, sargento Rossicley Silva, apareceu dizendo que os fatos ocorridos eram por conta de uma guerra de facções em Belém e que não envolvia a PM. Porém, o sargento no mesmo espaço foi confrontado, pois havia sido um dos PMs que postaram mensagem afirmando que a PM daria resposta à morte do Cabo Figueiredo. Dois dias após o acontecido o sargento apagou a publicação, postandoRepórter70 outra dizendo que a posição dele havia sido mal-interpretada. Ao que parece desenha-se um processo de encontrar um bode expiatório para a #ChacinaEmBelém, digo isso pelo fato de que no Repórter70 – coluna tradicional de um dos jornais de maior circulação do estado – foi publicado uma nota apontando que Rossicley foi o grande incitador de pânico pelas redes sociais.

“Os policiais mesmos fazem questão de explicitar [que] “isso ainda não acabou”. Esses milicianos estão dizendo que após o enterro do policial haverá toque de recolher e que eles vão atrás de quem estiver devendo”, diz H.L.

Durante a tarde Eder Mauro, deputado federal eleito pelo PSD e delegado de polícia, publicou um vídeo dizendo que estava voltando para Belém para colocar ordem na casa e não deixaria “bandidos fazerem em Belém o que fazem no Rio de Janeiro”.

Ao final do dia a cidade ficou deserta. Relatos de moradores do Marco diziam que havia pelo menos 3 helicópteros sobrevoando a região com holofotes ligados apontados para as ruas do bairro, o mesmo relato foi feito por moradores da Terra Firme na sexta. Porém, a partir desse momento a comoção nacional sobre o que vinha acontecendo em Belém abaixou, a invisibilização que acompanha o norte cotidianamente voltou.

De sexta para cá mais não se divulgou mais nenhuma morte em decorrência do massacre da madrugada de terça para quarta. Mas ao ouvir moradores e gente próxima a moradores é possível constatar que ainda há pessoas desaparecidas desde aquele dia.

A desconfiança de se falar sobre o que ocorre em Belém publicamente é um fato, o medo que toma qualquer quebrada sudestina quando se depara com violência desse calibre é se fechar com medo dos algozes. Houve famílias que saíram da zona mais afetada para outros bairros para fugir de uma possível “Operação Pente Fino” na região.

Infelizmente este não será o primeiro ou último episódio da violência contra a periferia que veremos em Belém, ou em qualquer outra capital brasileira. A Mangueirosa é uma as capitais mais violentas do país, tendo aumentado o número de homicídios na região nos últimos 10 anos.

Dados da Ouvidoria de Segurança Pública do Pará mostram que, em 2013, foram identificados 135 homicídios cometidos por agentes de segurança pública, sendo 122 realizados por PMs, 12 por policiais civis e um por Bombeiro Militar. No mesmo período, os casos de lesão corporal chegaram a 118, e outras 13 pessoas denunciaram tortura. No entanto, a própria Ouvidoria acredita que este quantitativo é bem maior, haja vista que muitas denúncias nem chegam às delegacias.

[+] Trecho de texto anônimo falando sobre a Chacina em Belém

Sexismo e eleições: Estupro é sempre uma questão de poder

questãodepoderQuando li a notícia do caso da menina no Rio de Janeiro que foi estuprada por conta de divergências políticas eu congelei. Ela foi violentada por três homens que estavam identificados como eleitores de Aécio Neves. A primeira questão que me passou pela cabeça foi a eterna palavra de ordem: Estupro não é sobre sexo, é sobre poder.

Apesar de acreditar que tremenda violência está associada sim ao cenário animoso que se acirrou ainda mais durante o 2º turno, não tive como relembrar de diversos casos na política que envolviam da violência sexual a violência psicológica. Rememorei cada uma das histórias que já ouvi, passei ou acompanhei no tempo em que sou militante política.

Infelizmente, esta não foi a primeira mulher abusada por conta de divergência política, também não será a última. A política é espaço de poder e o poder por fazer parte do mundo público não é legado as mulheres, mas aos homens e a forma mais brutal de se lembrar qual lugar da mulher nesta sociedade patriarcal e capitalista: o de ficar quieta sem opinar sobre nada que faça parte da disputa de poder.

latuffviolênciamachistaA violência sexual em um cenário de acirramento do debate político só é movida por uma intenção: Mostrar para a mulher que aquele lugar é do homem cis e não dela e quando não há mais argumentos se ganha pela violência, se ganha utilizando a arma de guerra mais deplorável que existe.

Quando adentramos a política, ainda mais se ousamos disputar espaços com os homens, estamos afrontando o status quo da organização social que diz que o nosso lugar é organizando a vida privada e não atuando na vida pública e talvez essa seja uma lição que precisamos levar não apenas estas eleições 2014, mas de diversos processos políticos pelo mundo.

Durante as manifestações na praça Tahrir, no Egito, mulheres tiveram sua virgindade verificada pelo exército. O processo de acirramento político também se vale também de subjugar os outros, para manter o patriarcado, a detenção do poder vale tudo: de um olhar altivo de um homem de bem até o estupro de uma mulher que defende o direito democrático de outra fazer campanha para quem quiser.

sexismomataDeixo aqui toda a minha solidariedade a esta mulher, ela poderia ser qualquer uma de nós que ousa lutar, ousa subverter o status quo para mudar o mundo, para defender o que pensa e ser solidária a quem está sofrendo algum tipo de intimidação ou opressão.

A marca mais profunda está nela, mas sua história marca a todas nós mulheres. Feministas ou não, de esquerda ou não. Pois qualquer mulher que ouse levantar sua cabeça, disputar um poder que, segundo o patriarcado, não é da sua alçada disputar e modificar está a mercê de violência.

Eleições 2014, ou, o ovo da serpente

O NASCIMENTO DA FILOSOFIAPensei muito antes de sentar na cadeira e escrever o que eu penso sobre os rumos políticos que o Brasil vem tomando e que se refletiram no processo eleitoral deste ano. Confesso que há muita coisa que me assusta no cenário com que nos deparamos e o que mais me assusta é a profunda despolitização existente no Brasil, e não estou falando de uma burguesia tola que repete palavras de ordem que não tem sustentação alguma na realidade. Me assusta o fato da classe trabalhadora brasileira estar mais conservadora também, incluindo aí o fato de não se reconhecer mais como classe, mas apenas pensar dentro do seu próprio ganho individual e isso deveria ser alvo das maiores preocupações daqueles que se arvoram direção política de alguma coisa no Brasil.

Acho que no último período, com a redemocratização do país e com as poucas vitórias que conseguimos arrancar durante a Constituinte de 88, foi gestado um Ovo da Serpente por parte da esquerda brasileira. Óbvio que eu acredito que alguns setores possuem mais responsabilidades do que outros, porém uma coisa é fato: O superestruturalismo, o vanguardismo e a burocratização legaram para esquerda um pepino gigantesco.

A campanha deste segundo turno foi marcada por uma polarização que não víamos desde 1989. Mas diferente de 1989 – quando Lula falava em suspender o pagamento da dívida pública e em fazer reformas estruturais – agora não estavam em jogo projetos tão antagônicos. (BOULOS, Guilherme. O terceiro turno)

Não, Dilma e Aécio não são a mesma coisa, inclusive por que possuem trajetórias diferentes e isto pesa para a direita escolher em quem confia realmente para manter as coisas sob-controle no Brasil. Mas há um fato importante a ser levado em conta: nem toda direita estava ao lado de Aécio nestas eleições e nos últimos 12 anos parte dela esteve assegurando a governabilidade do governo petista, assim como assegurou a governabilidade no governo tucano. Constatar isso é importante inclusive para entendermos o por que os setores que ascenderam a classe média durante o governo petista apresentam muitas vezes discursos conservadores.

Ora, não é de agora que diversos movimentos sociais apontam que a sociedade estavaovoserpente vivendo sob um processo de recrudescimento conservador. O episódio dos recuos no PNDH3 por parte do governo em 2010, ano eleitoral, de temas relativos aos direitos das mulheres, LGBTs, indígenas, democratização da comunicação e reforma agrária já demonstrava que mesmo a direita entre ela ter discordâncias mil sobre diversos temas que cercam a política na hora de blocar para discussões que possam avançar de forma mais totalizante a consciência de classe eles não titubeiam.

Acabamos reféns no Congresso Nacional da governabilidade, a qual tinha na sua base partidos conservadores – incluindo aí o PSC que neste pleito foi compor o projeto que melhor representa o conservadorismo brasileiro: Aécio Neves. Vimos aí cair por pressão da base do governo no Congresso Nacional o kit anti-homofobia e a queda da portaria do Ministério da Saúde sobre casos de aborto legal já existentes no Brasil. De mãos atadas, é isso que podemos constatar. De mãos atadas por conta da tática adotada para conseguir chegar a presidência do país.

A questão é: A forma de disputar política da esquerda não tem como ser a mesma forma de fazer política da direita pelo simples fato de que para disputarmos consciência de classe contra uma hegemonia burguesa é preciso o cotidiano da organização, é preciso criar os espaços e os meios para isso. É preciso aprofundar a democracia de uma forma radical para que o fazer político esteja cada vez nas mãos do povo e criar condições para se avançar nos ditos temas polêmicos.

Congresso Nacional BrasiliaTalvez tenhamos que lembrar que não existe espaço vago na política, que ao não nos posicionarmos e criarmos condições de diálogo sobre temas que aumentam a igualdade em nossa sociedade e reparam distorções estruturais nós damos espaço para se perpetuar um senso comum conservador. Inclusive entre os nossos.

O carro-chefe das reformas era, sem dúvida, a reforma agrária que visava eliminar os conflitos pela posse da terra e garantir o acesso à propriedade de milhões de trabalhadores rurais. Em discurso por ocasião do encerramento do 1° Congresso Camponês realizado em Belo Horizonte em novembro de 1961, João Goulart, afirmou que não só era premente a realização da reforma agrária, como também declarou a impossibilidade de sua efetivação sem a mudança da Constituição brasileira que exigia indenização prévia em dinheiro para as terras desapropriadas. (FERREIRA, Marieta de Moraes. As reformas de base)

Estamos entrando no 4º mandato do governo petista e, infelizmente, reformas estruturais importantes que, inclusive, ajudariam a aprofundar as vitórias que os movimentos sociais alcançaram durante este último período não foram feitas: democratização da comunicação, reforma agrária, reforma urbana, tributação de grande fortunas, desmilitarização da polícia, demarcação de terras indígenas e quilombolas e tantas outras. Além obviamente das pautas civis, entre elas a legalização do aborto, casamento civil igualitário e a legalização das drogas.

Na disputa de posição entre organizações políticas na superestrutura talvez tenhamos perdido o que há de mais rico na formação da esquerda brasileira nos anos 80: a necessidade de não apenas disputar na superestrutura, mas também disputar a sociedade para o avanço da consciência de classes.

Podemos sentar horas em uma reunião para discutir uma vírgula de documento, mas documentos por si só não se refletem em avanço de consciência. Tanto que nós que viemos da tradição de estar nas ruas para pressionar quando junho de 2013 estourou ficamos maravilhados e ao mesmo tempo receosos com o grau de despolitização da massa e do como muitas vezes pautas conservadoras apareciam no meio das mobilizações.

junho20132014 e o segundo episódio de um processo em que as disputas políticas devem se acirrar e saber dialogar e disputar consciência é uma das tarefas do dia, primeiro por que a direita já dá sinais de que se por um acaso da vida o governo Dilma quiser apresentar qualquer projeto que ajude a avançar algo mais progressista no país eles blocaram para que isso não aconteça - só lembrarmos do quanto demorou para sair a votação do Marco Civil da Internet, né mesmo?-, segundo que para haver realmente mudanças profundas no Brasil é preciso que a esquerda esteja onde sabe pressionar e fazer política e este lugar são as ruas, mas não só, é preciso compreendermos o que significará solidariedade de classe e unidade da esquerda para o próximo período, pois a disputa com o conservadorismo já é dura e tende a ser pior.

Acho que precisamos lembrar que os limites de avanço em um estado burguês são os limites que a burguesia dá para qualquer governo mais progressista que se proponha a gerenciar o estado. O ovo da serpente no Brasil não cresceu fora do governo social-liberal do PT, cresceu dentro dele, ocupando ministérios e base de governo no Congresso Nacional e não levar isso em conta e apenas fazer uma agitação ufanista sobre o governo é irresponsabilidade.

Por fim: Não se faz disputa política contra o conservadorismo e luta social dentro de 4 paredes, seja ela qual for. Parlamentares, sindicatos, DCEs ou a forma de organização que for não devem ter um fim em si mesmos, mas sim ter como fim a emancipação de uma classe trabalhadora diversa e desigual entre si mesma. E pra isso o combate a burocratização e vanguardismo se faz essencial.

Sem mais publicações