Nota de Apoio à ocupação Sabará

Está sendo despejada, neste momento, a ocupação do bairro Sabará, cidade de Curitiba, estado do Paraná. Esta é uma ocupação resistente que junta trabalhadores e trabalhadoras que tem coragem de lutar para ver realizado seu direito fundamental à moradia.

É a segunda vez que a prefeitura de Curitiba, o governo do Paraná, o judiciário e a polícia fecham os olhos aos direitos que o povo tem em defesa de uma propriedade que há anos estava vazia e abandonada. É a segunda vez que estas famílias são despejadas.

Enxotadas de um lado para o outro, vivendo em casa de parentes, pagando aluguéis com os quais não podem arcar, sofrendo a humilhação da morada de favor ou o desespero de viver em áreas de risco, o povo da ocupação Sabará resiste e resistirá.

Se foram despejados hoje, sabemos, amanhã erguerão suas cabeças na luta novamente.

É preciso denunciar o abuso dos poderosos, a ganância do capital e a precária e indigna situação a que são lançados os trabalhadores e trabalhadoras que constroem toda a riqueza existente neste país e nada possuem.

OCUPAÇÃO SABARÁ! PRESENTE NA LUTA!
TODA SOLIDARIEDADE AO POVO SEM TETO DE CURITIBA!
SOMOS TODOS SABARÁ!
SE MORAR É UM PRIVILÉGIO, OCUPAR É UM DEVER!

Movimento Luta Popular – São Paulo
Movimento Quilombo Urbano – Maranhão
Ocupação Carlos Lamarca, Associação Moara Jerusalém – Pará
Ocupação Pinheirinho
M19 – Hip Hop
Sarau Vila Fundão – São Paulo

Mães pretas, mães encarceradas, mães trabalhadoras, mães sem direitos

Faz tempo que não consigo sentar e organizar um texto para publicar aqui pelo BiDê Brasil, mas como hoje é dia das mães e também 124 da abolição da escravatura achei por bem juntar os temas e sair do ostracismo aqui do blog.

Hoje é o dia em que a maternidade é celebrada, este instinto divino natural das mulheres que fica anos latentes até elas serem fecundadas e darem a luz aos minúsculos rebentos que formaram novos homens e mulheres da sociedade. Dádiva preciosa, é o significado que foi socialmente construído em nossa sociedade, bem antes da revolução industrial, mais ou menos na época em que surgiu a propriedade privada e a necessidade de se assegurar que os herdeiros de uma determinada linhagem eram seguramente herdeiros legítimos.

O instinto materno, como tantas outras coisas, é socialmente criado. Pior a maternidade da forma como a conhecemos é imposta as mulheres cotidianamente, muitas vezes sem que o estado e os governos garantam o mínimo acesso a direitos para que as mulheres mães tenham condição de criar seus filhos e fazer o mínimo planejamento familiar.

É no mundo do trabalho que vemos mais desnudada a diferença construída por um estado capitalista e patriarcal. Pois é neste espaço em que a diferenciação entre o trabalho reprodutivo e o trabalho produtivo se denudam e podemos perceber o quanto um é menos valorizado que o outro, e o quanto as mulheres acabam por assumir duplas ou triplas jornadas de trabalho. A secundarização do combate ao machismo só ajuda a reafirmar um estado baseado na opressão e desigualdade entre homens e mulheres, e assim pode ser dito também sobre o combate ao racismo e à homofobia. (FRANCA, Luka. A classe trabalhadora tem raça e gênero)

Vivemos em um mundo onde as mães são ovacionadas, mas quando aproximamos a nossa lupa vemos quanto o mínimo para o exercício da maternidade plena para todas as mulheres está longe de se efetivar, são mulheres que perdem suas moradias por causa de megaobras no Brasil todo, são atacadas dia após dia com os cortes anuais do governo em áreas sociais importantes como educação e saúde e nos afetam diretamente. São os nossos filhos que são mortos diariamente pela polícia militar brasileira, se durante a escravidão eram os sinhozinhos que tiravam a vida dos nossos filhos hoje o trabalho sujo foi institucionalizado, é o próprio estado que se livra de nós, seja por meio da política de genocídio da nossa juventude, seja pela crescente precarização dos serviços públicos aos quais estamos submetidas.

Somos nós e são os nossos filhos. Se avançamos um pouco mais na discussão nos deparamos com a situação das mães encarceradas. Realidade que já chegou aos cinemas seja como cinema “real” ou ficcional, só assistir Leite e Ferro ou Leonera para poder entrar um pouco na atmosfera do que é a maternidade encarcerada.

Cuidado pré-natal de rotina, incluindo-se acesso a exames de ultra-som e de sangue, não eram disponibilizados às mulheres grávidas em nenhuma das cadeias públicas visitadas. Algumas mulheres informaram receber algum tipo de cuidado pré-natal básico na unidade de saúde local, porém a frequência com que era examinadas variava consideravelmente entre as cadeias. As presas, normalmente, informaram que a visita feita pelo clínico geral não incluía cuidados pré-natais. Isso significa que elas dependiam dos funcionários para o agendamento de consultas e o seu posterior transporte para a unidade de saúde local. Algumas informaram ter descoberto sua condição de soropositivas na hora do parto, porque nenhum exame de sangue havia sido feito durante a sua gravidez. (HOWARD, Caroline (org.). Direitos humanos e mulheres encarceradas. págs 98 e 99)

O cotidiano nos mostra o quanto a maternidade, seja livre ou encarcerada é divinizada, mas na realidade o que vemos é a expropriação das mulheres mães, principalmente as negras e da classe trabalhadora, pois são estas que vêem seus filhos assassinados por uma política de higienização social nas periferias, sofremos com a falta de investimentos na saúde pública e temos postos de trabalho que não nos deixam ver nossos filhos crescer e em contrapartida não temos como mantê-los estudando visto o alto déficit de vagas na educação infantil.

Sofremos diretamente com o jogo contraditório do capital, como se a nossa carne e nosso sofrimento não já tivesse sido tão moído durante os anos de escravidão. Não, não basta termos sido arrancadas de nossas terras e estupradas por sinhozinhos, até hoje pagamos por nossa cor e se ontem éramos propriedade de outrem, hoje somos do setor mais expropriado e invisível da classe trabalhadora, as vezes invisível até aos olhos dos nossos pares.

Um dia das mães casado com o 13 de maio deixa apenas um recado para nós, recado que é preciso insistir para que se entranhe em nossos discursos e práxis revolucionária: construiremos uma revolução preta, feminista e socialista para não mais ver os nossos sofrerem.

Biscate Social Club: Uma biscate de classe

Segue o primeiro texto publicado no Biscate Social Club.

E aí que um dia recebo pelo Facebook um convite inesperado, a Luciana me pedindo uma contribuição para o Biscate Social Club. Já se passou quase um mês do convite, mas finalmente entre um espacinho da militância e outro consegui sentar, formular e escrever algo para cá.

A questão é que a máxima de santa ou puta é algo premente na vida de toda mulher, você viver a sua sexualidade de forma plena, quebrando os tabus é algo que será alvo de repreensão, ou por que uma mulher na sua posição não deveria se comportar deste ou daquele jeito, ou por que na sua família acham estranho tu levares casos para dormir no teu quarto. É óbvio que junto a classe trabalhadora não seria diferente.

O texto pode ser lido completo aqui.

Blogueiras Feministas: Uma semana de luta pela terra, uma semana de luta das mulheres

Eu sei que estou super sumida por aqui, mas o fato é que tenho tido que correr com diversas tarefas, algumas serão divulgadas mais para frente, outras quem está pelo Twitter e Facebook já devem acompanhar. O fato é que não tenho conseguido sentar para traduzir textos ou escrever mais cotidianamente aqui no Bidê e isso me corta o coração.

Por enquanto vou colocando aqui os links dos textos que tenho escrito para diversos outros espaços.

Segue o décimo sétimo texto publicado no Blogueiras Feministas.

Voltando da minha imersão e falta de traquejo para escrever sobre os temas que me agradam, vai que começo a articular um post sobre a temática de mulher e a questão da terra e me dou conta que esta semana nos deparamos com marcos da luta pela terra no Brasil importantíssimos.

Não tem como falar sobre mulheres  e luta pela terra sem falar do Movimento Sem Terra (MST), não tem como nesta semana não lembrar dos 16 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, ainda mais para quem na época morava no estado e via cotidianamente o ar de não fiz nada do então governador do estado Almir Gabriel sobre as mortes cujo sangue jorra até hoje das suas mãos.

O texto pode ser lido completo aqui.

Blogueiras Feministas: Para além dos assuntos “de mulher”

Segue o décimo sexto texto publicado no Blogueiras Feministas.

Parei na frente da tela do computador e travei, travei bem travadona mesmo, não sabia sobre o que escrever aqui neste espaço, fosse relacionado à política e mulheres, fosse relacionado a relações de gênero na sociedade e a luta de classes. Simplesmente travei, como se tudo que já tivesse escrito em algum canto sobre estes temas tivesse sido muito bem resolvido, mesmo eu sabendo que não foram muito bem resolvidos e alguns debates precisamos retomar sistematicamente para realmente poder disputar a sociedade. A questão é que travei bonito e aí comecei a pensar em todo este espaço criado na internet que dá vazão tanto as ideias de esquerda e mais progressistas quanto as mais conservadoras, é espaço na super-estrutura de debate de ideias. Não eu não acho que a internet possa ser chamada de “trabalho de base”, mas sim é um espaço super-estrutural e que cumpre um papel importante na disputa de ideias e da sociedade, mas apenas uma ferramenta.

Levando em conta isso resolvi falar de mulheres, mulheres que vem tocando trabalhos super bacanas e ocupando um espaço interessante na internet e que devem ser acompanhadas com atenção. A primeira é a Ana Maria Straube, que retomou o blog Em Espiral, lá ela fala sobre a crise capitalista, não-entrevista com Chico Buarque, Cuba e um monte de outras coisas sobre o cotidiano jornalista dela e que poderia ser o cotidiano e as histórias de qualquer jornalista jovem.

O texto pode ser lido completo aqui.